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7.12.16

{Resenha}A vida invisível de Eurídice Gusmão


Autora: Martha Batalha
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: Rio de Janeiro, anos 1940. Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar.
Mas nenhuma das duas parece feliz em suas escolhas.
A trajetória das irmãs Gusmão em muito se assemelha com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro no começo do século XX e criadas apenas para serem boas esposas. São as nossas mães, avós e bisavós, invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar a própria vida, mas que agora são as personagens principais do primeiro romance de Martha Batalha.
Enquanto acompanhamos as desventuras de Guida e Eurídice, somos apresentados a uma gama de figuras fascinantes: Zélia, a vizinha fofoqueira, e seu pai
Álvaro, às voltas com o mau-olhado de um poderoso feiticeiro; Filomena, ex-prostituta que cuida de crianças; Luiz, um dos primeiros milionários da República; e o solteirão Antônio, dono da papelaria da esquina e apaixonado por Eurídice.
Essas múltiplas narrativas envolvem o leitor desde a primeira página, com ritmo e estrutura sólidos. Capaz de falar de temas como violência, marginalização e injustiça com humor, perspicácia e ironia, Marta Batalha é acima de tudo uma excelente contadora de histórias. Uma promessa da nova literatura brasileira que tem como principal compromisso o prazer da leitura.

“O Brasil precisa de uma literatura em que a gente se reconheça” (Martha Batalha)

Esta é a história de muitas mulheres que você conhece. É também a história de mulheres que se inquietaram e não aceitaram a formatação social exigida para a época: a de que as mulheres foram feitas para o casamento, os filhos e as tarefas domésticas. Para o recato e o silêncio, para abafar os desejos e aceitar as imposições. O livro A vida invisível de Eurídice Gusmão é uma volta ao tempo das nossas avós.

A trama se passa em meados do século XX, no bairro de classe média da Tijuca, no Rio de Janeiro. As fofocas da vizinhança não dão trégua. As duas irmãs Gusmão, Eurídice e Guida, representam as únicas opções dadas às mulheres então: submissão ou rebeldia. Mulheres que nasceram no lugar errado, na época errada. A própria autora faz essa referência ao contar: “É um livro sobre esse machismo cotidiano que passa despercebido.”

Eurídice é uma garota inteligente, aplicada, cheia de sonhos. "Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar."

Guida, a mais velha, rebelde e tão dona de si, vai embora com o namorado, deixando os pais desolados. Mal sabe a moça forte quantas decepções encontraria pela vida: "Aquela era Guida Gusmão, a mulher que nunca olhou para baixo. Guida Gusmão, que não sabia o que era fracasso, e que alimentava as suas forças com as dificuldades de seu caminho."

Com o sumiço da irmã, todo o peso da expectativa dos pais cai sobre os ombros de Eurídice, que já era dada a obediências e passividades. Então, casa-se com Antenor, um homem trabalhador e dedicado. Adaptada à rotina familiar, com dois filhos e uma casa para dar conta, Eurídice procura fazer algo que lhe dê prazer. E encontra nas receitas culinárias uma nova distração, além da possibilidade de dar vazão ao seu talento e ser reconhecida:

“- Olha aqui, Antenor... anotei aqui todas as minhas receitas. Você acha que posso publicar?
- Deixe de besteiras, mulher. Quem compraria um livro feito por uma dona de casa? ”

Não era fácil ser mulher na década de 50... Guida enfrenta muitas dificuldades, perde o contato com a família, mas não sua força. Enquanto Eurídice segue tentando ser útil para si mesma, não só para os que dependem dela. Após a infelicidade com as panelas, se encanta com a costura, monta um atelier às escondidas. Vizinhança ouriçada e outra negativa do marido. Vive dias de solidão e angústia, de vazio existencial. Causa na empregada Das Dores uma preocupação própria da solidariedade feminina. Fica a olhar as estantes... cheias de livros... Bingo!

"Foi numa noite de outubro, quando os escritos de Eurídice já estavam bastante avançados, que ela soltou entre uma e outra garfada a informação que satisfez a curiosidade da família. ‘Estou escrevendo um livro. É sobre a história da invisibilidade’." 

