Sejam Bem Vindos!

Viajar pela leitura sem rumo, sem intenção.
Só para viver a aventura que é ter um livro nas mãos.
É uma pena que só saiba disso quem gosta de ler.
Experimente!
Assim sem compromisso, você vai me entender.
Mergulhe de cabeça na imaginação!

(Clarice Pacheco)

25 de agosto de 2014

A cor do Leite – Nell Leyshon

A_COR_DO_LEITE_1401741058P 

essa é a minha resenha e eu estou escrevendo ela com as minhas próprias mãos. é o ano do senhor de dois mil e catorze.

Parece estranho uma resenha começar assim, mas é dessa forma que Mary, a narradora protagonista, escreve. Fiquei tão afeiçoada e conectada a esta personagem que não poderia começar o texto sem fazer uma deferência. Ainda estou tremendo com o desfecho e com todas as emoções crescentes e represadas, que desaguaram numa surpresa impactante.

Mary é uma mocinha de 15 anos, acaba de ser alfabetizada, nunca frequentou escola e não tem acesso a lazer ou informação. Trabalha arduamente, do nascer ao por do sol, nas tarefas da fazenda, cuidando dos bichos e da terra, ao lado do severo pai e das três irmãs mais velhas. Seus pais são muito rudes e a única relação de afeto é com o avô inválido, negligenciado pelos membros da família, seu parceiro e confidente. Não há diálogo, não há carinho. O ano é 1831 e a aridez da vida ensinou Mary a ser forte.

“o senhor não fica triste?, eu perguntei.

não por muito tempo.

nem eu, eu falei. tem umas vezes que eu tenho que ficar me lembrando que estou triste senão eu começo a ficar feliz de novo."

A jovem Mary é pura, ingênua, mas sua língua é afiada, diz o que pensa. Tem uma perna deficiente e os cabelos são da cor do leite. Vai trabalhar na casa do senhor Graham, presbítero da cidade, cuja esposa está doente. Em contato com uma vida completamente diferente da dureza da fazenda, é bem recebida, aprende novas tarefas, inquieta-se com os momentos ociosos e tem a oportunidade de aprender a ler e escrever. Apesar da grande mudança, permanecem a privação de liberdade e a subordinação à vontade masculina. Estamos na primeira metade do século XIX e a voz feminina não é considerada. Só lhe resta a resignação, mas não sem rebeldia.

“acabou?, ele perguntou.

não. sim.

ele sorriu. você fala o que vem na sua cabeça.

eu só tenho uma cabeça e tenho que falar o que vem nela, eu falei.”

A narrativa em primeira pessoa pode parecer cansativa e até irritante a princípio, porque Mary usa letra minúscula e é alheia às regras gramaticais. Mas é essa estrutura de texto que traduz toda a intimidade do relato. Mary repassa sua vida com a urgência de explicar algo, de justificar alguma coisa que fez, mas que só saberemos nas últimas páginas. O equilíbrio entre a sinceridade e a ingenuidade culmina num discurso cru, verborrágico, visceral. Toda a força expressiva de Mary torna o texto muito delicado e essencialmente confidencial. É isso que comove: você ama Mary exatamente pelo que ela é.

Cada capítulo é uma estação do ano, iniciando na primavera, quando “tudo são flores” e Mary ainda vive na fazenda ao lado da família. O frio do inverno fecha a narrativa com o inesperado, o ponto alto da trama, que até então caminhava deliciosamente morna. Essa marcação do tempo harmoniza-se com a pressa que Mary tem de contar detalhadamente o que sucedeu e que a levou a escrever sua história. E que história!

Ao longo das páginas o dia a dia parece monótono, mas ela sempre abre o capítulo avisando que algo vai acontecer, alimentando a tensão da iminência do clímax:

“esse é o meu livro e eu estou escrevendo ele com as minhas próprias mãos.

agora é o ano do senhor de mil oitocentos e trinta e um.

eu não gosto de contar tudo isso pra você. tem coisas que eu não quero dizer. mas eu falei pra mim mesma que eu ia contar pra você tudo que aconteceu. eu disse que ia contar tudo e é por isso que eu tenho que ir até o fim.”

