Menu

18.8.14

Mil Rosas Roubadas - Silviano Santiago

MIL_ROSAS_ROUBADAS_1401465689P

Esta foi uma resenha bem difícil de elaborar, confesso. Primeiro porque o autor é um famoso professor e ensaísta – e nem de longe sou capaz de fazer análise de uma obra, apenas registro minha opinião como leitora. E depois... porque a leitura é exigente, um romance com toques (auto)biográficos que não assenta o leitor sobre a veracidade da exposição. Entre a verdade dos fatos e a ficção, parece que o autor quer mesmo é deixar o barco da imaginação (e da memória) correr. Ele mesmo contou, em entrevista, que um romancista não pretende atestar a verdade ou a mentira e oferecê-las ao leitor.

Mas, antes, deixe-me convidá-lo para uma viagem. Vamos de carro e, ao longo do caminho, numa pista sinuosa, podemos ver belas paisagens, que se insinuam, mas não chegamos a elas. Como se subíssemos a um ponto mais alto e, para chegar lá, a estrada virasse em mil curvas, ao final de cada uma delas uma nova imagem de encher os olhos, de dar vontade de parar e descer do carro. Mas não, não podemos ter mais do que a bela imagem e a promessa de chegar àquele lugar. Só a promessa.

Metáfora tosca criada para situar o leitor onde estive durante esta leitura densa. Apesar de admirar as ideias geniais, as construções frasais eloquentes e o autor deveras inteligente, não chegamos a lugar algum. Explico: quase nada de situações reais, factuais. E muito de questionamentos pessoais. Tal como o convite feito ao leitor no início deste relato, vislumbrei paisagens lindas, quase tomei banho em cachoeiras que vi, quase colhi as flores do jardim convidativo, quase pisei os seixos da trilha que surgiu na densa mata... quase. Não cheguei ao que julguei, a princípio, ser o objetivo da viagem – da narrativa.

O livro começa com o narrador-protagonista assinalando suas impressões angustiadas diante do amigo no leito de morte:

"Ao obrigarem o coração a pulsar por algumas horas a mais na cama do hospital, especialistas da saúde e máquinas computadorizadas acreditam estar proporcionando o bem-estar almejado ao moribundo." (...) Como se para salvar a alma das labaredas do inferno fosse indispensável perfurar túneis e mais túneis no corpo, que de maneira cômoda e rápida o transportariam para a eternidade sem gritos e sem caretas de dor." (pp. 8- 9)

Ao solicitar o livro, imaginei se tratar da biografia de Ezequiel Neves (Zeca), jornalista e produtor musical, amigo do autor desde a adolescência, parceiro de Cazuza na canção que dá título ao livro. Pensei escarafunchar fatos específicos da vida de ambos, descrições do cotidiano e todos esses pormenores que compreendem o gênero literário em questão. Mas a obra que Silviano Santiago nos presenteia é ampla, com as lembranças brotando por entre indagações complexas e íntimas do autor, enquanto elucubra sobre quem ele é, afinal. Cansativa em alguns momentos, mas de conteúdo brilhante. É o que os franceses chamam “roman à clef”, quando o autor se baseia em pessoas reais na criação de seus personagens. Daí a confusão entre biografia, ensaio e ficção.

O texto trata, em síntese, do afeto nascido entre o narrador e Zeca, desde que se conheceram, em 1952, até o momento derradeiro do amigo. Desfilam no texto mais as confissões do suposto biógrafo, que é um reconhecido professor, que as curiosidades acerca do biografado. Há um momento bem divertido, entre um e outro desabafo sobre os "terceiros" que os afastaram: a voz-narradora ensina como montar um baseado. Ilustra, com apelo sensual, a língua passada no papel para fechar o cigarro.

