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8.1.17

{Resenha} Não me abandone jamais


Título Original: Never let me go
Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: Kathy H. tem 31 anos e está prestes a encerrar sua carreira de "cuidadora". Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades artísticas e conta, entre várias outras amenidades, com bosques, um lago povoado de marrecos, uma horta e gramados impecavelmente aparados. No entanto esse internato idílico esconde uma terrível verdade: todos os "alunos" de Hailsham são clones, produzidos com a única finalidade de servir de peças de reposição.
Assim que atingirem a idade adulta, e depois de cumprido um período como cuidadores, todos terão o mesmo destino - doar seus órgãos até "concluir". Embora à primeira vista pareça pertencer ao terreno da ficção científica, o livro de Ishiguro lança mão desses "doadores", em tudo e por tudo idênticos a nós, para falar da existência. Pela voz ingênua e contida de Kathy, somos conduzidos até o terreno pantanoso da solidão e da desilusão onde, vez por outra, nos sentimos prestes a atolar.

Já ouvi dizer que, na morte, sempre estamos sozinhos. Ninguém morre junto conosco.

Não me abandone jamais é o segundo livro que li do autor Kazuo Ishiguro. O primeiro foi O Gigante Enterrado e você pode conhecê-lo aqui.

A leitura deste livro é pesada, emocionalmente falando. Simplesmente porque você sabe que todos os personagens foram criados para morrer. Para dentro da estória, todos vão morrer, concluir. Você sabe, eles sabem... Desde crianças. Embora lidem com tal fato de sua maneira infantil, com esperança e jovialidade. Com brincadeiras e inocência.


Narrado por Kathy e seus pontos vidas, o livro possui três partes:

Na primeira parte, Kathy relembra seus dias de infância em Hailsham. Nos conta como funcionava o internato. Na segunda, eles saem do internato e vão para o Casario, um local intermediário e já jovens adultos. Na terceira, definidos doadores e cuidadores e instituições onde cada um fica...
“A intenção dele, talvez – durante as noites insones devido aos remédios, à dor e à exaustão – era tornar indistintos os contornos que separavam as minhas memórias das suas. Só então compreendi, compreendi de fato, quanta sorte tivéramos – Tommy, Ruth, eu, na verdade todos nós.”
Hailsham é diferente dos outros internatos de doadores. Mais humano. Incentiva a arte, os esportes, a socialização... O romance. Os guardiões são os professores que ensinam tudo aos jovens, que sabem que seu destino já está traçado. Esses guardiões também sabem... Se aceitam ou não, se gostam ou não, não vem ao caso.

Kathy é uma menina doce e preocupada com amigos, tentando sempre ajudar em tudo o que pode. E, quando Tommy entra em apuros por conta de seu mau temperamento, ela é a única que se dispõe a ajudá-lo, uma vez que todos o culpam pelas porcarias que acontecem a ele... Mas é para livrarem a si mesmos da culpa de não tomarem nenhuma atitude quando ele sofre bullying. Ruth é a líder do grupo, a menina que cria novas brincadeiras e conspirações. É rigorosa e manipuladora, embora esconda dentro de si o medo que sente do futuro. 

O núcleo de personagens gira entre estes três. Kathy H. é quem narra a estória, como se estivesse conversando com você. Me senti como uma cuidadora ouvindo seu doador pacientemente, enquanto ele está relembrando tudo de sua vida, quando está quase “concluindo”.

Em Hailsham, os trabalhos feitos pelos alunos eram extremamente importantes por algumas razões: as Permutas de Primavera, que era o momento em que os alunos vendiam toda sua produção anual de coisas criativas – esculturas, poesias, desenhos e coisas assim e conseguiam dinheiro para os Bazares, que era quando coisas do mundo além da cerca eram vendidas para eles. Assim o eram, pois era o modo como as crianças encontravam coisas para montarem seus tesouros, uma vez que nunca podiam sair da escola. E a outra razão é que, fazendo seus trabalhos para a Permuta, eles realizavam suas melhores criações e as melhores delas, Madame escolhia e levava embora da escola. As crianças acreditavam que Madame expunha esses trabalhos na Galeria, mas não sabiam a razão – e mencionar a Galeria era um Tabu.

Muitas coisas eram tabu. As crianças, desde pequenas, já sabiam de seu destino, mas nunca mencionavam abertamente. E se acontecesse, elas mesmas combinavam as punições e as praticavam. Sabiam que isto perturbava os guardiões, que eram tão bondosos com elas que era errado colocá-los contra a parede.


Tommy era uma criança problemática. Não sabia controlar seus acessos de raiva, mostrava que se importava e era punido por isso pelos outros do internato. Apenas Kathy fazia alguma coisa a respeito, tentava sempre conversar com ele quando não era “estranho”. E foi nessas conversas que ambos sempre souberam de algo que os outros pareciam não perceber. Alguns guardiões deixavam no ar, mas logo mudavam de assunto... Mas os dois jovens atentos, com o passar do tempo, foram notando os sinais. E não estavam preparados para isso.

É extremamente doloroso ver o quão avidamente desejam um futuro. Um futuro em que podem ser mecânicos, professores, motoristas, trabalhar em um escritório bonito... 