Você vai se envolver, vai querer ajudar, acolher, sacudir Mary... Ela não é a mocinha doce e sonhadora dos romances de época. Mary é dura, casca-grossa, atrevida, mas todos esses predicados são frutos da desesperança, de sua vida difícil. Ela é contraditoriamente resignada e indomável. E vai surpreender. Este é um romance para ficar na memória, deixar um gosto amargo, inquietar.

“Tragicamente, Mary está certa: homens e feras têm muito em comum.” (Daily Mail)

A bela capa do livro não mostra o rosto de Mary, assim como o texto não revela logo sua força. Só no inverno de Mary, no ápice da leitura, conheceremos a verdadeira face da dor e da desilusão, sentiremos a fúria do instinto de sobrevivência. Então a enxergaremos, a imagem de Mary estará completa.

A Cor do Leite é uma história profundamente sensível. A autora Nell Leyshon criou uma personagem tão rica e intensa que facilmente figurará na galeria das personagens inesquecíveis.

Classificação no Skoob: 5 estrelas

http://www.skoob.com.br/estante/livro/44103787

10431528_457140047755038_7827353751796892210_n


Essa resenha foi escrita por Manuh Hitz, colaboradora do blog.

Facebook: https://www.facebook.com/manu.hitz.7?fref=ufi

Related Posts with Thumbnails

14 comentários:

thaila oliveira disse...

Manuuuuuuuuuuuuuu
esse livro tem um ar de intenso que muito me chamou a atenção, o sofrimento da mocinha que salta das página para retratar uma realidade de seu tempo! é uma questão cultural por trás!
http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

Chrysthie Audi disse...

Manu,
Você se revela uma linda e intensa leitora! Sinto muito orgulho de sua versatilidade, rs
1831, uau! Como deve ser difícil retratar tão bem, tão decentemente uma época tão distante de nossos tempo, costumes e linguajar.
Pelo visto a Mary se descobriu ao longo da leitura e descobriu uma nova vida. Falar o que pensa naquela época deveria ser motivo de muitos castigos físicos.
A época era de homens rudes que exigiam isso também de suas esposas e assim os filhos cresciam com respeito, mas sem carinho. Muito solitário no meu ponto de vista, eu não sobreviveria.
Adorei a ideia das estações do ano representarem uma época da vida de Mary, genial, aliás.
Acho que eu conseguiria me identificar em alguns pontos com ela... casca grossa, impetuosa, fala o que pensa hehehehe.
Gostei bastante da intesidade de suas palavras que demonstraram que você simplesmente viveu a história e não poderia ser diferente, não é mesmo minha amiga!
Suas escolhas são sempre geniais e cada dia pego um pedacinho para mim rs.
Um mega beijo
Chrys Audi
Blog Todas as coisas do meu mundo

Sammysam Rosa disse...

Gente que livro! Acho que nunca vi uma protagonista retratada dessa forma e confesso, quando vi a capa, pensei que fosse mais um daqueles livros água com açúcar! Fiquei super interessa na leitura, bela resenha Manu!

Beijos.

www.daimaginacaoaescrita.com

Rízia Castro disse...

manuuuuuuuu,
eu recebi 'a cor do leite' pela editora, junto com uma cartinha seguindo a mesma "regra narrativa" da mary e me fisgou naquele momento, só que ainda não tive tempo pra ler :/
já vi que vai ser daquelas leituras que me fará chorar (ou quase) sos ;-;
adorei a sua resenha, como sempre né? HUEHUAEHUAE

beijos,
~nathália n.
www.livroterapias.com

Simone Santiago ( Luka ) disse...

Manuh, eu acho que esse é um livro para se ler e depois pensar sobre ele um tempão. Estou certa ?
Tem certos livros que a gente chega até a última página, mas demora para esquecer dos personagens ;-)

Cida disse...

Oi Manu! Você apresentou a Mary sem apresentar. Como assim? Vou explicar. Você nos fala sobre uma garota notável e de personalidade forte, eu já gostei de saber que ela tem língua afiada, adoro mocinhas mais ousadas, e por todas as características citadas, ela me ganhou, ao mesmo tempo que me deixou muito curiosa sobre sua jornada de vida, senti que há algo aí, nas entrelinhas e preciso descobrir o que é. Que linda resenha, com certeza é um belo livro. Já coloquei nos desejados.

Bjos!!
Cida
Moonlight Books

Samantha Freitas disse...