Ela vai na contramão do desencorajamento do marido. Dá voz a tantas mulheres que não foram respeitadas em suas aspirações, a quem não foi permitido cruzar as próprias fronteiras, ir além dos muros domésticos. Quantas se atreveram e foram vítimas de seus companheiros, como ainda hoje acontece? Antenor não é violento com a esposa, permite que ela se divirta com o que ele considera passatempo, mas é daqueles machistas institucionais, que delimitam o espaço da mulher ao alcance de seus domínios:

"Eu preciso de uma mulher dedicada ao lar. É sua responsabilidade me dar paz de espírito pra eu sair e trazer o salário pra casa. Uma boa esposa não arranja projetos paralelos. Uma boa esposa só tem olhos para o marido e os filhos. Eu tenho que ter tranquilidade pra trabalhar, você tem que cuidar das crianças."

Uma pausa para engolir isso... Vai começar um debate feminista aqui.

As demais personagens do livro orbitam em torno das irmãs Gusmão. São pessoas que podemos nomear entre familiares, amigos e conhecidos. A vizinha fofoqueira, o rapaz bem-nascido e sem caráter, o marido machista que não enxerga a própria esposa, o “moço velho” dependente da mãe neurótica, a doméstica explorada no serviço. Tem de tudo.

Duas coisinhas me incomodaram durante a leitura: queria estar nos pensamentos de Eurídice. O recurso da narração em terceira pessoa pode ter dado um afastamento demasiado dos conflitos da personagem. Outra inquietação se deu à falta de resolução de pendências, que estão tão vivas no texto, mas ficam meio que em banho-maria. Ao mesmo tempo, outras coisas adoçam a leitura, como expressões usadas por nossas avós. Entre prós e contras, há muito mais vantagens e conteúdo na leitura, recomendada, com certeza.

O livro traz muitas reflexões (não fosse assim eu não o teria escolhido). Há um momento que demora na vida de Eurídice, quando ela perde o ânimo pela falta de apoio da família, em que passa as tardes olhando para a estante de livros. Há várias menções a este embotamento. Quantas mulheres viveram/vivem todos os seus anos assim? Sem tomar as rédeas da situação, sem coragem de mudar, sem ousar, sem permitir o enfrentamento, a novidade, o rompimento? Falo de mulheres porque este é o foco da narrativa, mas quantas pessoas, em geral, experimentam isso alguma vez? Em outro trecho a autora nos apresenta a “Parte de Eurídice que não queria que Eurídice fosse Eurídice”. Quase beijo a Martha Batalha aqui. Eis um ponto alto em que precisamos parar. Os boicotes, a autossabotagem. Gosto de pensar nisso, algumas pessoas sentem um desconforto, mas adoro cutucar minhas próprias feridas. Martha Batalha mostra como “mulheres que poderiam ter sido” acabam “não sendo”.

É incrível que o livro tenha sido rejeitado pelas editoras brasileiras, sob a alegação de crise. Mas foi amplamente aceito e comprado por editoras estrangeiras. Até filme vai virar ano que vem. E por fim a Companhia das Letras resolveu publicá-lo, em edição caprichada. O livro chega ao mercado com uma força adicional: é um momento de discussão do empoderamento feminino, as redes sociais multiplicando ideias feministas e, aos poucos, a sociedade assimilando os conceitos e a necessidade de debater questões de gênero. Martha Batalha, ao contrário de Eurídice, não é mais invisível.

Recomendadíssimo, e mais ainda, aconselho a discussão do livro em clubes de leitura.

Classificação no Skoob: 5 estrelas

Link do livro no Skoob.




9 comentários:

  1. Ameeei a resenha Manuh! Que enredo perfeito para se trabalhar o empoderamento feminino e as várias faces do machismo, que ainda persiste nos dias de hoje!! Quero ler!! :)

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    1. Tb achei, Amanda! Acho o livro excelente para uma discussão mais ampla, com meninos e meninas. Sugeri o livro no clube que participei, que é o Leia Mulheres. Muitos se interessaram, mas não foi o escolhido. Se puder ler, não deixe passar. Para os mais jovens a situação das Gusmão parece distante, mas ainda há muitas expressões dessa opressão em nossa sociedade. Obrigada pela presença! Bj

