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14.9.16

{Resenha} Tá todo mundo mal



Autora: Jout Jout
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: Do alto de seus 25 anos, Julia Tolezano, mais conhecida como Jout Jout, já passou por todo tipo de crise. De achar que seus peitos eram pequenos demais a não saber que carreira seguir. Em Tá todo mundo mal, ela reuniu as suas “melhores” angústias em textos tão divertidos e inspirados quanto os vídeos de seu canal no YouTube, “Jout Jout, Prazer”. Família, aparência, inseguranças, relacionamentos amorosos, trabalho, onde morar e o que fazer com os sushis que sobraram no prato são algumas das questões que ela levanta. Além de nos identificarmos, Jout Jout sabe como nos fazer sentir melhor, pois nada como ouvir sobre crises alheias para aliviar as nossas próprias!


Resenha:

Crise sugere um momento conflituoso, um período difícil, tensão. Falar sobre os diversos tipos de crise é a proposta do livro Tá todo mundo mal (Companhia das Letras, 200 páginas), da Youtuber Julia Tolezano, criadora do canal Jout Jout Prazer. Desde as célebres mudanças na adolescência, a escolha da carreira, o início da vida adulta e até mesmo os probleminhas cotidianos, temos aqui um apanhado de situações que, pelas mãos de Jout Jout, vão soar hilárias.
“Nada mais reconfortante para quem está numa crise do que saber das crises dos outros e ficar medindo em silêncio sobre se a deles é pior ou mais branda que a nossa própria. Então aqui estou. Enumerando gentilmente meus piores momentos. Para você avaliar se os seus foram um pouquinho melhores e ter um sono mais tranquilo."
Para quem não a conhece ainda, o vídeo “Não tira o batom vermelho” estourou na internet, hoje com mais de 2 milhões de visualizações. Comece por ele, sem dúvida alguma o melhor. Depois dele, tudo que Jout publica é visto pela legião de fãs e os mais de 900 mil inscritos do canal. Daí a surgir a ideia do livro foi um passinho... que, é claro, deu origem a uma nova crise (sim, uma crise puxa outra):
"Durante um tempo, eu pensava que tudo que eu produzisse tinha que ganhar um prêmio. Fui descobrir mais tarde que esse pensamento não passa de mais uma forma de você não fazer as coisas, porque, segundo essa lógica, se eu fosse escrever um livro seria para ganhar um Jabuti, virar escritora-revelação, rainha das letras, ganhar cadeira de imortal, ser traduzida para duzentas línguas e ter gente tatuando minhas frases emblemáticas, claro. Que livro, eu te pergunto, suporta essa pressão? Que projeto qualquer da vida suporta essa pressão?"
Tem de tudo no livro, que o leitor devora rapidinho. A diagramação está linda, a capa emborrachada é um luxo. E o conteúdo, que eu presumia só diversão, não é que veio com algumas boas reflexões para a minha vida?
"Expectativa demais é um jeito bom de se alcançar a culpa. Porque você nunca vai conseguir ser tão maravilhosa quanto a expectativa sugere que você é, então sempre vai acabar em decepção, e a decepção, em culpa."
Para quem acompanha os vídeos de Julia ou já viu um ou outro, vai ser fácil começar a leitura e ouvir a voz dela penetrando em seus pensamentos, narrando o livro. Até suas pausas poderão ser percebidas nas entrelinhas do texto. A Jout Jout que conhecemos está inteirinha ali, nas melhores partes e nas mais sem graça também. (Sim, os mais críticos e os mais chatos concordarão). Em algumas passagens o leitor vai, fatalmente, se identificar, afinal, são vexames que passamos alguma vez na vida (ou muitas vezes, como no meu caso, haha) e que Jout Jout está ali para dizer que está tudo bem, você não está sozinho ou louco, acontece com ela, inclusive. Ela, descolada e famosa, autêntica e descabelada nos vídeos. Pois é. Vai ser um carinho na alma.
Os capítulos são curtos (dois de apenas uma única e decisiva frase), cada um com uma crise diferente – nova ou recidiva, quem poderá dizer? As terríveis angústias da adolescência desfilam fácil no corredor das primeiras memórias:
“Me faltava queixo e autoestima, mas eu fazia qualquer pessoa que colasse do meu lado morrer de rir. Era uma excelente ouvinte, as pessoas faziam fila para desabafar comigo, chorando nos meus ombros (geralmente meninos sofrendo por outras meninas), amiga melhor que eu não havia.”
E aqueles momentos difíceis, nas famosas e sofridas crises de amor, de solidão e de conflitos entre amigos, todo mundo tem uma boa pra contar:
"Mas e os namoradinhos? Eu precisava dos namoradinhos. Todos os filmes da Disney que eu havia assistido e rebobinado e visto de novo duzentas vezes me diziam que eu precisava de um namoradinho. Mas eles não estavam lá. Uma vez uma amiga querida inclusive falou que eu era a única menina da sala de quem ela não sentia ciúme, porque eu claramente não conseguiria pegar o namorado dela. De uma delicadeza sem igual."
Uma decisão importantíssima na vida, como a escolha da profissão, é motivo de crise, claro, para quase todo mundo. Levanta aí a mão quem nunca? Para Jout Jout não foi nada fácil (aliás, nossa PhD em turbulências foi ótima para sair de mais essa):