Manu, sempre me conecto com os livros que você lê. Sua resenha é sempre tão leve e ao mesmo tempo tão profunda, que consigo vivenciar o que você sentiu ao ler o livro. Você terminou o livro, mas o personagem não saiu de você. Quero muito conhecer Mary... é um livro que nos faz pensar... Não é só mais uma mocinha a la Jane Austen, Mary é impetuosa de uma maneira diferente... Consegue ser forte, sem aparentar... Gostei muito!

Rodolfo Euflauzino disse...

querida Manuh, antes de iniciar a leitura de sua resenha notei o tamanho dela, aí já me liguei, instantaneamente. isso porque quando nos deleitamos ao escrever uma resenha e ela se alonga é sinal que o livro é bom, muito bom.
letras minúsculas são meu fraco rsrsrs então também foi um dos motivos. a capa maravilhosa e o título chamativo também me levaram. agora, o que realmente difere do processo que me leva a um livro é ter seu nome estampado na resenha, daí paro e me deleito.
os trechos que você recortou, tão próximos à oralidade me fizeram crer que alguém escreveu o livro que eu queria ter escrito, então o fascínio aumentou. dá uma vontade enorme de estar próximo de uma conversa entre o avô e mary.
caramba, tô sem palavras querida... quero ler este livro e você vive desfalcando minha conta bancária e me abrindo os olhos para um universo que vivia oculto... fora do alcance.
obrigado pela bela resenha novamente!

Ana Caroline disse...

Acabei de ler sobre esse livro em outro blog, gostei muito da capa dele, do nome e da sinopse, tem uma história bastante diferente, estou louca para ler ele.
http://pactoliterario.blogspot.com.br/

Ler para Divertir disse...

Manu
Como sempre arrasou na resenha. Gosto deste estilo literário, não sei porque me lembrou Érico Veríssimo, que adora lar quando adolescente. Ultimamente como a vida está muito corrida, estou lendo livros mais leves pois distraem minha cabeça, que anda meio cheia. Mas gostei da Mary e quero conhece-la.
Abraços,
Gisela
@lerparadivertir
Ler para Divertir

Elis Culceag disse...

Oi Manuh!!
Que resenha linda amiga, nunca li um livro de época com uma protagonista como a Mary e fiquei super curiosa em saber qual é a urgência dela, que segredo é esse que ela tanto precisa contar. Eu acho essa capa linda, mas jamais imaginei que a história fosse algo nesse estilo.
Beijos... Elis Culceag. * Arquivo Passional *

Lara Lange disse...

Oi Manuuh!
sempre via essa capa linda ficava pensando se comprava ou nao... me arrependo de não ter comprado!
acho que me irritarei muito com erros e letra minuscula, porque sou muuuito chata quanto a isso. mas faz parte, se no final, ao se acostumar com isso, deixa a leitura mais íntima fale a pena!
fiquei curiosérrima para sabe a verdadeira face de Mary! MEU DEUS! parece ser uma leitura super surpreendente, to tipo que aborda com leveza alguns tópicos tão pesados.

Um beeijo Lara.
Blog Meus Mundos no Mundo | | Página Coração Furta-Cor

Alessandra Tapias disse...

Manuuuuuu que resenha linda!!!
Acho que essa foi a mais linda resenha sua que já li. A mais envolvente e emocionante!!
Me tocou mesmo. Fiquei aqui me roendo por dentro. E só me pergunto: "Por que eu ainda não li este livro?"
Eu sei a resposta. Eu não imaginava que era tão bom assim.

Apaixonei mesmo!!!

Bjks

Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

Ricardo Biazotto disse...

Ainda não conheço essa obra, mas tenho um carinho muito especial por narrativas diferentes como é o caso desse livro. Apesar de fugir das regras, acho que isso aproxima o narrador de seu leitor mais do que uma simples narrativa. De qualquer forma, isso não seria suficiente sem um bom enredo, o que também parece ser o caso. Uma coisa é certa: após uma nova resenha tão carinhosa, fica impossível não desejar a leitura.

Beijos,
Ricardo - www.overshockblog.com.br

Postar um comentário

É um imenso prazer receber seu comentário. Seja sempre bem-vindo aqui.

 
©2008 layout Elke di Barros modificado por Thalita Carvalho, imagens Sophie Griotto