Menu

20.12.16

{Resenha} Uma história de solidão


Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2016
Sinopse: Odran e Tom são amigos de longa data: se conheceram no seminário e foram ordenados padres na mesma época. Em uma Irlanda católica, os dois tomam rumos diferentes, mas se reencontram adultos, quando não têm mais nada em comum, exceto a profissão e as lembranças que permaneceram com o tempo.
Ao narrar a história desses dois personagens, John Boyne traça o panorama de uma sociedade sufocada pelos ditames do catolicismo e do regime doutrinário das escolas, desvelando com muita habilidade o segredo mais bem guardado da Igreja.
                                         



Resenha:

Desde a leitura de O Menino do Pijama Listrado, meu primeiro livro de John Boyne (que emprestei para minha irmã, que tomou chuva com ele dentro da mochila =S), sempre disse que gostaria de ler mais livros do autor. A visão de uma criança sobre os horrores da Guerra me fizeram sofrer e me perguntar algo muito parecido com a frase na contracapa de Uma História de Solidão.

“Que mundo é este em que vivemos, quanto mal causamos às crianças.”

Coincidência ou não, recentemente meu primo Lucas fez uma resenha sobre um filme aqui no blog com um enredo bem parecido com o desse livro. Baseado em uma história real, o filme Spotlight fala sobre jornalistas que adentram em uma investigação sobre pedofilia dentro da Igreja Católica de uma forma revoltante em certos momentos, considerando o quanto esses casos são encobertos pelo mundo afora.

John Boyne, apesar de ser um escritor de ficção, utiliza-se do tema para escrever com sensibilidade sob o ponto de vista de um padre, que às vezes parece ingênuo o bastante para não compreender ou não acreditar que esse tipo de coisa pode acontecer com tamanha frequência entre seus colegas.

Odran teve uma infância difícil, e após uma tragédia (bastante perturbadora, diga-se de passagem) em sua família, sua mãe o “informou” que ele teria uma vocação para ser padre, quando ele ainda era apenas uma criança. Odran acreditou, como acreditava em tudo o que sua mãe lhe dizia, e assim foi parar em um seminário. (Não sem antes viver uma experiência de paixonite com uma garota de sua idade que acabou virando motivo de constrangimento para ele e sua família).

“Em vez disso, eu sentia uma terrível confusão, não por vergonha, mas porque parecia que esse nível de contato físico – que em minhas fantasias adolescentes, eu desejava – não era para mim. Eu tinha certeza de que queria sexo com uma menina, qualquer menina, mas a oportunidade trouxe consigo a sensação de que aquilo era algo alheio à minha natureza. Não que eu quisesse uma menina diferente, ou um menino – não foi nada disso. Eu queria apenas ser deixado em paz. Para pensar. Para ler. Para perguntar a mim mesmo o que nenhum dos meus amigos ou família jamais perguntou. Pensei em me jogar no Dodder – um exagero, claro, mas tais são os extremos de ser jovem e estar perdido em incerteza.”

No seminário, Odran fica muito amigo de seu companheiro de quarto, Tom, que não parece ter tanta vocação quanto ele para a batina. Tom chegou a tentar fugir, mas foi espancado pelo pai, que o levou de volta para lá, prometendo matá-lo caso escapasse novamente.

Após sua ordenação, Odran passa boa parte de sua vida longe das paróquias, cuidando de uma biblioteca de escola que organiza e cuida como se fosse sua. Porém, um belo dia, recebe a notícia que seu velho amigo Tom seria transferido de sua paróquia e ele deveria assumir seu lugar. Tom foi transferido inúmeras vezes em um curto espaço de tempo e Odran não conseguia compreender o porquê, e nem o motivo de não poder voltar para sua biblioteca, onde se sentia bem mais confortável e feliz.

“Era angustiante pensar nas condições em que a biblioteca, a minha biblioteca, estaria agora. Livros fora do lugar, autores guardados nas seções erradas. Quando se tratava da organização das estantes da minha biblioteca, sempre desconfiei ter um pouco dessa coisa moderna que todo mundo diz ter, TOC. Enquanto os alunos arrastavam os pés voltando para casa de noite, era muito prazeroso arrumar aquele aposento, devolver tudo ao seu devido lugar. Era relaxante. E, vaidade minha, eu supunha que a pessoa agora responsável por ela nunca valorizaria a minha organização.”

Os padres do mundo todo andavam desacreditados devido aos constantes casos de pedofilia envolvendo pessoas da Igreja. Odran e seus colegas muitas vezes eram ofendidos pelas ruas, ou quaisquer outros locais públicos em que estivessem, e apesar de Odran saber que tais casos eram reais, talvez ele não compreendesse o quanto eles haviam se tornado “comuns”.

A situação era tão constrangedora que não era permitido que padres ficassem sozinhos com crianças, mesmo os coroinhas, e sempre o pai de algum deles deveria estar presente nas reuniões com os padres, para impedir que algo acontecesse.

“Por esse nível de desconfiança, eu tinha todos os meus antigos colegas a agradecer. Era de surpreender que eu voltasse para casa toda sexta-feira à noite dominado por vergonha?”

Por outro lado, John Boyne também mostra o lado de alguns desses padres pedófilos (na figura de Tom), que acabam cometendo esses abusos devido a uma série de outros fatores ignorados por nós. Ninguém sabe como foi a infância desses homens, os motivos de terem chegado até o seminário. Será que todos realmente têm vocação para serem padres? E como lidar com o desejo, tão inerente ao ser humano, independente das escolhas que este faça para sua vida? Será que realmente existe algo como “vocação para o celibato”?

“Outro comentário do qual me lembro: Tom dizendo que uma coisa boa de Clonliffe era que ele podia dormir a noite toda. Contou que, desde os nove anos até o dia em que foi embora de Wexford, era acordado depois da meia-noite pelo pai, ou acordava sozinho, prevendo a entrada dele pela porta.”

Para Odran, apesar da namoradinha de infância e de uma paixão platônica quando trabalhou um tempo no Vaticano, o celibato não era uma questão tão complicada assim, não era um fardo, e ele não encontrava dificuldades em se manter assim.

A história de Odran ainda conta com uma irmã sofrendo de demência precoce, um sobrinho gay que fazia um grande sucesso no mundo da literatura e um outro sobrinho com quem ele havia perdido contato há muitos anos e agora tentava retomar e corrigir seus erros do passado.

Em ambos os livros que li, senti que John Boyne escreve sobre ingenuidade, sobre pureza, em um mundo cheio de coisas feias e más. Em Uma história de solidão, o autor nos faz questionar os dogmas da Igreja Católica, suas relações de poder, vocações, e o que é "ser humano"... Quero mais!

“Eu havia desperdiçado minha vida. Havia desperdiçado cada momento da minha vida. E a ironia derradeira foi ter sido necessário que um pedófilo condenado me mostrasse que, em meu silêncio, eu era tão culpado quanto todos eles.”




2 comentários:

  1. apesar de ainda não ter lido nada do autor ja sinto uma conexão com as tramas dele, então desejo e muito kkk

    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Super recomendo John Boyne, Thaila :) espero que goste... beijos!

      Excluir

É um imenso prazer receber seu comentário. Seja sempre bem-vindo aqui.