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13.8.16

{Filmes} Precisamos falar sobre Kevin





Direção: Lynne Ramsay.
Elenco: Tilda Swinton, Ezra Miller, John C. Reilly, Ashley Gerasimovich, Jasper Newell, Rock Duer

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS! Se você ainda não assistiu ao filme, prossiga por sua conta e risco.
Sinopse

Eva é uma mulher com sérios problemas de ansiedade e dificuldade de relacionamento, problemas estes que são um reflexo de seu passado sombrio e violento, fruto de um mal que originou-se no seio de sua própria família, ou pior, em seu próprio ventre. Um mal chamado Kevin.

Resenha

Oi gente! A maldade humana já foi retratada na ficção de várias formas. O longa de hoje nos leva a alguns questionamentos: Qual seria a origem da crueldade de um ser humano? O meio em que se desenvolve? Sua criação? Problemas mentais?

Porém, o mais perturbador sobre Precisamos Falar Sobre o Kevin é: E se a maldade do indivíduo simplesmente não tiver uma causa ou origem aparentes? Existe a possibilidade de que alguém simplesmente nasça impregnado pela maldade?

Este filme, baseado no livro homônimo de Lionel Shriver, não trata de um problema social, ou sócio parental. Ao contrário, levanta um questionamento, a meu ver, de cunho cármico, espiritualista: O que leva uma pessoa, criada com amor e cercada com um padrão de vida deveras confortável, a tornar-se um psicopata frio e a cometer atrocidades inimagináveis contra os da sua própria espécie?

Bom, talvez devêssemos perguntar ao Kevin...

NARRATIVA

A narrativa em Precisamos Falar Sobre o Kevin desdobra-se de maneira não linear, recorrendo o tempo todo a saltos temporais.

Como exemplo disso, tem-se a cena inicial, onde Eva Katchadourian (Tilda Swanton) sai para trabalhar e descobre a fachada de sua residência e seu carro pintados de vermelho, fato que só será explicado posteriormente no decorrer da trama.



Eva

Eva Katchadourian é uma profissional bem sucedida, independente e satisfeita com seu status de cidadã do mundo.

Nada fica muito claro no filme (não sei se no livro a dinâmica é a mesma, ainda não tive a oportunidade de ler), mas fica subentendido que, em determinado ponto de sua vida, Eva conhece Franklin (John C. Reilly), por quem se apaixona, e com quem se casa posteriormente. Tal decisão leva Eva a ter de abandonar boa parte do que havia conquistado até então para tornar-se não mais que uma dona de casa, o que viria a trazer-lhe extrema frustração no futuro, principalmente após a maternidade.

Seus problemas, que começam durante a complicada e dolorosa gestação do primeiro filho do casal, perduram após o nascimento do bebê: O pequeno Kevin. Ao que parece, o menino tem algum distúrbio que não o deixa dormir, fazendo com que ele chore incessantemente, para o desespero de Eva. Numa das muitas cenas perturbadoras do longa, Eva passeia na rua com Kevin berrando no carrinho. Seu emocional está em frangalhos dado o esgotamento físico e mental acarretado pelo choro constante do bebê. Ao passar por uma obra, Eva para por alguns instantes e fecha os olhos com uma expressão de prazer no rosto, aparentemente deliciando-se (pasmem) com o som de uma britadeira.



Fica evidente durante o filme que Eva tenta o tempo todo lidar com a culpa pelo sentimento de ódio que ela nutre pelo menino. É como se ela vivesse num eterno estado de depressão pós parto. E sua angústia aumenta ainda mais a medida em que Kevin vai crescendo e, aparentemente, percebendo os sentimentos de sua mãe.

Essa é a Eva antes e logo após o nascimento de Kevin. No fim da estória, a personagem transforma-se num ser perturbado pelas angústias e pelo horror que a maternidade lhe trouxe. A aparência frágil e a ênfase descompensada dada pela atriz Tilda Swanton à Eva proporcionam um ar ainda mais deplorável ao desenrolar da vida da protagonista. Eva agora é patologicamente ansiosa, agorafóbica e antissocial. Sua vida parece ter terminado há muito tempo e, por alguma razão desconhecida, ela continua viva. Destino?



Franklin

Amoroso e dedicado, enquanto a esposa fica responsável pela criação do pequeno Kevin, Franklin mostra-se como um pai pouco presente na vida da família. Conforme já disse anteriormente, não fica exatamente claro, mas tudo leva a crer que as ausências de Franklin se dão por motivos profissionais.



Quando Franklin está em casa, porém, é um pai apaixonado, tanto pela esposa quanto pelo pequeno Kevin, com quem desenvolveria uma relação (totalmente unilateral, como fica claro no desfecho da estória) de carinho e companheirismo.



O amor de Franklin pelo filho é tamanho que o mesmo se mostra, de certo modo, desinteressado diante das preocupações da esposa com relação ao garoto, que parece detestá-la.

“É só uma criança, Eva... Crianças são assim mesmo...”

Celia

Se Kevin já era uma criança com sérios problemas comportamentais, tudo se agrava com a chegada de Celia (Ashley Garasimovich), sua irmã caçula.



Celia é uma menina doce e delicada, totalmente apaixonada por seu irmão maior, amor esse que é também unilateral, a exemplo do que acontece com Eva e Franklin. Kevin parece fisicamente incapaz de amar qualquer coisa.



