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30.3.16

A Resistência



Autor: Julián Fuks
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2015
Sinopse: Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado”, anuncia, logo no início, o narrador deste romance. O leitor se descobre de partida imerso numa memória pessoal que se revela também social e política. Do drama de um país, a Argentina a partir do golpe de 1976, desenvolve-se a história de uma família, num retrato denso e emocionante. Adotado por um casal de intelectuais que logo iriam buscar o exílio no Brasil, o menino cresce, ganha irmãos, e as relações familiares se tornam complexas. Cabe então ao irmão mais novo o exame desse passado e, mais importante, a reescritura do próprio enredo familiar.
Um livro em que emoção e inteligência andam de mãos dadas, tocando o coração e a cabeça dos leitores.


"É preciso aprender a resistir, mas resistir nunca será se entregar a uma sorte já lançada, nunca será se curvar a um futuro inevitável. Quanto do aprender a resistir não será aprender a perguntar-se?"


A Resistência, de Julián Fuks (Companhia das Letras, 144 páginas), escritor brasileiro da nova geração, promete, nas primeiras linhas, falar sobre adoção: “Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado”. Mas a história toma rumos que fogem ao alcance do autor, ampliando o conceito de resistência. E o deleite do leitor está assegurado, porque o livro é curto, mas de poesia, intensidade e reflexão profundas.


"Talvez o desejo de ter um filho fosse naquele instante o que lhe restava de vida, fosse outra forma de luta, de recusa à aniquilação proposta pelo regime. Ter um filho há de ser, sempre, um ato de resistência."

O narrador é Sebastián, que tenta compreender a história de sua família a partir da adoção do irmão mais velho, pouco antes dos pais buscarem exílio no Brasil. Em São Paulo tiveram ainda um casal de filhos e nunca esconderam a adoção, mas as circunstâncias em que esta se deu não estão claras.


"Não posso fazer desse menino, do menino e do homem que ele é hoje, um personagem frágil. Não posso lhe atribuir uma dor qualquer, insensata, que o reduza a uma sensibilidade excessiva passível de piedade, que o submeta à comoção fácil."

Fuks passeia entre o pertencimento (a uma família, ao país de origem, ao país que acolhe) e a resistência, que aqui se revela tanto na persistência da luta como no embaraço da relutância, na dificuldade em lidar com o outro (e em mostrar-se). Na segunda metade do livro, o autor parece chegar à conclusão que está escrevendo para juntar os pedacinhos fraturados que existem em toda relação familiar. 


"A tempo meu pai me interrompe: Você acha que só seu irmão é diferente de nós, imprevisível, instável? Acha que algum filho se deixa moldar? Todo filho excede o que se concebe como filho. Nenhum de vocês jamais foi o que imaginávamos, nenhum cumpriu o que dele se esperava, e nisso sempre se escondeu a graça."


Enquanto puxa o fio da memória, percorre caminhos que os pais trilharam desde a ditadura argentina do final dos anos 70. O capítulo sobre as Avós da Praça de Maio é profundamente tocante, levantando mais uma suspeita sobre a origem de Emi, o irmão. Enquanto coloca sob exame minucioso o estranhamento que o irmão sempre pareceu sentir no ambiente familiar, projeta para longe de si uma inadequação que é sua, uma dor que necessita ser investigada, daí - também - o livro. 


"O que se ganha com uma descrição tão minuciosa de velhas cicatrizes, o que se ganha com esse escrutínio público dos nossos conflitos? (...) Entendo (...) que o livro é outra forma de terapia (...)."


E a resistência do título? Compreendemos então, ao mesmo tempo que o narrador, que a resistência está na recusa em deixar debaixo do tapete todas as dores que vivemos, familiares, sociais, políticas e emocionais. Está na militância política – e aqui veio a calhar a reflexão, pelo momento que o Brasil atravessa. Contar esta história íntima e a história do seu país é também resistir ao embotamento que o tempo pode trazer, não permitir a alienação de quem não viveu ‘na carne’ as dores da opressão e da falta de liberdade. E principalmente, resistir ao esquecimento e ao afastamento afetivo, estes cicatrizes profundas e irreversíveis. 


"Às vezes, no espaço de uma dor cabe apenas o silêncio. Não um silêncio feito da ausência das palavras: um silêncio que é a própria ausência."


