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12.11.16

{Resenha} Meu nome é Lucy Barton


Autora: Elizabeth Strout
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: “Vocês só vão ter uma história [...].
Vocês vão escrever essa única história de muitas maneiras. Nunca se preocupem com a história. Vocês só têm uma.” O conselho de Sarah Payne, ficcionista e professora de escrita criativa, marca Lucy Barton em sua busca por uma voz literária no começo da carreira. Hoje autora bem-sucedida e narradora deste romance, Lucy está há três semanas num hospital com vista para o edifício Chrysler, em Nova York, se recuperando das complicações de uma simples operação para extrair o apêndice. Sofrendo de saudade das filhas e do marido, ela recebe uma visita inesperada da mãe, com quem não falava havia anos. Mas o que se segue durante as cinco noites em que as duas ficam juntas não são longas discussões de relacionamento ou uma reconciliação verbal. Estimulada pelo exercício da memória, a narradora convalescente lança um olhar aguçado e humano, sem sentimentalismos, para os acontecimentos centrais de sua vida: o isolamento e a pobreza dos anos da infância, o distanciamento de um núcleo afetivo desestruturado, a luta para se tornar escritora, o casamento e a maternidade. Enquanto isso, Lucy ouve episódios envolvendo amigos, familiares e conhecidos que povoaram sua juventude em um vilarejo rural de Illinois e vê a intimidade com sua mãe se reinventar entre gargalhadas e silêncios. “Mamãe, você me ama?”, a menina do passado pergunta no presente. “Quando os seus olhos estão fechados”, é a resposta de quem nunca foi perfeita e nem poderá ser em seu amor, e talvez seja essa a única história possível para Lucy Barton. Excelente ficcionista, atenta às relações humanas e aos momentos mais prosaicos de epifania e de revelação, Elizabeth Strout ilumina a relação primordial, ao mesmo tempo conflitiva e afetuosa entre mãe e filha.


"A solidão era o primeiro gosto que eu tinha sentido na vida, e ela estava sempre ali, escondida nas fendas da minha boca, me fazendo lembrar."


A escritora americana Elizabeth Strout ganhou o Pulitzer em 2009 com Olive Kitteridge. Este é o seu quinto romance, mas o primeiro publicado no Brasil. Confesso que escritores premiados me despertam uma certa curiosidade, mas no caso de MEU NOME É LUCY BARTON o que me fisgou foi a relação mãe e filha.



A trama do livro é quase um acerto de contas. Lucy narra toda a história usando o fluxo de consciência (e, particularmente, adoro a técnica) para tentar esclarecer sua relação com uma mãe fria, numa família onde o afeto e o contato físico não têm morada, o amadurecimento longe dessas pessoas estranhas e seu momento presente, agora escritora. Tudo se passa enquanto ela relembra um momento em particular, de quando esteve hospitalizada por semanas e recebeu a companhia da mãe por cinco dias, e esta lembrança faz vir à tona outras tantas marcas:

"Não sei quantas vezes fiquei trancada na caminhonete. (...) Lembro de bater no vidro das janelas gritando. Eu não achava que ia morrer, não acho que pensasse em alguma coisa, era apenas terror, ao perceber que ninguém viria, vendo o céu escurecer e sentindo o frio começando a entrar. Eu sempre gritava e gritava. Chorava até mal conseguir respirar. (...) De vez em quando vejo uma criança chorando no mais profundo desespero e acho que esse é um dos sons mais verdadeiros que uma criança pode fazer. (...). Já cheguei a sair de vagões de metrô para não precisar ouvir uma criança chorando desse jeito."