Inúmeras são as vezes em que Kevin tenta ferir, envenenar e até matar a própria irmã, fazendo-o de modo que a garotinha não perceba que está sofrendo algum mal, mas encare tudo como brincadeira. Sim, meus caros. Kevin é de longe o personagem mais cruel, dissimulado e frio de que vocês terão notícia em muito tempo. Psicopatia não é uma expressão exagerada para ele.


Pra terminar, Kevin

Kevin transforma a vida de sua mãe numa amostra grátis do inferno desde sua vida intrauterina.

Após o nascimento (e após o episódio do berreiro 24 horas, sobre o qual já comentamos), Kevin parece ter algum bloqueio de fala. Diversas vezes vemos sua mãe, com todo carinho do mundo, insistindo para o menino tentar verbalizar uma palavrinha sequer, obtendo de volta nada mais que o olhar fulminante do garotinho (que já mete medo em marmanjo desde pequeno).



No próximo estágio de sua infância, o ódio inato de Kevin pela própria mãe só aumentou. O garoto, ao que parece, tem dificuldades em usar o vaso sanitário, razão pela qual usa fraldas até a pré-adolescência. Porém, em dados momentos, parece ficar claro que ele faz suas necessidades na fralda apenas pelo prazer de humilhar sua mãe obrigando-a a trocá-lo, já que ele percebeu o nojo que ela sente pela tarefa. Há um momento em que Kevin, imediatamente após ter a fralda trocada, defeca novamente, sorrindo e debochando da mãe. Eva, num acesso de raiva, empurra o garoto quebrando-lhe o braço. Kevin não tem reação alguma, a não ser encarar profundamente a mãe como se tivesse conseguido provar seu ponto: Você me odeia. Mais tarde, já na idade adulta, Kevin relembraria o episódio como “a coisa mais sincera que minha mãe já fez na vida”.



E assim Kevin cresce, constantemente a testar os sentimentos da mãe com relação a ele, bem como suas reações diante das atrocidades, pequenas e grandes, que ele pratica todo dia, como, por exemplo, permitir que a mãe entre no quarto e dê de cara com o rapaz se masturbando, em pé, no meio do quarto.



Por ocasião de seu aniversário de 16 anos, seu pai lhe presenteia com um conjunto de arco e flecha. E por mais problemático que Kevin pudesse ser, ninguém poderia prever o horror que viria a seguir.



CONCLUSÃO

Eu não recomendo Precisamos Falar Sobre o Kevin para ser assistido como mero entretenimento, já que, do meu ponto de vista, é um filme inclassificável. Por outro lado, é um filme recomendadíssimo para profissionais das áreas de educação, psicologia, medicina psiquiátrica e etc. Além do mais, por mais que você “não acredite nessas coisas”, esse filme acaba te obrigando a olhar o problema do ponto de vista espiritual. Em outras palavras, existe mesmo carma? Temos, conforme acreditam os espíritas, “débitos” para com outros semelhantes trazidos de outras existências? São perguntas que eu deixo pra vocês responderem...

Até a próxima, gente!









11 comentários:

  1. o filme é bem intrigante e traz uma nova perspectiva de estudo e análise da mente humana!
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  2. Assisti o filme hj de manhã. E estou até agora perplexa. A interpretação de Kevin, pelos 2 atores foi incrível. Eles falavam pelo olhar. Fiquei boquiaberta. Adorei seu post. Passou tudo que eu senti

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    1. Obrigado, Josiane! Perturbador, né? Seja sempre bem vinda 😊

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  3. Acredito que essa seja uma das melhores adaptações de livros para filmes... Assisti o filme há muitos anos, e li o livro um pouco mais recentemente, portanto minhas lembranças dele estão mais fortes e pelo que você descreveu, ele realmente foi traduzido de maneira fiel para o cinema... Perturbador descreve...

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    1. Assisti duas vezes, pra poder resenhar livre da sensação de desconforto que o filme me causou. Realmente perturbador! Imaginar que situações assim acontecem na vida real é assustador... Obrigado pelo comentário, Amanda!

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  4. Nossa esse filme parece tenso!
    Já gostei rs ... Vou add à lista.
    Beijos,
    http://www.fabulonica.com/

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  5. Lucas, não li o livro e nem vi o filme temendo exatamente essa perturbação que vcs experimentaram. Uma amiga psicóloga me indicou o filme é riu qdo eu disse que o Kevin tem a idade do meu filho e isso me assusta. Rs... Mas é verdade. Gosto muito de histórias que abordem o conflito psicológico dos personagens, acho que vou tomar coragem para ver o filme. De antemão já estou bem tensa depois de sua esclarecedora resenha, sei o que me aguarda. Parabéns.

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    1. Oi Manu! O comportamento do Kevin é realmente sui generis! O caso dele (embora o filme não se aprofunde na questão) parece mesmo ser de transtorno comportamental. Fico feliz que tenha gostado da resenha, seja sempre bem vinda! 😀

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    2. Oi Manu! O comportamento do Kevin é realmente sui generis! O caso dele (embora o filme não se aprofunde na questão) parece mesmo ser de transtorno comportamental. Fico feliz que tenha gostado da resenha, seja sempre bem vinda! 😀

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