Sejam Bem Vindos!

Viajar pela leitura sem rumo, sem intenção.
Só para viver a aventura que é ter um livro nas mãos.
É uma pena que só saiba disso quem gosta de ler.
Experimente!
Assim sem compromisso, você vai me entender.
Mergulhe de cabeça na imaginação!

(Clarice Pacheco)

30 de junho de 2014

A Invenção das Asas - Sue Monk Kidd

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Edição: 1
Editora: Paralela
ISBN: 9788565530484
Ano: 2014
Páginas: 328

Em sua terceira obra, Sue Monk Kidd, cujo primeiro livro ficou por mais de cem semanas na lista de mais vendidos do New York Times, conta a história de duas mulheres do século XIX que enfrentam preconceitos da sociedade em busca da liberdade. Sue Monk Kidd apresenta uma obra-prima de esperança, ousadia e busca pela liberdade. Inspirado pela figura histórica de Sarah Grimke, o romance começa no 11º aniversário da menina, quando é presenteada com uma escrava: Hetty “Encrenca” Grimke, que tem apenas dez anos. Acompanhamos a jornada das duas ao longo dos 35 anos seguintes. Ambas desejam uma vida própria e juntas questionam as regras da sociedade em que vivem.

A Invenção das asas é um romance que comove, apaixona e aproxima o leitor do drama da escravidão. Fatos e personagens históricos são inseridos na ficção para recontar a história das irmãs Grimké, abolicionistas e feministas norte-americanas do século XIX. Lutando corajosamente pela liberdade dos escravos, as duas mulheres também empreenderam uma batalha contra a desigualdade de gênero.

Tendo como cenário a cidade de Charleston, no sul dos Estados Unidos, início do século XIX, a narrativa alterna os capítulos com as vozes de Sarah Grimké e Hetty ‘Encrenca’, respectivamente sinhazinha e escrava. Ao longo de mais de trinta anos acompanhamos a luta dessas mulheres, desde a infância, quando ‘Encrenca’ é dada para Sarah como presente de aniversário, para servir-lhe de companhia. A recusa de Sarah em apropriar-se da garota inicia a luta que travará até o fim de seus dias.

Sob a perspectiva de Sarah, a autora fala da eminente abolicionista que reivindicou mais que a libertação dos escravos: queria uma sociedade justa e a pacifica convivência entre brancos e negros, homens e mulheres. Ainda menina, horrorizada com as punições impostas aos escravos, demonstra claro interesse pela área jurídica, influenciada pelo pai (juiz conceituado), sonhando ser advogada. Coisa impossível para a época, quando as mulheres não tinham outro destino que não fosse um bom casamento, a criação dos filhos e os cuidados com a casa e a criadagem.

“Eu não sabia explicar à época como uma árvore mora dentro de sua semente ou como eu de repente soube que do mesmo modo enigmático algo vivia dentro de mim - a mulher que eu me tornaria -, mas eu parecia saber subitamente quem ela era.” (Sarah, p. 24)

Hetty ‘Encrenca’ - cuja alcunha é seu ‘nome de escrava’ - é uma personagem cativante, que transita entre a dor e a esperança. Ao lado da mãe, a escrava e exímia costureira Charlotte, alimenta o sonho da liberdade enquanto realiza pequenos atos de rebeldia, como escape e vingança contra as exigências e crueldades da Sinhá Mary Grimké.

“Minha mamã era esperta. Não aprendeu a ler e escrever como eu. Tudo que ela sabia vinha do pouco de misericórdia que ela encontrou na vida.” (Hetty 'Encrenca', p. 9)

Com a impossibilidade de emancipar a escrava e tendo-a como dama de companhia, Sarah decide tratá-la da melhor forma, como a uma amiga. Liberta-a, então, da ignorância: com os poucos livros a que tem acesso, ensina Hetty a ler e discutir ideias, contrariando a lei que proibia a alfabetização dos escravos. Até que a esperta ‘Encrenca’ é descoberta escrevendo e Sarah é castigada com a interdição da vasta biblioteca do pai, único interesse e passatempo da garota. Não poderia ser pior.

Enfrentando uma gagueira de origem emocional sempre que precisa impor sua opinião, Sarah decide incutir na irmã mais nova, Angelina (Nina), suas convicções sobre a libertação dos escravos. Juntas, Sarah e Nina combatem preconceitos, enfrentam seus pais, irmãos e a sociedade escravagista do Sul. Recusam casamentos que as fariam bem aceitas na sociedade - e o que era esperado das mulheres, obviamente. Seguem para o Norte dos EUA, onde encontram espaço para reivindicar suas posições políticas e sociais, auxiliadas pelos apoiadores das novas ideias abolicionistas. Sarah e Nina não desistem de suas lutas em favor do que pensam. Poderiam muito bem permanecer quietas e obedientes, mas encaram a ira da sociedade e a perseguição religiosa.