“Não preparei e organizei toda a minha vida com a esperança de que ele não morresse antes de mim? Não a arranjei para que ele me sobrevivesse e se transformasse no meu biógrafo ideal? Só ele seria capaz de manejar com destreza a lâmina do bisturi psicológico e dissecar, no meu futuro cadáver, a intimidade da vida com a ajuda da memória e das palavras." (p. 10)

Alimentando por anos a ideia de ser um dia biografado por Zeca, nosso protagonista é surpreendido pela inversão das posições, uma artimanha do destino para que olhe para si e percorra um longo caminho de autoconhecimento. Tentando registrar a vida do amigo querido, acaba por escrever sobre suas próprias experiências. São reflexões bonitas e profundas que provocam e, inevitavelmente, põem narrador do avesso e viram o jogo de espelhos para nós.

“O resultado final é que me gerei. Dei origem ao que se chama - e eu chamo agora - de pessoa sem importância coletiva." (p. 258)"

Só ao final das 280 páginas, enquanto o narrador concluía e arrematava suas purgações, notei que o objetivo da viagem – aquela metáfora do começo da resenha - não era chegar a um lugar específico. Era experimentar sensações, provocar vibrações na vontade, tentar capturar sentimentos despertados durante o trajeto. A libertação que o protagonista encontra se dá por meio da palavra escrita, ruminada antes de impressa. Um processo lento, enfadonho, mas transformador. A viagem é introspectiva, pura catarse. E a palavra do livro é “durante”. Boa viagem!

Livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/393884-mil-rosas-roubadas

10431528_457140047755038_7827353751796892210_n

 

Essa resenha foi escrita por Manuh Hitz, colaboradora do blog.

Facebook: https://www.facebook.com/manu.hitz.7?fref=ufi


13 comentários:

  1. assisti certa vez a uma palestra de silviano, erudita, complexa, e saí de lá entendendo menos do que acreditava entender antes de entrar. por aí já dá pra entender o fascínio que essa persona me causa. a mesma de quando assisti a uma entrevista do argentino ricardo piglia. depois de um certo tempo, já deixava de me ater ao diálogo e começava a prestar atenção aos gestos e posturas. talvez seja esse o significado do livro, não se atenha ao que digo, mas ao que faço enquanto o digo. então querida manuh, mais uma vez você captou bem o cerne de um livro e como não poderia deixar de ser, brindou-nos com mais esta resenha que é pura arte. parabéns e obrigado querida por este presente!

    ResponderExcluir
  2. poxa Manu que legal a trama esse mix de sensações! acho que mesmo sendo uma leitura mais densa eu gostaria de embarcar na leitura
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  3. Minha querida Manuh,
    A vida é completamnete imprevisível não é mesmo? Tanto tempo preparando e se preparando para ser autobiografado, quando na verdade ele o fez. Mas até que ponto o livro é uma biografia de Zeca e não dele mesmo é que não temos como saber. Como é possível separar as sensações ao descrever situações em que o narrador as viveu, impossível.
    Ainda, acredito que a viagem de emoções que você fez, foi maior do que a alegria de chegar. Muitas vezes a beleza da coisa está no durante mesmo!
    Espero que você tenha tirado boas lições e reflexões, ainda que apenas premissas.
    Suas resenhas ficam cada vez mais perfeitas, mais chamativas, chego a entrar, abraçar suas palavras! UAU!
    Muitos beijos de quem a admira demais!
    Chrys Audi
    Blog Todas as coisas do meu mundo

    ResponderExcluir
  4. Manu, fico impressionada como você escreve bem e descreve as sensações do livro. Quero muito embarcar nessa viagem! Obrigada por me abrir os olhos!

    www.retalhosassimetricos.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  5. Uau,que resenha!!!

    Fico imaginando "essa viajem" durante a leitura,a expurgação das dores e traumas durante o trajeto,esse livro deve ser um daqueles que nos transforma durante a leitura e fiquei muito curiosa e louca para lê-lo.

    Sua resenha me conquistou definitivamente.

    bjsss

    Apaixonadas por Livros

    ResponderExcluir
  6. Oi Manuh!