Dentro de um hospital a percepção do tempo muda. Em lenta recuperação de uma cirurgia, Lucy repassa vários momentos de sua vida, juntando os fragmentos da infância, a entrada na vida adulta e a profunda carência que sente. A presença da mãe ali, ao seu lado, é o ponto alto dessa parada forçada. Afastada de toda a família desde a faculdade, Lucy tenta reatar algum laço com aquela mulher austera, que a trata como se nada tivesse acontecido. Juntas revisitam os velhos tempos, a mãe recordando fofocas da vida de vizinhos, enquanto Lucy tenta, quase desesperadamente, sentir-se conectada àquela figura primordial:

"Parei de escutar. Era o som da voz da minha mãe o que eu mais queria; o que ela dizia não tinha importância. Então fiquei escutando o som da sua voz (...). Fazia um tempo enorme que eu não ouvia a sua voz, e ela estava diferente. Talvez minha memória é que estivesse diferente, pois o som da voz da minha mãe costumava me dar nos nervos. Esse som era o oposto disso - sempre a impressão de alguma coisa presa, da urgência."

Por estar privada da companhia das filhas pequenas e do marido, que fica cuidando das meninas, sua mãe é agora a única companhia. Aquela que há tanto tempo não vê. Não existe relação entre a família que Lucy constituiu e seus pais e irmãos. Enquanto elas tentam estabelecer alguma intimidade em conversas amenas, Lucy vai apresentando ao leitor suas memórias doloridas de privação afetiva e material, da pobreza em que crescera, de exclusão social e preconceito. Ao sair de casa para a universidade, uma Lucy ingênua e solitária teve que enfrentar um estranhamento muito além dos limites domésticos. Não se cruza fronteiras sem algum prejuízo, nem se busca identidade sem os elementos que lhe constituem. No caso de Lucy, uma profunda solidão.

A tensão é centrada na possibilidade de reconciliação. Especialmente entre mãe e filha, mas também de Lucy com sua própria história. E é por isso que ela se inscreve em um curso com uma escritora famosa, que lhe estimula.

“Mas os livros me traziam coisas. Essa é a minha questão. Eles faziam eu me sentir menos sozinha. (...) E eu pensava: vou escrever livros e as pessoas não vão se sentir tão sozinhas! (Mas era o meu segredo. (...) Eu não conseguia me levar a sério. Só que eu me levava - lá no fundo, em segredo - muito a sério! Eu sabia que eu era uma escritora).”

A carência de Lucy a torna muito vulnerável. Percebemos o quanto procura o seu lugar, o quanto deseja ser amada e realiza isso no casamento e na relação com as filhas. Apesar das dificuldades que enfrentou e das conquistas, naquele momento no hospital ainda não conseguia firmar contato nem consigo mesma.

"Eu disse de repente, enquanto as luzes começavam a se acender em toda a cidade:"Mamãe, você me ama?"Minha mãe balançou a cabeça, olhou para as luzes."Wizzle, pare com isso.""Vamos, mamãe, me diga." Comecei a rir e ela começou a rir também."Wizzle, pelo amor de Deus."
Lucy se sente deslocada desde muito cedo e reflete sobre os sentimentos ligados à sua origem e identidade. Talvez o título do livro remeta a esta mesma ideia, reforçada por Lucy em algumas passagens, quem ela é, de que foi constituída, o que pode descobrir para, enfim, apropriar-se de si mesma. De acordo com o filósofo alemão Schopenhauer, “todo desejo nasce de uma falta”. E esse sentimento de ausência é o movimento precursor da busca de Lucy, que a faz seguir adiante, às vezes vacilante, e por mais que identifiquemos sua fragilidade, não imagina a força que a move. 

“Os meus pais detestavam choro, e é difícil para uma criança que está chorando ter que parar, sabendo que se não fizer isso tudo vai piorar. Não é uma posição fácil para uma criança. E minha mãe - naquela noite no quarto do hospital - era a mãe que eu tinha tido durante toda a minha vida (...)."

É uma leitura lenta, pungente, introspectiva. Só temos a versão de Lucy, seus sentimentos. Da mulher que a pariu não conseguimos extrair mais que sua presença hermética, sua aridez de sentimentos. Isso deve nos levar a crer que também a mãe tem um histórico de abuso emocional, transferindo à filha aquilo que conhece. Mas Lucy é diferente com as filhas, refletiu profundamente sobre suas necessidades e zela por não cometer o mesmo erro. Ao contrário do que imaginei, Lucy não sente necessidade de perdoar a mãe, mas esta sim, de uma maneira atrapalhada tenta se redimir do que causou à filha, mas tão precariamente que transfere ao leitor o amargo dessa culpa e impotência, esse desarranjo afetivo.

