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3.1.15

A Vida Secreta das Abelhas – Sue Monk Kidd

 

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Depois de ler o encantador A invenção das Asas, queria mais livros de Sue Monk Kidd. A Vida Secreta das Abelhas (Paralela, 256 páginas) veio em boa hora: é uma comovente história de busca, encontros e redenção.

Lily Melissa Owens tem 14 anos e mora com o pai, T. Ray, um homem frio e negligente, que a maltrata e castiga. Órfã de mãe desde os quatro anos, só encontra apoio e carinho em Rosaleen, a babá negra. Vive um eterno conflito pela ausência da mãe, morta após um tiro, que imagina ter partido de suas mãos, acidentalmente. Mas as lembranças são confusas e a dor que carrega é imensa.

"Quem acha que morrer é a pior coisa do mundo não sabe nada sobre a vida."

A trama se passa em 1964, numa pequena cidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, ano da conquista dos direitos civis. Nesse ambiente ainda marcado pela segregação racial, Rosaleen é espancada e injustamente presa após uma briga com homens brancos. Não suportando mais uma perda, Lily resgata a amiga e juntas fogem para a pequena Tiburon, uma cidade vizinha, onde a garota imagina conseguir decifrar o passado de sua mãe. Lá encontram abrigo na casa das irmãs Boatwright: August, June e May, mulheres negras independentes e criadoras de abelhas.

A identificação com aquelas mulheres é total: Lily sente-se em casa, amparada, enquanto August lhe ensina a criar abelhas e extrair o mel. Dessa relação tão próxima nasce um afeto legítimo, profundo, que há muito Lily buscava. Mas ela mentiu para as irmãs sobre a fuga com Rosaleen e, à medida que o tempo passa, sente-se pressionada para revelar seu segredo.

"Será que se eu contasse a May que T. Ray me fazia ajoelhar em grãos de milho, que fazia outras pequenas crueldades, que eu tinha matado minha mãe, ela sentiria tudo que eu tinha sentido? Eu queria saber o que acontecia se duas pessoas sentissem isso. A dor seria dividida pelo meio, seria mais fácil de suportar, da mesma forma que sentir a alegria de alguém parece tornar essa alegria maior?”

Em plena adolescência, os conflitos de Lily são acentuados pelos questionamentos que faz da vida. O maior deles é a necessidade de ser amada. A falta da mãe, a dúvida sobre o motivo de sua morte, a carência que crescera em seu peito na convivência com um pai tão rude e ausente. Ao lado das irmãs, mas especialmente com August, Lily descobre que é preciso perdoar, antes de tudo, a si mesma, para lidar com a dor e do sofrimento tirar lições valiosas. É muito bonito acompanhar o crescimento emocional de nossa protagonista nesse turbilhão de emoções, enquanto sente o coração bater mais forte pelo amigo Zach, garoto negro que sonha ser advogado.

"Olhei para ele, com ternura e tristeza, procurando entender o que nos tornava tão ligados. Seriam os sofrimentos dentro das pessoas que fazem com que se identifiquem, que criam uma espécie de amor entre elas?"

Um dos pontos fortes da leitura é apresentar uma sociedade dividida pelo racismo. E Lily sente na própria pele a crueldade do preconceito ao conviver com June, a irmã Boatwright que a rejeita por ser a única branca numa casa de mulheres negras. Outro destaque do livro é a religiosidade das irmãs, que são devotas de Nossa Senhora das Correntes, e manifestam ardentemente sua fé, transmitindo ensinamentos importantes para Lily. A nova crença preenche o vazio que sentia, trazendo um sentimento de esperança na vida e nas pessoas, uma força que a leva a enfrentar os próprios medos.

Em cada começo de capítulo há uma citação técnica relacionada à vida das abelhas, numa precedente menção ao que vamos ler. A vida das abelhas funciona numa sintonia perfeita, tal qual a convivência entre as três irmãs e as duas novas moradoras.

"Nós não podemos pensar em mudar a cor da nossa pele. É preciso mudar o mundo, é assim que devemos pensar", ele disse."

Os personagens são extremamente humanos, inseridos em momentos históricos importantes. Cada uma das mulheres da trama tem sua força e importância. A escrita madura me levou a crer que é uma Lily adulta quem escreve o livro, mostrando que as dificuldades enfrentadas são agora reminiscências de uma mulher que olha para trás orgulhosa do que a vida lhe ensinou.