Ficcional, mas com elementos autobiográficos, o livro encanta pela escrita poética, pelo contexto histórico que enseja lições, mas, especialmente, pela reflexão sobre as coisas não ditas, na urgência em que se podem manifestar.

Link do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/a-resistencia-527078ed535056.html
Classificação: 5 estrelas.

Booktrailer: 


6 comentários:

  1. Fico pensando na resistência que tantas pessoas ofereceram frente à ditadura e quantos morreram para que hoje pudessemos dizer o que nos vêm à cabeça. Você fala de outras formas de resistência e fiquei intrigado, porque também tem essa história de adoção do Irmão. O que me deu vontade de ler foi também saber que o escritor é jovem (além do seu elogio a ele). Mas saber mais da resistência política é um atrativo inquestionável. Gostei muito.

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  2. ahhhh querida Manuh, novamente um livro pra gente se ler acompanhado de um lenço, pra quem é emotivo como eu, parece indispensável. confesso, envergonhado, não conhecer Fuks. conheço autores argentinos que conseguem demonstrar uma argentina universal, Piglia e Borges e Macedônio (estes dois últimos preciso ler mais), sou fã de todos. e sei que preciso conhecer mais sobre o cinema argentino. não tenho isso de que eles sempre foram nossos adversários (isso é coisa de futebol), são co-irmãos, gente que aprecia nosso país e que escrevem bem demais. e quando o assunto é ditadura, ninguém melhor que um argentino pra nos mostrar como brigar, povo inconformado, prontos a lutar. agora, um brasileiro contando o drama argentino é algo que já me chamou a atenção de imediato. li e reli cada trecho que você pinçou, e o último trecho li mais de três vezes e invejei, porque aprecio o silêncio e a solidão, mas há silêncios e silêncios.
    esta capacidade que você tem, querida Manuh, de encontrar, em meio à fauna literária, um livro que encante coração e mente é algo que tento compreender. você escolhe o livro ou o livro escolhe você para interagir com as palavras, interpretá-las e transmiti-las desta forma poética?
    você bem sabe o quanto espero por suas resenhas, depois de lê-las fico querendo conversar e conversar contigo, trocar idéias e ideais. falar de como sua palavra me toca e me encanta. aí cabe dizer que não "resisto", não há "resistência" que me impeça de pensar que de alguma forma estou em contato contigo, uma questão de puro deslumbramento pelas palavras.
    este livro já entrou para meus desejados, claro, porque é fundamental que nos conheçamos, mesmo que através de um livro, mesmo que através de suas resenhas (e por elas eu sempre me torno alguém melhor do que fui). parabéns! suas palavras têm o dom de me emocionar!

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  3. oi Manuh, vc como sempre arrasando, estou chocada por ainda não ter descoberto esse livro, tem esse ar de ficção e autobiografia que nunca vi em uma obra, gostaria de ler, além de aprender mais sobre essas questões dos sentimentos aflorados
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Manu
    A resenha me instigou. O livro parece denso e seu tema principal, relações familiares, atualmente me afeta muito, quando estou passando por diversos problemas desta natureza. Muitas vezes é bom olhar um pouco para fora do nosso umbigo. Também gosto quando aprendo um pouco mais sobre fatos históricos de outros países. Além do mais, somos pais e temos uma percepção diferente dos nossos filhos do que seus irmãos.
    A resenha está como sempre ótima e me deixou curiosa por se tratar de uma ficção "com elementos autobiográficos", pelo nome do autor me pareceu bem mais autobiográfico.
    Abraços,
    Gisela
    Ler para Divertir
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  6. Querida Manu, mais uma belíssima resenha, me parece o tipo de leitura que mais gosto, além de ser de autoria de escritor brasileiro, o que aprecio muito, ainda há, como você mencionou, poesia, intensidade e reflexão profundas, particularidades que são primordiais na escolha de minhas leituras, esse sem nenhuma dúvida, já está em minha lista de próximas leituras. Por ser um livro curto, creio que consiga ler em breve, infelizmente no momento os textos acadêmicos estão tomando todo o meu tempo de leitura, quando conseguir ler, comentarei com você. Parabéns! e obrigada por sempre compartilhar suas palavras conosco. Forte abraço.

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