"Coitados de nós. Não é nossa intenção sermos tão pequenos. Coitados de nós - isso passa bastante pela minha cabeça -, coitados de todos nós."

Sou mãe e também filha, impossível não me colocar sob a pele das personagens. E é difícil também captar toda a dor de Lucy, tendo sido tão amada por minha mãe, sendo tão dedicada ao meu filho. Mas nós, mulheres, carregamos a ancestralidade feminina do cuidar e compreender, nos permitindo um olhar sensível sobre as condições do outro, em especial das próprias mulheres. Então, perdoei e compreendi, aceitei as duas como são. Compaixão por estas mulheres. Há situações sem volta, o único caminho é seguir em frente.



"Eu adormecia e acordava ouvindo a voz da minha mãe. Pensei: tudo o que eu quero é isso."


Classificação: 3 estrelas

11 comentários:

  1. cara Manuh, livros me interessam por diversos motivos, indicação de uma amigo que leu e gostou, de um amigo que diz que o livro é "a minha cara", de alguém que parado num ponto de ônibus não consegue largar o livro, uma capa bem transada (já comprei muito livro pela capa), um autor do qual sou fã, um autor totalmente desconhecido, um autor premiado, uma resenha emocionada (neste quesito você é imbatível), entre tantas outras coisas.
    no caso deste livro em especial, que ainda não li e digo ainda porque fatalmente lerei, foi aquela frase maiúscula, cheia de sentimentos que você colocou no início: "A solidão era o primeiro gosto que eu tinha sentido na vida, e ela estava sempre ali, escondida nas fendas da minha boca, me fazendo lembrar."
    há frases que me encantam por eu me ver estampado nela, nu, sem máscaras, ali dissecado. sou discípulo primeiro da "solidão", nela me encontrei e nela me perco constantemente. não há explicações para a solidão, ela existe, algumas vezes dói e muitas outras vezes sinto necessidade dela e ponto.
    outro momento do livro que encheu minha barriga de borboletas foi a necessidade de purgar um relacionamento frio, porque sei que terei um dia o meu próprio "acerto de contas", seja com minha mãe, minha companheira, meus filhos. sou silencioso e as palavras nunca me ocorrem no momento correto, após uma discussão ríspida, naquela instante em que ela não deixaria tudo desmoronar. ela não aparece, o dicionário todo simplesmente deixam de existir em minha memória e o chão se abre num abismo. na maioria das vezes é assim comigo. vivo me policiando para que possa melhorar mais e mais, para que as palavras apaziguadoras cheguem cedo, para que meu sentimento faça morada no coração daqueles que amo.
    li sua resenha uma vez, refleti, internalizei. voltei a ela para tentar escrever o que senti e como suas palavras e os trechos que tão bem recortou me afetaram. a dor de querer fazer parte de alguma coisa, de um grupo familiar ou social, é a dor mais profunda daquele que é alijado da convivência e sofre o desconforto de um marginal.
    ao final de sua resenha uma questão se colocou em meu caminho: será que leio livro para não me sentir tão só? quero acreditar que os leio para poder compartilhar com quem me faz bem, para me tornar alguém melhor do que sou, para fazer parte de um elo superior que me liga a pessoas tão ou mais emotivas que eu.
    sinta-se agora, além de mãe e filha e companheira, uma amiga carinhosa e complacente, a qual não me importaria em discorrer tudo aquilo que fiz de bom e ruim, como num confessionário. você faz o bem através das palavras e isto pode mudar a vida de alguém. obrigado!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Meu caro amigo, tem muita coisa na sua fala que daria uma ótima conversa, carregada de emoção e de cumplicidade. Primeiro sinto-me profundamente emocionada. É bom escrever para tocar a alma. É por isso que leio esses livros introspectivos, para refletir minha alma, para encontrar porquês. Eterna busca.
      É preciso coragem para falar de si, tb pra ouvir alguém e não fazer juízo. Diante da exposição do outro, então, quanta sensibilidade precisamos deixar aflorar para não dizer a coisa errada. Muitas vezes o silêncio é o melhor acolhimento.
      Sua verdade me levou a algumas reflexões. E preciso ainda de um tempo para assimilar. Sabemos que o que nos incomoda e o que nos toca fala, sobretudo, de nós. Obrigada pelo comentário, que foi além, muito além, vc nem imagina. Beijo.

