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8.2.16

O que há de estranho em mim



Título Original: Sisters in sanity
Autora: Gayle Forman
Editora: Arqueiro
Ano: 2007/2016 Ed. Brasileira
Sinopse: Ao internar a filha numa clínica, o pai de Brit acredita que está ajudando a menina, mas a verdade é que o lugar só lhe faz mal. Aos 16 anos, ela se vê diante de um duvidoso método de terapia, que inclui xingar as outras jovens e dedurar as infrações alheias para ganhar a liberdade. 

Sem saber em quem confiar e determinada a não cooperar com os conselheiros, Brit se isola. Mas não fica sozinha por muito tempo. Logo outras garotas se unem a ela na resistência àquele modo de vida hostil. V, Bebe, Martha e Cassie se tornam seu oásis em meio ao deserto de opressão. 

Juntas, as cinco amigas vão em busca de uma forma de desafiar o sistema, mostrar ao mundo que não têm nada de desajustadas e dar fim ao suplício de viver numa instituição que as enlouquece.




“(...) Só então me dei conta de que devemos valorizar quem se preocupa com a gente.Isso é algo muito especial, que de uma hora para outra pode sumir.”

O que há de estranho em mim é o segundo livro lançado por Gayle Forman, e o segundo livro dela que eu tive a chance de ler. A escrita é bem leve e rápida, o li em poucas horas, avidamente. A leitura simplesmente flui.

Também acredito ser uma escrita diferente do outro livro que li (resenha aqui). Acredito que Forman tenha a capacidade de escrever conforme a personagem retrata no livro (uma vez que é narrado em primeira pessoa): Brit Hemphil, uma adolescente de dezesseis anos que vive em Portland. É vocalista e guitarrista da banda The Clod, tem pintas de rebelde – mas apenas por ser sincera e sonhadora – e acabou sendo conhecida por Cinderela.

Como uma adolescente de dezesseis anos, ainda está encontrando um caminho a seguir. O que complica é a situação atual de sua vida: seu pai casou-se com uma Monstra. Infelizmente, o pobre homem é uma esponja que absorve a opinião dos outros e molda sua personalidade de acordo com as pessoas que estão ao seu redor.  Par além disso, também é extremamente influenciado pelo medo da história se repetir.

“- Antes fossem apenas duas ou três notas baixar. E não é só isso. Brit, tenho sentido que você não faz mais parte da nossa família. Você não é mais você, entende? Então achei que devia buscar algum tipo de ajuda, antes que... – Ele não terminou a frase.”

No início do melhor momento da adolescência de Brit, ela se vê traída pelo pai que a engana e a


deixa num local que acredita ser uma escola e que será para o bem dela. Quantos pais agem assim? Machucam acreditando que é para o bem de seus filhos? Dão a eles oportunidades que os jovens não querem, mas pelos pais não a terem tido, acreditam que o filho seja obrigado a aceitar.
Acredito que os pais não saibam que uma família doente produz crianças doentes. E quem foge da doença que a família criou, é um desviante ao invés de um sobrevivente.

“- Seus pais devem ter relaxado com você. É isso que costuma estar por trás de tanta rebeldia... Isso ou a necessidade de atenção. (...) Vamos questionar suas atitudes. Vamos substituir o mau comportamento por hábitos mais produtivos. Em outras palavras: vamos dar um jeito em você. Pode não parecer, mas o que temos a oferecer aqui não passa de amor.”

As meninas da Red Rock são linha dura. Incitadas pela direção, elas insultam umas às outras, são orientadas a não fazerem amizades, a dedurar aquelas que não seguem o programa ou que quebram as regras. Chamam de Terapia aquilo que as faz chorar e que destrói seus espíritos. Matam qualquer chance de evolução, se a pessoa não tiver firme em si a pessoa que é.

Há no livro meninas como Missy e Tiffany, que tiveram sua alma tão violada que não conseguem ver o quão errada são as coisas que estão sendo feitas ali. Apenas querem viver o melhor possível naquela situação, sendo utilizadas até como garotas propaganda da escola.

Há outras, como as amigas que Brit encontra em meio à tormenta, que não aceitam as coisas como são e tentam aliviar a barra umas das outras parar sobreviver. Cada uma delas tem atrás de si uma família com relações doentias e preconceitos claros.

“Engula o seu orgulho e acabe logo com isto. Jogue um pouco de carne para a cachorrada antes que ela venha atrás de você.”

V é a primeira que se arrisca a conversar com Brit, dando à ela conselhos poderosos para sobreviver a Red Rock. É a jovem que está lá há mais tempo e há um mistério acerca disso. Ela lhe ensina que se sua família não é rica, fica ali por conta do governo durante três meses e é curada milagrosamente, sendo mandada para casa. Mas se sua família é rica... Você pode acabar lá até seus dezoito anos de idade.