    Linda resenha! Me senti vendo os aspectos do livro e estou entusiasmada com essa leitura, apesar de não ser um gênero que costumo ler, suas palavras me contagiaram, afinal, dá para ver o quanto o livro é carregado de sentimentos e apesar de não ser uma leitura tão fácil (ao meu ver é claro), com certeza é gratificante.

    Beijos.

    www.daimaginacaoaescrita.com

    ResponderExcluir
  7. Oi Manuh!
    Adorei a resenha!
    Não conhecia o livro e nem o autor, parece q não foi uma leitura rápida e fácil né? Me interesso por livros assim, as vezes a gene tem q ler a mesma página 3 vezes né p sentimento certo ser passado!
    Bjos!

    www.leituravipblog.com

    ResponderExcluir
  8. Oi Manuh! Eu leio de tudo um pouco, mas este livro não me atrai, no entanto gostei de ler sua resenha e por suas palavras sentir a obra em sua essência, que parece ser uma jornada única. Você é muito expressiva no seu texto e sempre tenho a sensação que estamos sentadas, com uma bebida quente e você está me contando sobre sua leitura. Isso mesmo! Suas resenhas são uma conversa, sempre cheias de sentimentos, vivas.

    Bjos!!
    Cida
    Moonlight Books

    ResponderExcluir
  9. Linda resenha, Manu! Tenho que admitir que o título também logo me remeteu à Cazuza, Barão Vermelho e algo muito mais "pop". Não fazia a menor ideia de todo esse poder de sensações, do apenas viajar sem necessariamente chegar.
    Consegui entender a sua dificuldade em resenhar porque tive a impressão de que é um livro para "sentir" e imagino que o melhor é estar preparado e no momento certo para fazer essa viagem e desfrutar de tudo o que ela oferece. Até já foi dito que "não viajamos para chegar, mas para viver enquanto viajamos".
    A resenha ficou incrível, Manu! Parabéns!

    ResponderExcluir
  10. Nossa, a narrativa parece ser muito boa!! Gostei bastante de sua resenha e além disso, me chamou a atenção o título do livro...

    Beijos
    albumdeleitura.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  11. Bem interessante a proposta do livro ao trazer essa viagem e que no final, nem tem um destino certo! Mas a história em si não me despertou muito interesse :X Enfim, ótima resenha Manuh <3

    Beijos
    http://mon-autre.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  12. Oi, Manu!
    Meu, fico boba com o poder que você tem com as palavras. Isso ficou ainda mais evidente nessa resenha, rica em vocabulário e super técnica. Estou me sentindo amadora.
    Preciso dizer que quando vi a capa desse livro logo pensei que não fosse essa coca-cola toda, mas após conferir a sua opinião e ler os trechos que destacou, fiquei interessada. Pelo visto tem um teor bem reflexivo e gosto disso.

    Um beijo,
    Doce Sabor dos Livros - Aguardo a sua visita!

    ResponderExcluir
  13. Que resenha incrível, Manu! Ainda não conhecia a obra, e provavelmente à primeira vista não daria a atenção que talvez ele mereça, mas toda essa questão de reflexão e de realmente vivenciar a obra dá um destaque diferenciado. Como disse, poderia não dar a atenção merecida, mas isso definitivamente é impossível após tantas belas palavras para descrever um único trabalho. Parabéns! Certamente vou pesquisar mais sobre ele.
    Sobre o seu comentário no meu blog, em relação ao livro do Comendador Montenegro, não sei se ele está sendo comercializado em lojas, mas no lançamento o livro estava sendo vendido por um valor simbólico e o trabalho gráfico é tão belo que realmente compensou. Caso tenha interesse, basta me falar que eu tento encontrar para você. :)

    Beijos,
    Ricardo - www.overshockblog.com.br

    ResponderExcluir

É um imenso prazer receber seu comentário. Seja sempre bem-vindo aqui.