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    3. a palavra diante de sua resenha é "identificação". me identifico com personagens desajustadas, não um desajuste social, mas emocional. na maioria das vezes pareço não fazer parte, como um alienígena, como um apátrida. não pertenço, não me encaixo.
      então leio sua resenha e ela está ali me traduzindo. eu não diria nada disso pra qualquer pessoa, mas você me deixa à vontade para escrever e isso não é só catarse, é também gozo, é sublimar o que carrego e não consigo denominar.
      este é seu dom!

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  2. achei bacana exatamente por essa relação entre mãe e filha e esse misto de sensações e emoções
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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    1. É isso o que eu adoro, Thailinha! Relações, nós a desatar.

      Obrigada pela presença sempre!
      Beijão *-*

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  3. Oi Manuh!
    Obrigada por ter me marcado na sua postagem porque nossa QUE LIVRO, eu só fiquei lendo sua resenha e fiquei pensando "meu deus, que pesado" porque é um enredo que não é fora da minha realidade.
    Eu quero muito ler, caramba, acho que vou ser destruída sos.
    E não posso esquecer de falar sobre a sua escrita, eu amo suas resenhas, meu deus do céu <3

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  4. Manuh!! Ler sua resenha me lembrou de um livro sobre relação mãe-filha que me marcou muito, talvez dessa mesma forma, como um soco no estômago. Se chama Uma, Duas da Eliane Brum. Se você gosta desse tipo de análise de relacionamentos, as dificuldades, os sentimentos, super recomendo!! Um beijo!!

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  5. Manu, que trama interessante!
    Mas essa falta da visão da mãe me deixou com a sensação de um "defeito" na obra.
    Sempre que leio dramas familiares, gosto de ter a versão de todos os envolvidos para chegar a min ha conclusão no final, mas sei que nem todos os autores descrevem assim seus livros.
    Relações familiares sempre tem alguma 'tensão' mesmo quando são boas, imagina as relações construídas sobre uma base tão frágil assim...
    Bjs!

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  6. Manu, querida, que resenha! me arrebatou, P R E C I S O ! ler esse livro. Me encontrei em Lucy. Gosto de histórias com humanidade, aquele tipo de leitura que você se questiona: - será autobiográfico? - será mesmo um romance ou é uma história real? Me apaixono facilmente por livros que tem essa identidade de nos fazer pensar que todos nós em algum momento da vida passamos por alguma das situações descritas. E, como você bem disse , como mãe e filha que somos não tem como não sentir na pele algumas indagações. Depois dessa, só uma coisa a dizer, estou indo ali na livraria buscar meu exemplar. Gratidão por compartilhar mais uma dica tão valiosa. Bjs

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  7. Oi Manu
    Como você sou mãe e Filha, acho que peco com minha filha por excesso de amor, e pequei muito com minha mãe, pois muitas vezes não a compreendi ou não aceitei seus erros, mas só vejo isso agora que ela morreu. De qualquer forma minha mãe foi maravilhosa, então não sei como a personagem se sentia pela frieza de sua mãe, só sei que as relações humanas são imperfeitas e cabe a nós fazer o nosso melhor, mesmo que muitas vezes erramos mais do que acertamos.
    Como sempre sua resenha está linda, tocando a fundo nós leitores.
    abraços
    Gisela
    www.lerparadivertir.com

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