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17.8.16

{Resenha} Maus



Autor: Art Spiegelman
Editora: Quadrinhos na CIA.
Sinopse: Maus ("rato", em alemão) é a história de Vladek Spiegelman, judeu polonês que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, narrada por ele próprio ao filho Art. O livro é considerado um clássico contemporâneo das histórias em quadrinhos. Foi publicado em duas partes, a primeira em 1986 e a segunda em 1991. No ano seguinte, o livro ganhou o prestigioso Prêmio Pulitzer de literatura.

A obra é um sucesso estrondoso de público e de crítica. Desde que foi lançada, tem sido objeto de estudos e análises de especialistas de diversas áreas - história, literatura, artes e psicologia. Em nova tradução, o livro é agora relançado com as duas partes reunidas num só volume.






Opinião: Um amigo ao qual eu tinha comentado que gostava de saber sobre histórias da Segunda Guerra me recomendou esse uns anos atrás, o elogiou enormemente, finalmente agora consegui lê-lo e entendo o motivo dos elogios.

“Maus” nos reconta a história em quadrinhos de um sobrevivente judeu, escrita e desenhada por seu filho, o autor do livro e nada melhor do que se sentir na pele dele para realmente entender o que foi o holocausto.

Os quadrinhos foram publicados em duas partes, a primeira em 1986 e a segunda em 1991. No ano seguinte, o livro ganhou o prestigioso Prêmio Pulitzer de literatura.
Representando Judeus como ratos, alemães como gatos, franceses como sapos, poloneses como porcos e americanos como cachorros, Art Spiegelman monta a incrível narrativa de sobrevivência de seus pais a guerra. Seu traço sombrio e tão humano, não realmente parece que são animais desenhados, quem lê consegue enxergar nitidamente humanos desenhados.

A história mistura duas realidades, a rotina do autor e a de seu pai Vladek. As várias visitas feitas ao seu pai para ouvir as histórias  são demonstradas, tudo o que aconteceu durante as narrativas, algo que muito me cativou.

Com toda a informação contida no livro pode-se perceber que o que vemos em filmes é muito pouco da verdadeira realidade de um campo de concentração, do medo constante, dor e sofrimento, um lugar onde só os mais sabidos conseguiriam se salvar.

No começo da guerra Vladek, Anja, sua esposa e seu primeiro filho Richeu, viviam ainda com conforto. Vladek foi a guerra na Suíça onde soldados dormiam em barracas no frio e sem comida. Por alguns anos viveu assim até voltar para sua casa. Então, a realidade piorava a ponto dos três precisarem viver com a família grande de Anja, doze pessoas em uma casa só. Conforme os anos avançavam novas ordens dos alemães surgiam. Os velhos deviam ser entregados. Móveis e pertences eram dados aos alemães, se alguém do mercado negro de comida fosse pego era enforcado na praça, seus corpos ficavam muitos dias expostos.

Muitos acontecimentos depois todos se viram obrigados a se separar. Em várias dessas partes, Vladek se mostra arrependido de muitas escolhas. Como a de não entregar seu filho aos cuidados de um colega que conhecia pessoas que protegiam crianças, pois sua mulher não concordava com a ideia.

“ Ilzeck e seu mulher não escaparam do guerra...mas o filho deles ficou vivo. O nosso não...e tivemos que dar Richeu para esconder um ano depois.” (Página 83)

A morte do filho chegou aos ouvidos deles muito depois. A escolha de saírem do abrigo que uma polonesa oferecia para eles, muito errada também. Vladek e sua mulher vivam na casa de uma polonesa para fugir da gestapo, em troca, Anja ensinava alemão para o filho da mulher.  Na época Vladek ouviu que a vida na Hungria era mais fácil e foi com alguns judeus conversar com as pessoas que arrumavam vistos. Combinaram que um iria e se fosse realmente bom, mandaria cartas. Ao conversar com a esposa recebeu respostas negativas, tanto da esposa quanto da polonesa que os abrigava. Mas a carta do homem chegou e foi positiva. Vladek deu o abrigo com a polonesa para um amigo e ele e Anja foram pegar o trem para a Hungria.

“ Então, eu vai ver Miloch na seu bunker lixeira e fala como ele ir pra Szopienice para se esconder...Sabe, Miloch, seu mulher e o filho, eles todos sobrevive guerra inteiro...lá...com Motonowa...Mas outro destino esperava Anja e eu...” (Página 156)

Era, claro, uma armadilha, os alemães invadiram o trem e foram então para os campos. Em Auschwitz foi separado da mulher. Anja foi para Birkenau, que era 3 km de distância de onde ele estava.

Em seus muitos anos de guerra, o sobrevivente Vladek fez diversos movimentos espertos para salvar sua vida e de sua mulher. Tentava amizade com os alemães, com os Kapo que “cuidavam” das cabanas dos judeus, economizava a pouca comida que recebia, tudo através de trocas e trabalho. Em várias conversas com o autor, seu pai reforçava que era bom saber de tudo.