"Você tem de encontrar uma mãe dentro de você. Todos nós temos de encontrar. Mesmo quem tem uma mãe precisa encontrar essa parte dentro de si mesmo. (...) Você não precisa pôr a mão no coração de Maria para ter força, consolo e salvação, e todas as outras coisas que precisamos ao longo da vida. Basta pôr a mão bem aqui no seu próprio coração. No seu próprio coração."

É uma leitura densa, não posso deixar de avisar. O texto de Sue Monk Kidd é sensível, aborda temas fortes como o racismo e a opressão, a dor da perda e a sensação de inadequação. Mas é uma história contada de forma delicada, triste em muitos momentos, mas imbuída de beleza e várias reflexões. Delicadeza é a palavra que define a escrita da autora.

Há um filme adaptado do livro, com o mesmo título, estrelado por Dakota Fanning, Queen Latifah, Alicia Keys e Jennifer Hudson.

Link do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/3984ED443498

Classificação no Skoob: 5 estrelas e favorito.

Trailer do filme:

 
 
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***
Essa resenha foi escrita por Manuh Hitz, colaboradora do blog.
 
Facebook: https://www.facebook.com/manu.hitz.7?fref=ufi
 

17 comentários:

  1. Oi Manuh <3
    Vira e mexe eu sempre vejo esse livro resenhado em blogs mas nunca parei e li, nem a sinopse... e olha o que eu estava perdendo!
    Confesso que o tema me agradou, é um tipo de leitura comovente e forte, é algo que eu gosto (mas preciso estar na fase de ler algo mais real). Com certeza está incluído na minha lista de vou ler!

    Besos
    ~nathália n.
    www.livroterapias.com

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  2. Esse livro é realmente lindo. A narrativa é super sensível e tocante e a história de uma beleza impar. Parabéns pela resenha Manuh! Um livro que eu também indico.

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  3. Manuzita meu amor...eu fiquei emocionada com a sua resenha, eu não sou muito de ler sinopses, de modo que eu não sabia exatamente do que se tratava esse livro, então pra mim foi uma agradável surpresa saber que é uma historia tão tocante e tão próxima da realidade, e voce sabe que sou apaixonada por um bom drama né, enfim, já foi pra minha lista de desejados e espero adquiri-lo em breve! Obrigada por convidar à ler essa resenha linda, bjão!!! :)

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  4. Oi Manuh! Você foi a segunda pessoa que ouvi falar sobre esse livro. Quando iniciamos o estudo de literatura na faculdade, tínhamos de ler qualquer livro e apresentar de maneira sucinta aos demais, e uma colega leu esse livro e na hora de apresentar, até chorou de tão emocionante que disse ser a história. E pelo visto você também se emocionou...
    Não é um livro muito conhecido, acredito eu, mas às vezes são esses que mais nos surpreendem!

    Beijos
    albumdeleitura.blogspot.com.br

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  5. Oi, Manuh. Nunca tinha ouvido falar nesse livro, mas parece legal por apresentar um tema aparentemente forte!! Quero ler!
    mundoemcartas.blogspot.com.br

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  6. manu cat, este foi um dos livros que mais me animou no ano passado, só li elogios e mais ainda: o enredo é lindo demais! merece ampla divulgação
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  7. Ahhhhhhhhhhhhh deixa eu falar que amo esse livro. Admito que não consegui assistir o filme inteiro, coração não aguenta, logo no começo quando a Rosaleen é espancada me dá uma dor no coração. Ainda estou tentando assistir. Mas o livro é realmente lindo, é muito triste ver a Lily perdida tentando descobrir mais sobre a mãe e encontrando nas irmãs o amor e a segurança que precisa é realmente tocante. E acho maravilhoso a capacidade da Sue escrever uma história tão tocante em um ambiente tão hostil de segregação racial. Linda resenha Manu, estou esperando uma oportunidade de ler A invenção das asas, só não sei se o coração aguenta. Esse também é um dos meus livros favoritos. *-*

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  8. Parece um livro muito triste, mas cheio de ensinamentos e também superação. Acredito que em algum momento vou lê-lo, pois gostei da trama e sua resenha me chamou bastante a atenção, despertou minha curiosidade para saber como termina a história.