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  2. cara Manuh, todas as vezes em que me deparo com a opressão ao sexo feminino, inúmeras situações passam por minha memória (que não é tão boa e vai guardando mensagens e trechos aos pedaços).
    a que primeiro me ocorre é a adoração à deusa pagã do povo celta. a deusa, assim mesmo, no feminino, símbolo da Terra, da criação, da maternidade. tenho por mim que uma deusa, assim como uma governante do sexo feminino, trazem consigo um quê de doçura, de compaixão, de equilíbrio e principalmente de justiça.
    logo após, a religião entra na história como um rolo compressor, principalmente a católica, suprimindo e infligindo sofrimento a supostas bruxas perseguidas na época da inquisição. uma covardia sem precedentes, para impor o desejo masculino à força.
    aí me vem o período romântico, com machado de assis e sua capitu, fruto de uma época em que as mulheres não podiam votar, nem escolher o que melhor lhes conviesse. tinham apenas que fazer um bom casamento, nem direito a herança lhes era outorgado.
    e por aí vai, são movimentos feministas, igualdade de direitos, combates ferozes e doloridos que fazem da mulher o "sexo forte" a ser tomado como exemplo.
    assim como na década de 50, as mulheres enfrentam dificuldades tanto no mercado de trabalho, quanto no convívio social, queimar os sutiãs em praça pública como ato de rebeldia e afirmação foi apenas um passo, há que se lutar contra a opressão e mais ainda contra a exploração, até que machistas de plantão entendam o significado de "ser mulher" e como seria a vida sem ela.
    o mundo está mudando, espero que para melhor, e não há desculpa editorial que seja aceita para não publicar canto tão cáustico quanto "a vida invisível de eurídice gusmão". parabéns à companhia das letras por isso.
    suas palavras, querida Manuh, são de inconformismo e também de alento a todos aqueles que lutam pela igualdade e pela inclusão. não há divisão de sexos, cores e nível social, somos todos seres humanos e como tais sempre aprendendo.
    belíssima resenha (como sempre), colocou-me a refletir sobre minha própria postura diante de situações embaraçosas que sempre presencio em que mulheres são covardemente agredidas e intimidadas. livro imprescindível, dica valiosa!

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  3. Querida Manu, a cada resenha que escreve me convenço que preciso fazer " a lista de livros indicados pela Manu", rs Ah! e como fico feliz quando tem resenha nova, já sei que vem coisa boa :). Sou fortememente atraída por leituras que trazem reflexões. Outra coisa que gosto muito são personagens caricatos, esse livro é meu número, rs .E para completar a perfeição, literatura brasileira e tratando sobre tema tão atual quanto o empoderamento feminino. Amei! Mais uma valiosa dica anotada. Obrigada por compartilhar! bj

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  4. Manu,

    Adorei sua resenha! Eu já ouvi no youtube um vídeo falando desse livro e me interessei bastante. A temática da desigualdade entre os gêneros é muito antiga e acredito que ainda vai perdurar por muitos anos, até que o ser humano se dê conta que cada um tem o seu valor e sua importância e que é preciso dividir tarefas e somar os lucros no final. Não acredito que a gente chegue a lugar algum exaltando um gênero e diminuindo o outro. Mas, é gritante a participação valorosa da mulher na formação da sociedade e o egoísmo masculino, por questões até mesmo de criação. Daí, outra pergunta que não quer calar, quem cria? A mulher, na sua maioria, e ela mesma imprime esse tipo de conduta dos seus rebentos machos, depois, tem que sofrer as consequências.
    Livro anotado. Resenha 10! Adorei vir aqui e vou voltar!
    Grande abraço,
    Drica.

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    1. Drica, querida, que bom ler seu comentário! Como acrescentou à resenha esse seu olhar sensível, essa indagação importante. Eu, mãe, preciso estar atenta à criação do meu filho para mostrar a ele o respeito que precisa ter com todas as pessoas, refletindo sobre esses conceitos de relação homem x mulher, desmistificando atitudes que não queremos mais reproduzir. Isso dá trabalho e nós somos mesmo bastante responsáveis por isso.
      Obrigada pelo comentário!
      Volte sempre, seja bem-vinda!

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  5. Manuh linda como sempre você traz resenhas brilhantes de livros brilhantes, trabalhando um tema tão importante e relevante
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  6. Oi Manu, tudo bem?

    Gostei da premissa e das reflexões, realmente ser mulher hoje em dia já não é fácil, imagina na década de 50!

    Adorei a resenha!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  7. Oi, Mnau.
    Sua resenha ficou maravilhosa, no entanto o livro em si não me conquistou.
    Beijo

    Te Conto Poesia ♥

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