"Não tinha talentos. Não tinha nada que eu fizesse melhor que outras pessoas. Pelo menos nada que pudesse ser traduzido em emprego. Eu era uma boa amiga. Eu dava uns conselhos esquisitos que as pessoas adoravam. Eu fazia as pessoas ficarem felizinhas. Que profissão é possível com essas habilidades? Como colocar isso em um currículo? Onde encontrar uma empresa que esteja em busca de uma boa amiga?”
Se você que me lê é adolescente, creia, o que vem logo abaixo é normal. Se já é adulto, vai identificar alguém nessa fala (no meu caso, eu no espelho):
"A gente tem essa impressão às vezes de que tem uma hora que a gente vai crescer. Tipo um dia, com hora marcada na agenda. Sexta que vem eu cresço. Quando na verdade a gente já cresceu faz tempo, mas é tão insuportável crescer, que a gente fica jogando lá para a frente. Quando eu acabar a faculdade, quando eu acabar a minha pós, quando eu acabar o mestrado, e quando você vê, está com sessenta anos e nada de se sentir adulto. Você quer que sua vida comece logo, quando na verdade ela já começou há mais de vinte anos.”
Pausa aqui. Não está fácil digerir, Jout Jout.
 Estou em crise! Volte amanhã.
Para os indecisos, então, sabemos o quão é doloroso tomar uma atitude quando o nosso coraçãozinho fica dividido. É muita liberdade de escolha, isso complica!:
"Escolher esmalte, profissão, sabor de pizza, cadeira em cinemas vazios, lugar em um ônibus que tem duas pessoas — tudo isso é uma tortura tão insuportável que você fica presa num limbo da liberdade excessiva, com a sensação de que sua vida vai parar ali e que dali não tem como sair."
Até que o Caio chega na vida de Jout e, com aquela mãozinha parceira, ajuda a diluir uma crise que a acompanhava há quanto tempo mesmo, hein?:
"Eu comecei a rir dos meus dramas. Quando fui ver, estava apaixonada por essa versão de mim que ele fazia vir à tona. Me apaixonei por um sujeito que fez com que eu me apaixonasse por mim mesma. Profundo pra caralho."
(Caio é o namorado da Julia, conversa com ela durante as gravações, mas só há bem pouco tempo resolveu mostrar a carinha. Antes só tínhamos a voz dele). E como todo grande amor, com ele vem aquela ansiedade que os mais neuróticos conhecem bem:
"No minuto em que ele sai pela porta, meu coração dispara. Me arrependo. Começa um fluxo das piores sensações e uma lista imensa e muito detalhada de desastres que podem acontecer com ele, (...). E aí começa outra onda de pensamentos no momento em que reparo que ele está demorando demais. Eu sempre penso: quanto é demais? Depois de quanto tempo uma pessoa começa a ficar desesperada com a demora da outra?"
Julia vai discorrendo sobre tantas queixas, umas bem duras e outras superdimensionadas, e no meio delas tem também uma e outra que achei completamente descartável, como a “crise do pum”, nessa eu sofri terrivelmente de vergonha alheia. Pausa para uma (outra) crise minha.
Como crítica a respeito da proliferação de livros de youtubers, sabemos que são subprodutos dos canais que “deram certo”. O que me leva a questionar qual o propósito de um youtuber escrever um livro. Tem ele habilidade para a escrita, é uma vontade anterior ao canal ou mais uma maneira de divulgar ou faturar com a exposição? No caso da Julia é um pouco diferente, ela sempre gostou de escrever e fez faculdade de jornalismo. Mas até que ponto o livro traz algo novo para seus seguidores? Uma versão impressa do que a Jout Jout diz nos vídeos? Um nicho para seguidores-leitores? Os seguidores compraram os livros porque são leitores?  Não consegui responder e acato opiniões. Considerando que a grande maioria de consumidores de vídeos do YouTube é adolescente, é preciso que seja cuidadosa a publicação de uma ou outra informação que facilmente é assumida como verdade pelos que estão em formação...
Para o que se propõe, entretanto, acho que a leitura atingiu o seu objetivo. Não procurou respostas ou saídas para as crises, mas mostrou o quanto somos parecidos em circunstâncias difíceis, como podemos nos divertir depois ao pensar nelas e, principalmente, saber que todos passamos por isso. Atribui-se a Einstein a frase: Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Cabe redondinha para fechar o caminho que Julia acabou descobrindo com muitas crises, mas também com criatividade e coragem.
O fato é que ela se comunica bem. Não usa de nenhum artifício para aparecer no vídeo, não força a barra. Acorda e do jeito que está abre a boca para comentar algo, sugerir, protestar, divagar, refletir, tendo a voz do doce e paciente Caio pontuando ou instigando seu posicionamento. Infalível. Mais perto de você, impossível.
Nas divulgações do canal dela, há um slogan para fechar esta resenha: “Novos tempos. Novos ídolos.
Se você tiver interesse, veja o vídeo O Melhor Dicionário, super fofo e o que mais gosto ao lado do famoso Batom Vermelho. (Links no final da resenha).