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  9. Manuh.... Eu já tinha ouvido falar no nome do livro muitas vezes entre conversas com amigas, mas ninguém me preparou para a sua resenha. É muito fácil alguém dizer: "Leia o livro X, eu gostei muito", mas eu sou geminiana. Dificilmente vou pegar um livro para ler apenas porque outra pessoa gostou. Preciso saber o porquê. Preciso captar o sentimento da pessoa sobre o livro para finalmente me decidir interessada ou não pela história. E aí, entro em outra questão. Por ser chata assim, eu não leio muitas resenhas. Tudo muito superficial e sem opiniões sinceras sobre o que leram, mas você, Manuh, é totalmente diferente. É sensível, levanta os pontos que realmente foram importantes na história. Agora sim, estou interessada em conhecer a vida secreta das abelhas e quem sabe, entender o porquê do título (não é possível que seja SÓ porque a guria está aprendendo a tirar o mel dos favos, rs!) Todas as melhores indicações que tive ano passado, foram tuas, que continue assim...

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  10. cara Manuh, de cara o título me chamou a atenção. sempre tenho uma certa inveja branca de títulos bem sacados. logicamente que esta é uma autora que ainda quero ler assim como o moçambicano mia couto. sei que estou em falta com a delicadeza de uma e a poesia de outro, mas as leituras nos engolem, nos faz refém e sempre é ela quem nos escolhe. e por que eu deveria ler Sue Monk Kidd? inúmeros são os motivos ou motivações: porque acredito na redenção pela escrita, porque gosto de dramas, porque luto contra o racismo e finalmente porque gosto de romances bem escritos. você sempre me convence com suas palavras e pude notar tudo o que acabei de citar, além, é claro, de trechos muito bem isolados pontuando suas observações pra lá de poéticas. fico imaginando sua retórica, querida amiga, seu poder de convencimento é algo que sempre me deixa pasmo - quer ler este livro!

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  11. Que resenha linda Manuh, a sensibilidade com a qual você interpreta o livro sempre me deixa comovida. Essa história deve ser emocionante, principalmente porque retrata uma época e conflitos que realmente existiam e que, infelizmente, ainda estão presentes nos dias de hoje.
    Beijos e Feliz 2015!!!
    Elis Culceag. * Arquivo Passional *

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  12. Que resenha mais bem escrita e emocionante, Manu! Consegui imaginar toda a sensação que a história passou pra você e sim, pude perceber que é um texto denso, mesmo com toda a delicadeza da escrita da autora, como você citou. Você já sabe drama que não é meu tipo preferido de leitura (nem de filmes, por sinal!), tenho procurado temas mais leves, mas tenho certeza de que para quem gosta, esse livro é imperdível!

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  13. Oi Manuh! Eu não li nenhum livro da autora, mas percebo que ela sempre aborda conflitos raciais, será que ela sofreu isso? Seu texto mostra que é uma história delicada e que trabalha fortemente sentimentos e traumas, e mesmo sendo passada há mais de 40 anos é ainda atual em certos aspectos.

    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  14. Oi Manu!

    Nossa que resenha! Eu amei cada ponto ressaltado e estou aqui curiosa para mais sobre A Vida Secreta das Abelhas, que pelas suas belas palavras dá ver notar que é um livro único, especial e arrebatador, ah eu quero com toda a certeza!

    Beijos.

    www.daimaginacaoaescrita.com

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  15. O livro me chama! Você sabe bem que na literatura minha paixão são livros comoventes, delicados e de época! A ambientação parece maravilhosa! já vi o filme, mas ler a obra é outra experiência, muito mais rica, mergulhar nesse universo!!

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  16. Que resenha iluminada!!! ♥
    Impossível não desejar o livro e ver tanta profundidade assim.
    Temas mais densos também são bem-vindos.

    Adorei!!!

    Bjks

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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  17. Manu
    Gosto deste tipo de enredo, apesar de ler sempre coisas mais leves. Me encantei com o livro e sua história, fiquei inclusive com muita vontade de ver o filme.
    Abraços,
    Gisela
    @lerparadivertir
    Ler para Divertir

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