Sarah, Nina e Hetty ‘Encrenca’ batalham o quanto podem, cada vez mais rebeldes, cada uma à sua maneira. Sarah é mais polida e comedida e, ao longo do tempo, amadurece e fica mais segura para mudar o jogo. Nina é atrevida e impulsiva, fala o que vem à cabeça e recusa-se, terminantemente, a ser domada pelos costumes e regras da sociedade da época. À ‘Encrenca’ cabe lutar (em segredo e perigosamente) pelos sonhos que acalentou com a mãe: o de comprar sua liberdade ou fugir, em último caso.

“Havia tanto no mundo para ter e não ter.” ('Hetty' Encrenca, p. 37)

Unindo as pontas dos extremos, a autora insere o leitor numa visão privilegiada dos sentimentos, pensamentos e argumentos das protagonistas Sarah e Hetty ‘Encrenca’. Embora tenha uma vida abastada e cheia de facilidades, a sinhazinha é refém das escolhas que não fez. A certa altura, ‘Encrenca’ pressiona sua ‘dona’: “Eu sou presa pelo corpo mas você é presa pela mente”. É uma frase que resume metade do livro.

A Invenção das Asas é um livro que rapta o leitor para uma viagem no tempo, em descrições perfeitas de uma época de medo, lutas, dor e preconceito. Um romance sinestésico, que exprime as sensações, a temperatura e os cheiros que cercam todos os personagens. Uma trama histórica, cujas personagens de fato existiram, delineadas com sensibilidade pela talentosa Sue Monk Kidd. É, ainda, um resgate documentado numa escrita irretocável, que apresenta aos leitores a coragem dessas mulheres que viraram o mundo de ponta-cabeça. Creio que todos deveriam conhecer esta história.

Livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/363447-a-invencao-das-asas

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***

Essa resenha foi escrita por Manuh Hitz, colaboradora do blog.

Facebook: https://www.facebook.com/manu.hitz.7?fref=ufi

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26 comentários:

Rodolfo Euflauzino disse...

querida Manuh, eu não acho que todos deveriam conhecer, eu tenho certeza, deveria ser obrigatório. quando nos deparamos com pessoas que mudam o mundo é sempre assim, é preciso vivenciar o sofrimento, tocá-lo e depois expô-lo para que outros mais também se sintam tocados por ele. por coincidência lerei o livro "12 anos de escravidão" e vivo percorrendo sebos pra saber um pouco mais sobre a abolição em nosso país, assim como me apaixonei pelo cangaço. romances históricos são assim, deixam-me arrepiado, daí procuro pelas personalidades, tentando achar o que os motiva a serem como são.
percebo que seu fraco também são os romances históricos (e se vier com uma escrita poética, melhor), provavelmente por causa dessa "viagem no tempo", o poder de vivenciar sem estar presente ou estando presente sem que o mal nos atinja. falo isso porque acabo entrando no livro, fazendo parte dele, um coautor sem acanhamento. e como é gostoso quando nos deparamos com algo que faz nosso sangue correr mais depressa, não é mesmo?
pela história e principalmente por suas palavras, acabei me empolgando mais do que deveria, perdoe-me, você me destrava a língua sempre. adoro suas resenhas.

Leninha - sempre romantica disse...

Mais um livro sobre escravidão, será que eu aguento???

Vanilda disse...

Não há como negar que o tema "escravidão", seja ambientado no Brasil ou em qualquer outro dos países que passaram por essa fase, sempre rende belas histórias de luta. E veja só, Manu, já tinha ouvido falar desse livro, mas não sabia que o tema era esse. Pela sua resenha, o texto me pareceu ser bem marcante, além de ter os fatos históricos contados com fidelidade, o que é uma coisa que eu admiro muito em histórias desse tipo. Gostei demais da indicação e resenha nota dez, como sempre!

Rízia Castro disse...

Manuh!
Não conhecia o livro e não fazia ideia do quanto era bom!
Sua resenha apaixonante aumentou minha vontade de ler!
Adorei a dica
Beijinhos
Rizia - Livroterapias

Milena Nones disse...

Nossa, o livro realmente parece ser uma viagem no tempo! Adorei saber que há personagens feministas o suficiente para defender seus ideais.