Classificação: 4 estrelas.
Link do livro no Skoob:
Link do vídeo O melhor dicionário:
Link do vídeo Não tira o batom vermelho:



5 comentários:

  1. sou sincera ao dizer que não conhecia a vlogueira, mas pelo que li na resenha ela é extremamente comunicativa, usa de uma linguagem fácil e atrativa e fala de temas relevantes para os jovens. Agora consigo entender o sucesso que ela tem feito
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  2. Adoro os videos da Jout Jout, mas confesso sempre ter um certo receio desses livros de youtubers... São tantos desconhecidos se tornando famosos tão rapidamente, e usando dessa "fama" para vender livros sem nenhum tipo de preocupação com o conteúdo... Mas pelo visto, Jout Jout conseguiu ser fiel ao seu propósito... Mesmo escrevendo, conseguiu abordar temas do cotidiano que fazem o leitor se identificar com situações vividas por ela... Fiquei curiosa... Espero ter a oportunidade de ler algum dia!! ;)
    Beijos Manuh!

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  3. querida Manuh, você bem sabe o quanto eu estava ansioso por sua resenha sobre este livro, eis que aí está ela - nada mais que deslumbrante!
    acompanho um pouco da jout jout através do youtube, ando até um pouco afastado disso, mas sempre que posso dou uma passadinha por lá e adoro vê-la proseando.
    como bem sabemos, é sempre melhor rir da desgraça alheia, as mazelas do vizinho não nos diz respeito, então é melhor a dele que a nossa (pelo menos é sempre assim que nos atiramos a livros que nos traz alegria, sem que passemos por situações constrangedoras). seria assim, se por acaso não nos identificássemos com quase tudo, a gente lê, dá aquela risada e olha para os lados pra ver se não tem ninguém olhando, porque explicar seria duplamente constrangedor - constrangimento na hora de explicar e na hora de dizer que já passamos por isso, rs.
    observação: vi que você se identificou com "quando vou crescer?" (a do "pum" vou nem comentar, rsrsrsrs, rindo litros), fiquei me imaginando no tal "escrever um livro pra ganhar jabuti". e não é que nós, pretensiosos semi-escritores, somos assim mesmo, não nos basta sermos lidos, temos que ser sucesso, eta vida besta, rs.
    você julgou o livro 4 estrelas, então ele fatalmente conseguiu tirá-la da zona de conforto de alguma forma, ponto para jout jout.
    não costumo me colocar em cheque, mas acho que todo ser humano pensante deveria procurar uma crisesinha para abalar as estruturas que se encontram imóveis, criando limo. a leitura de jout jout pode nos provocar algo parecido com isso né?
    gostei demais de sua versão menos crítica e mais laissez-faire, com este livro que é pura diversão, resenha tão divertida quanto o livro, rs. beijos!

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  4. Manu, mesmo em contato com o universo literário diariamente, sei lá porque não tinha visto o livro ou se apenas não havia despertado meu interesse, só me chamou atenção quando você fez comentários sobre ele. Confesso que até então não conhecia a vlogger, e que tenho aquele pé atrás com literatura de famosos e youtubers, bom que às vezes você é surpreendido, uma boa "garimpada" ajuda encontrar coisa boa. E, é claro não poderia ser diferente, mais uma vez fui convencida a lê-lo por consequência de sua resenha tão bem construída e divertida (me provocou risos), aí já sabe! Fiquei com uma vontade danada de ler. Por sua descrição vi que é a receita certa para quando procuro daquelas leituras que nos faz rir, nos identifica com outros e nos traz reflexões. Já adicionado em minha estante de futuras leituras e quando ler comento contigo o que achei. Aproveitarei também a dica para conhecer o canal. Beijos

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  5. Olha Manuh tua resenha mudou minha opinião sobre ela, não tenha dúvidas. Já vi um ou outro vídeo dela mas não me agradeci e não me identifiquei,sei lá. Sempre vi livros de YouTubers com olhos de rejeição, não me atrai e não conseguia enxergar o que de novo acrescentaria às estantes. Depois dessa resenha afirmo convictamente que meus olhos agora enxergam esses livros de outra forma e principalmente esse da Jout Jout. Nunca parei pra ler uma resenha desse livro, e nem pretendia, mas depois de ler sua resenha fiquei muito interessado. Isso de atingir a ferida, crises e tudo mais ficou bem elucidado na resenha e me atraiu. Quero ler ele sim é espero que logo. Brilhante resenha.

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