Dentro dos campos trabalhou como funileiro, sapateiro, carregava pedras e outras coisas pesadas. De tempos em tempos ocorria uma “seleção”, onde os judeus ficavam nus de frente para um médico que os avaliava, os mais saudáveis sobreviviam, os outros não tinham muita sorte, Vladek conseguia muitas vezes fugir dessa inspeção, às vezes escondido no banheiro, às vezes em outros esconderijos.

Muitos soldados alemães tinham pena dos judeus. Um costumava conversar amigavelmente com eles, até que foi transferido para outro campo por alguns dias e, quando voltou, tinha medo de falar com eles e ser castigado. Outro deixou para Vladek consertar uma bota, Vladek que não era bom sapateiro encontrou alguém que podia consertar em troca de pão. Entregou para o soldado a bota como se ele mesmo a tivesse consertado. O soldado deixou a bota na mesa e saiu da sala, voltou um tempo depois com uma salsicha e a deu para Vladek agradecendo a ele.

A realidade dos campos era horrível.

“Felizes dos que morriam no câmara de gás antes de ir para as covas. Outros tinham que pular nos covas quando ainda estavam vivos...Prisioneiros que trabalhava lá jogava gasolina nos vivos e nos mortos. Pegavam gordura dos corpos que queimavam e jogavam de novo por cima para todo mundo queimar melhor.” ( Página 232)

“ A câmara de gás era subterrânea. Funileiros tinham que tirar canos e ventiladores. Prisioneiros especiais trabalhava ali. Um me mostrou como tudo funcionava.  O gás Zyklon B entrava pelos colunas ocas. Levava de três a trinta minutos...dependia da quantidade de gás...mas em pouco tempo ninguém estava vivo. A maior ilha de corpos ficava junto da porta...eles tentava sair. Aquele que trabalhou lá conta... A gente separava os corpos com ganchos. Pilhas grandes. Os mais fortes em cima e os velhos e os bebês por baixo, esmagados...crânios quebrados... os dedos quebravam ao tentar subir pelas paredes...e uns braços ficavam do comprimento do corpo, desencaixados das juntas.” ( Página 231)

“Maioria ser criança. Alguns só tinham dois ou três anos. Alguns deles ficava gritando muito e não paravam. Então as alemães pega eles pelas pernas e bate no parede...e eles não grita nunca mais. (Página 110)

“Tinha febre muito quente e não podia dormir. Tifo! Toda noite gente morria disso. De noite tinha que ir na banheiro embaixo. Estava sempre cheio, corredor inteiro com mortos empilhados lá. Não dava para passar...Você tinha que ir nos seus cabeças, e isso era terrível, porque era escorregadio, a pele, você achava que ia cair. E isso toda noite. (Página 255)

Após muito sofrimento e tentativas de assassinar quantos judeus podiam mais, os alemães finalmente fugiram, os que conseguiram sobreviver ficaram aos cuidados dos americanos até que conseguissem achar suas famílias. Vladek encontrou Anja, viveram por um tempo na Suécia e foram para  NY onde tiveram o autor, Art. Em determinado capítulo, o autor conta sobre a morte de sua mãe em quadrinhos ainda mais sombrios.

Art vivia com sua esposa Françoise, que se converteu Judia para que seu sogro a aceitasse.

Após a morte de Anja, Vladek se casou com outra sobrevivente judia, mas não se davam bem. Vladek negava qualquer dinheiro à mulher e reclamava dela o tempo inteiro.
Vladek se tornou uma pessoa difícil de lidar, Art não conseguia ficar com ele, e se mostrava arrependido dos quadrinhos e de não ter passado a guerra com sua família.

“Pais e avós de Anja, irmã mais velha Tosha, pequena Bibi e nosso Richeu...só o que sobra, só as fotos.” (Página 275)

Li esse livro de madrugada algumas vezes e devo dizer que me assustou mais do que qualquer livro de terror com fantasmas, demônios e assombrações. A história desse livro, os acontecimentos foram ocasionados por humanos e talvez seja essa assombração que devamos temer, nossa própria espécie.

Finalizo então com a primeira frase que apresenta o livro:

“Sem dúvida, os judeus são uma raça, mas não são humanos.” 
Adolf Hitler.


2 comentários:

  1. eu adorei essa dica porque também gosto de ler sobre a segunda guerra e nunca li um livro em quadrinhos
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  2. Esse quadrinho é um dos meus favoritos!
    Céus como ele me machucou ao mostrar a pior "face" do homem... e o que vc mencionou na resenha é verdade: um filme sobre o holocausto por mais dramático e real que chegam, não conseguiram repassar toda a dor e drama que essa HQ passou para mim.

    xoxo
    Mila F.
    @camila_marcia
    www.delivroemlivro.com.br

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