Amei!
Beijos

albumdeleitura.blogspot.com.br

thaila oliveira disse...

Manu esses livros que tem um pé na realidade me chocam, mas ao mesmo tempo me intrigam, quantas coisas para pensar nos deixam?
http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

Eduarda Menezes disse...

Oi, Manu!
Eu adoro esse livro. Foi um dos melhores que li este ano.
O fato de conter personagens reais, Sarah e sua irmã mais nova, mulheres que realmente fizeram diferença e deixaram sua marca na história do mundo, faz toda a diferença na experiência de leitura. É muito inspirador saber que, contra todas as adversidades, ainda há seres humanos de fibra que lutam pelo que acham certo.
Beijo

Chrysthie Audi disse...

Querida Manuh!
Que resenha linda e apaixonante!!!
Ao contrário dos demais livros de época, esse não me pareceu denso e arrastado como muitos!
Achei muito legal essa temática da amizade entre a Sarah e a Encrenca e a luta delas para libertar a amiga e todos os demais negros daquela repressão e tortura a que eram submetidos!
Acho que pessoas assim tinham uma alma muito a frente de seu tempo. Sarah me pareceu determinada, forte e lutadora. Adoro personagens assim, que fogem do estereótipo de mulher submissa. Gosto de crer que mesmo àquela época, tínhamos a nossa força!
Adorei, adorei mesmo!!! E os quotes? excelente seleção!

Um beijão
Chrys Audi
blog Todas as coisas do meu mundo
https://todaaliteraturadomundo.blogspot.com.br

Giulia Ladislau disse...

Manuh, Manuh... Suas resenhas sempre me deixam com vontade de sair correndo pra comprar o livro.
Eu já tenho uma queda por histórias com protagonistas mulheres cujo foco não é o romance. Somando com a questão da ousadia pra época e com a escravidão, é um prato cheio pra mim. Como nunca fui boa de História, adoro ler e ver meios de entendê-la sem ser do modo massacrante da escola. Creio que essa é uma ótima oportunidade para isso.
A capa não me chamou atenção, mas o conjunto título + sinopse certamente me deixou no mínimo curiosa. Dica anotada!
Beijinhos!
Giulia - Prazer, me chamo Livro

Marcela Marques disse...

Oi Manu!
Recebi teu recadinho no blog e vim correndo ver a resenha! Nossa, primeiro vamos falar dessa capa: Que arraso! Eu adoro capas assim, sem falar neste nome que já dá um ar de "sou importante". Sua resenha está magnífica e eu com certeza lerei este livro em breve.
Adoro histórias envolvendo "história" e escravidão. Sem contar que se for narrado por uma mulher, dá um toque de ousadia que cativa na hora. Pelo menos, acabou de me cativar.
Anotei aqui e você acabou de contribuir para a minha falência, haha <3
Beijos,
Marcela.

Gladys Sena disse...

Oi Manu!
Não conhecia essa obra, mas fiquei muito interessada, pois aborda um tema muito pungente para humanidade: a escravidão.
Vai para os meus desejados, ;)
Bj!

Jeni Viana disse...

Oi, Manu! Menina, você é demais. Sério, adorei a resenha! Ficou com muita cara de chique e profissional.
No que diz respeito ao livro, já o havia visto em algum blog, mas acabei nem dando muita atenção. E agora que acabei de saber que fala sobre a escravidão de uma maneira única, fiquei bem curiosa para ler!

PS: Gostei muito do quote "Eu sou presa pelo corpo, mas você é presa pela mente." Tocante!

Um beijo enorme,
Doce Sabor dos Livros - Aguardo a sua visita!

Gisela Menicucci Bortoloso disse...

Manu, bela resenha, cheia de sentimento, muito linda mesmo. Esse tipo de história deveria ser lida por todos nós, pois com a leitura não só aprendermos um pouco mais de História da nossa civilização, mas aprendemos também a sermos pessoas melhores. Depois de ler sobre tanto sofrimento, falta de liberdade e a luta por ela, temos que dar valor ao que nós somos e temos, além de pararmos para pensar sobre o que estamos fazendo para melhorar o mundo que vivemos, pois aqui e agora também tem muita coisa errada acontecendo. E nós? estamos fazendo o que para melhorar o nosso mundo? Deve ser um livro que leva a muita reflexão.
Abraços,
Gisela
@lerparadivertir
Ler para Divertir

Alessandra Tapias disse...

