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3.8.16

{Resenha} Voltar para Casa




Quando Frank Money volta da Guerra da Coreia com mais cicatrizes do que as visíveis no corpo, encontra um mundo racista e desfigurado. Durante os anos de sua ausência, sua irmã Ycidra sobreviveu como pôde a uma sociedade machista e opressiva, em que as mulheres são sistematicamente abandonadas pelos maridos e muitas vezes mutiladas sem piedade. Ao se reencontrarem na pequena cidade de Lotus, na Geórgia, onde nasceram, os irmãos revisitam memórias da infância, e Frank retoma sua experiência traumática no campo de batalha para redescobrir a força e a coragem que já não acreditava ter. Um romance estarrecedor sobre a forte ligação entre irmãos, a resinificação de um passado violento e a volta para casa. 

Atormentado pelos fantasmas de uma guerra que não era sua, Frank Money se refugiava na embriaguez para tentar sobreviver e, assim, levava um dia após o outro. Frank já não tinha identidade, não tinha esperança, não tinha futuro. Até, que então, ele tinha uma missão: por meio de uma carta, chega a notícia de que sua irmã Ycidra estava à beira da morte e ele precisava salvá-la. Sua irmãzinha, sua parceira, sua protegida, sua primeira responsabilidade.


"Arrastei o Mike pra um lugar seguro e briguei com as aves, mas ele morreu assim mesmo. Fiquei abraçado com ele, conversei com ele durante uma hora, mas ele morreu assim mesmo. Estanquei o sangue que jorrava do lugar onde devia estar o braço do Stuff. Encontrei o braço uns seis metros adiante e dei pra ele, no caso de poderem costurar de volta. Ele morreu assim mesmo. Chega de gente que eu não salvei. Chega de ficar olhando gente próxima de mim morrer. Chega. 
E a minha irmã não. De jeito nenhum." 


Em 135 páginas, Toni Morrison nos mostra a traumática realidade do pós-guerra e de uma sociedade racista e machista onde as autoridades serviam não aos desamparados, mas apenas a si mesmas. No livro, cada personagem vive sua própria batalha. Frank tenta resistir às lembranças horrendas do que teve que fazer para sobreviver. Lily, namorada do ex-guerrilheiro, que via as portas se fechando para ela pelo simples fato de ser judia.  Ycidra, na condição de negra e mulher, foi criada para ficar calada e servir, tendo que arcar com as últimas consequências de ser subjugada sempre.  

O livro é bem pequeno mas sua leitura foi demorada; custei a digerir cada jornada que a autora revelava e me perdia na complexidade das personagens. Não há esteriótipos, não há vilões, não há mocinhos: Toni Morrison destrincha cada personalidade e tudo que a construiu, mostrando que nem tudo é como se vê. Além de ser uma leitura profunda e reflexiva, o livro é perfeitamente redigido - o que deixa as personagens ainda mais reais e a leitura extremamente prazerosa. 

Ao dissertar sobre Ycidra e seu renascimento na sociedade como dona de si, lembrei-me de um livro que li quando tinha uns 14 anos: Mulheres, de Marilyn French, 1977 (o título original é The Women's Room). Este livro me introduziu ao feminismo e suas personagens tem uma trajetória muito parecida com a de Ycidra: mulheres que encontram maneiras de sobreviver, sozinhas, ao sistema machista que as oprime; não precisavam da proteção de ninguém, só precisavam começar a acreditar em si mesmas - e o momento em que essa transição acontece é magnífico, acreditem.


"Só Frank a valorizava. A dedicação dele a protegera, mas não a fortalecera. Por que deveria? Por que aquilo seria função dele e não dela mesma? Ci não conhecia nenhuma mulher delicada, boba. Nem Thelma, nem Sarah, nem Ida, certamente nenhuma das mulheres que a tinha curado. (...)
Então era só ela mesma. Nesse mundo com essa gente ela queria ser a pessoa que nuncam ais ia precisar de socorro. (...) Batida pelo sol ou não, ela queria ser aquela que resgatava a si mesma. Tinha cabeça ou não. Desejar não ia fazer acontecer, culpar também não, mas pensar talvez. Se ela não se respeitasse, por que os outros a respeitariam?"


Este foi um livro maravilhoso, quero lê-lo de novo quando suas palavras desbotarem de minha mente. Um livro pequeno mas com uma enorme história. Voltar para Casa não é sobre reencontrar a família, os amigos, o passado; Voltar para Casa é sobre reencontrar a si mesmo. 


"De quem é esta casa?
De quem é a noite que não deixa entrar a luz aqui?
Me diga, quem é dono desta casa?
Não é minha.
Sonhei com outra, mais doce, mais clara
com uma vista de lagos que barcos pintados atravessam;
de campos largos como braços abertos para mim.
Esta casa é estranha.
Suas sombras mentem.
Olhe, me diga, por que minha chave encaixa na fechadura?"

Edição: 1
Autora: Toni Morrison
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-359-2712-2
Ano: 2016
Páginas: 135




3 comentários:

  1. a proposta é interessante e tem elementos bem bacanas, mas de verdade não um enredo que me convença ou motive, eu simplesmente não curto esse tipo de leitura

    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  2. Aryanna, que resenha linda, sensível, clara e traduzindo muito bem a leitura da obra. Eu gostei muito do livro, embora tenha reclamado das poucas páginas. Afinal, personagens tao densos, uma trama tão crua e sem rodeios, tão impactante como a vida real... queria mais! Eis o poder de uma escritora premiada com o Nobel de Literatura, o Pulitzer de Ficção e outros tantos, merecido reconhecimento ao que esta mulher tem a falar sobre a condição dos negros, especialmente das mulheres negras nos EUA.
    Por mais leituras assim! Por mais autoras!
    Beijo!

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  3. Oi, Manu! Que bom que você também gostou! Realmente, falta espaço para tanto conteúdo; mas não deixa de ser um livro magnífico, não é?

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