Colocando um adendo aqui, vou falar um pouco de uma realidade com a qual eu lido. Sou psicóloga num serviço voltado para pessoas em situação de rua, em que uma maioria esmagadora é alcoólatra. Quando desejam, buscam tratamentos em clínicas para tratarem sua dependência e posso confirmar que o que acontece na Red Rock, uma clínica fictícia, acontece em muitas clínicas e comunidades terapêuticas aqui no Brasil. Por alguns poucos meses (ou quarenta e cinco dias em muitos casos) o governo mantém a pessoa ali. Depois disso o que ele paga para a clínica é diminuído e o usuário muitas vezes é mandando embora para casa “curado”. Sem nenhuma capacidade e estrutura de se manter longe do vício ainda, uma grande porcentagem das pessoas recai. Mas se a família está bancando, ele pode cumprir o programa ou ficar até mais tempo internado. Mas enfim, voltemos à resenha, sorry!

V é durona, entende o sistema da escola e o ensina para as outras. Tem a ideia de criarem uma irmandade ali dentro, para manterem a sanidade. Fora dos encontros entre amigas, tentavam parecer as inimigas que a escola queria que fossem.

“Eram um bando de malucas descontando na pobre coitada as próprias questões de autoimagem.”

Martha é a garota gorda que a mãe não aceitava sua silhueta. É a que mais é judiada, pois para gordos o mundo é bem ruim, imagina num local então em que as pessoas podem relamente te chamar de baleia e não serem punidos por bullying? Ela é uma jovem doce e meiga, com o espírito já bem fraco. Sua única alegria são as Irmãs.


Como sou gorda, me identifiquei bastante com a Martha em sua adolescência. Acredito que meu pai não teria problemas em fazer o que fizeram com a Martha, se tivessem a chance. Só que achei que o livro também pregou um pouco de gordofobia através das próprias Irmãs, pois em um momento disseram que tiveram um vislumbre da linda menina que Martha havia sido um dia, referindo-se aos dias em que ela não era gorda. Senti como se pensassem que por ser gorda, ela era feia. Não achei isso legal.

Bebe (creio que o original é BB) é filha de uma atriz famosa que nunca tem tempo para a filha e sempre a cobre de pequenos presentes, como se isso fosse suprir a ausência da mãe. Foi mandada para lá por ter uma sexualidade exacerbada. Afinal, uma mulher não pode ficar querendo transar, né? Não pode.

Cassie é uma jovem que ainda não tem uma sexualidade definida, então se chama de bi. Como sua mãe é extremamente religiosa, a escola prometeu a ela a “cura gay”. Cassie é a que tem mais chance de sair, segundo os passos do próprio reformatório.

“(...)Ele tinha aprendido a respeitar e admirar o espírito livre da mamãe, por isso não se via no direito de cortar as asas dela.”

O livro segue a linha de doenças mentais e traz para reflexão a esquizofrenia e as internações psiquiátricas. O maior dilema de uma família é saber quando é necessário encaminhar o doente para uma ajuda mais especializada. Como lidar com o sentimento de, lentamente, ir perdendo a pessoa que ama para algo desconhecido?

Felizmente, Brit tinha suas amigas para se manter. E quem não tem a mesma chance. Gayle Forman relata no final do livro sua experiência com reformatórios, como lá os direitos humanos não chegam. As pessoas podem realmente precisar de ajuda, mas não conseguem o tratamento necessário ali e só pioram.

No Brasil, tivemos um episódio conhecido como Holocausto Brasileiro, relatado por um livro-documentário escrito por Daniela Arbex. É um documentário que relata a vida no maior manicômio do Brasil (Hospital Colônia), situado em Barbacena. Lá, 60 mil pessoas morreram pelo descaso, abandono e desumanidade, entre mulheres, homens, adolescentes, crianças... Hoje temos a Reforma Psiquiátrica justamente para evitar isso. Mas, infelizmente, sabemos que casos como relatados no “O que há de estranho em mim” ainda acontece em diversos locais do mundo.



Este não é um livro tão sentimental quanto os outros, creio que Forman o escreveu apenas para mostrar como lugares como o Red Rock podem ser danosos para as pessoas.

Para quem quiser saber da realidade do Brasil neste aspecto, deixo o documentário sobre o Hospital Colônia e algumas filmagens de 1979. Algumas cenas podem ser fortes, ok?






2 comentários:

  1. primeiro, lindo lay!
    adorei a mudança e fiquei encantada pelo novo visual
    Sobre o livro em questão Gayle sabe escrever e escreve como ninguém, ela tem um poder de encantar e fixar a atenção do leitor para o seu universo de criação de forma única e verdadeira, o desespero das meninas ficou nitido, um lindo livro de todas as formas
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  2. Muito obrigada pelo elogio ao lay, Thaila! Estava insegura com a mudança, mas a receptividade é boa!!!
    E realmente, lindo livro!

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