Eu já tinha visto a capa, e tinha gostado muito.
Mas não sabia do que se tratava.
Amei resenha!!! Não esperava ser raptada por ela. Imagine quando ler o livro!!!!

Bjks

Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

Luiza disse...

Gostei da resenha, conhecia o livro, mas não sabia muito sobre ele.
Bjs
http://eternamente-princesa.blogspot.com.br/

Ju LiteRata disse...

Já disse em um outro comentário, em um outro blog, você tem o dom de me deixar encantada, mas diferentemente do comentário anterior eu realmente fiquei curiosa com essa narrativa, apesar de se tratar de um tema tão denso quanto o anterior tive a impressão que há um pouco de humor na escrita dessa autora, misturando o trágico, o drama da lutas dessas três mulheres com situações que provavelmente deve arrancar um riso de nossos lábios em alguns momentos. Fiquei curiosa e irei em busca de maiores informações :) http://blogliterata.blogspot.com.br/

Jéssica Rodrigues disse...

Oie Manuh
Eu já li esse livro é realmente é um livro incrível. Como você disse, todos devem conhecer essa história. Em alguns momentos eu chorei com tudo que eles passavam, e é um história comovente. Parabéns pela resenha, e o livro merece ser lido por todos. Amei a escrita da Sue.

Beijos,
Jéssica
www.leitorasempre.com

Cida disse...

Oi Manuh! Eu tinha lido a resenha no celular e agora venho para comentar, eu acho que estra história exala sensibilidade, livros que se passam neste período tendem a ser marcantes, mas vejo nesta obra o diferencial de ser muito feminina, por conta das protagonistas, e isso mostra um lado mais coração para nós mulheres, se é um homem como personagem central, a razão prevalece, e por isso não nos toca da mesma maneira. Linda resenha, lindo livro.

Bjos!!
Cida
Moonlight Books

Vê Inamonico disse...

Oi Manu!

Esse foi um livro que, a princípio, não me interessou muito, mas, depois que me arrisquei a ler a sinopse, achei super interessante! E sua resenha só me provou que estaremos diante de uma história emocionante e inspiradora.
Sem dúvidas me deixou com ainda mais vontade de ler; vou procurar adquirir esse livro o quanto antes! hahahaha
Parabéns pela resenha, ficou maravilhosa! :D

Beijos,

Only The Strong Survive

Lara Lange disse...

Oi maaanuh!
Já tinha visto o livro por ai, mas não tinha parado para ler a sinopse, você me fez fica arrependida! Livros com contextos históricos, ainda mais sobre personagens que fizeram a diferença para humanidade, deveriam ter um lista própria sabe?! Quase que como uma lista de leituras obrigatória, como se fosse a do vestibular. Afinal quanto mais sabemos do nosso passado, mas podemos entender o que somos hoje.

um beeijo Lara
http://meusmundosnomundo.blogspot.com.br/

Elis Culceag disse...

Oi Manuh!!
Que resenha mais incrível, cheia de sensibilidade. Fui lendo e vendo "o filme" na minha cabeça. Apesar de não ser um estilo de leitura ao qual esteja acostumada, fiquei bastante tentada a experimentar ;)
Beijos... Elis Culceag. * Arquivo Passional *

Rafinha disse...

Que resenha lindaaaaaa!!!
Eu adoro livros com temas que mexem com a nossa sensibilidade e com personagens fortes. Já irei atrás do livro.

Samantha disse...

Ai gente, preciso desse livro para ontem. Nem preciso falar que livros que falam sobre a luta das mulheres e de feminismo me atraem demais. Acho que esse livro deve ser não só tocante, mas também bastante pesado por se tratar de um tema tão ruim quanto escravidão. Acredito que todos os autores que tem a capacidade de tratar assuntos assim de forma clara e sensível são realmente abençoados com o dom de contar histórias.

Bjks
Sam
Biblioteca Empoeirada

Paloma Viricio disse...

Olá Juliana! Adorei a resenha, já li o livro e gostei bastante também...é muito contagiante.
Beijos!
Monólogo de Julieta.

Lais Cavalcante disse...

Faz um tempo que estou de olho nesse livro por diversos motivos. Acredito que as cores da capa e a criatividade do título já envolvem o leitor. Ainda mais levando em consideração a premissa, sobre a luta das mulheres, o preconceito e tudo mais... Tenho certeza que vou me deliciar com esse livro.

Livros com café disse...

Parece ser uma história bem comovente, muito triste uma criança de 10 ser escrava neh nem imagino quanto sofrimento
Te espero no blog
POST NOVO SORTEIO
Um beijo flor

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