No Casario eles viviam com pessoas mais velhas, de outros internatos e muitos foram separados. Ruth, Kathy e Tommy continuaram juntos, mas as coisas entre eles vão se deteriorando – ainda mais pela superioridade de Ruth. 

Ali, eles descobrem o mundo. E o temem, pois não estão acostumados com a liberdade, sem guardiões para ditar regras ou desabafar. Contam apenas um com o outro, algumas amizades continuam, outras nem tanto... A descoberta do sexo e como podem aproveitá-lo. 

Porém, com a liberdade vem a escolha de caráter e Ruth cada vez mais quer ser a única a chamar atenção. Estuda o comportamento dos veteranos, esnoba os amigos e o namorado. Especialmente o namorado. 
“(...) todos nós, ainda que em graus diferentes, acreditávamos que, quando víssemos a pessoa de quem havíamos sido copiados, teríamos uma leve noção de quem éramos lá no fundo e, também, quem sabe, que enxergaríamos parte do que a vida reservava.”
Mesmo sendo criados em laboratórios, vemos como são humanos em suas qualidades e defeitos – possuem uma alma, se você acredita nisso. E todos são seres desejantes que amam. Mesmo aqueles que não foram criados em Hailsham.

Na parte três, após uma grande desavença, Kathy decide adiantar seu processo e tornar-se cuidadora. É quando ela se torna o melhor de si, pois sempre cuidou dos outros em Hailsham e no Casario.

A nostalgia ronda esta parte, com todas as memórias compartilhadas com os doadores. Você sente o medo deles, mas também o orgulho por cumprirem suas funções como devem. E quando surge a esperança de algo diferente, eles se agarram com todas as forças... 

E vão a fundo em busca da razão real de serem diferentes, vão em busca do amor.

Este é um livro dolorido. É um livro também que mexe com a moral e ética, pois e se a ciência realmente nos levar a este ponto, se pessoas forem criadas como animais para o abate? Será que todos acreditariam que são pessoas tais como nós? Será que seriam aceitos numa sociedade e não temidos? 

O autor escreve magistralmente, te levando ao íntimo dos protagonistas – especialmente de Kathy. Toda a nostalgia e saudade que ela sente, o quanto o coração dela é bondoso... O quanto Tommy é um menino de ouro e Ruth é uma lutadora. Mas, no fim, todos se conformam com seus destinos. 

Um livro apaixonante, de fato!

Há também um filme lançado, que leva o mesmo nome, em 2011 (no Brasil). Tem como atores principais Carey Mulligan como Kathy H., Andrew Garfield como Tommy e Keira Knightley como Ruth. Algumas falas são bem parecidas e pouca coisa mudou em relação ao livro. Porém, vemos Ruth ainda mais cruel, mais humana. Achei que Andrew Garfield meio que interpretou Tommy como um bobo (o que na verdade ele parece ser mesmo). A escola Hailsham é muito mais bonita do que a que imaginei...

Porém, pelo menos para mim, o filme foi mais chocante em uma única coisa em comparação ao livro:

No livro, nunca vemos as conclusões, Kathy só as conta. No filme, nós as assistimos. É tão solitário ver como na morte, são abandonados... A reflexão de Kathy a respeito daqueles que recebem as doações, de que sejam merecedores. Todos são pessoas, no final das contas. 

Sei lá, me foi bem difícil imaginar que um programa desses, mesmo que estenda a expectativa de vida para 100 anos, possa ser passível de existência. 


Nota no Skoob: 5 estrelas.

27 comentários:

  1. Oi Priscila,
    Eu nunca tinha ouvido falar desse filme, imagina do livro. Uma pena não ter descoberto ele antes. Achei sua resenha e o enredo incríveis, já dá até um sentimento de tristeza saber como tudo termina é até uma forma de não nos ligarmos tanto aos personagens, mas por sua resenha acho que isso é impossível.
    Espero poder conferi esse livro, já coloquei na minha lista de 2017.
    O enredo me lembrou muito o filme A Ilha. Será que tem alguma inspiração? Apesar de eu achar que A Ilha também é um livro.

    Parabéns pela resenha!
    Bjs,
    Garotas de Papel

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    1. Então, acredito que o filme A Ilha tenha tido alguma inspiração nesse livro! Pensei a mesma coisa no comecinho, enquanto lia... Mas o A Ilha não chega nem aos pés de Não me abandone jamais!

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  2. uma surpresa do começo ao fim, pois pelo título eu tive uma impressão diferenciada da trama, ainda não conhecia o filme também... pesquisarei a respeito
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  3. Eu já tinha ouvido falar do filme, mas não sabia que era baseado em uma obra literária. Já quero ler e assistir porque realmente diquei curiosa quanto à trama.
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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    1. Ivi, quando eu solicitei este livro pela editora e ele chegou, eu já nem me lembrava sobre o que ele era. Tava confundindo com outro livro do autor que li a sinopse... Aí depois que fui lendo, que entendi e vi o quão maravilhoso ele é!

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  4. Oi Pri !
    Realmente me parece ser um livro incrível e com uma ótima trama.A Companhia das Letras é uma Editora fantástica, e todos os livros que ela pública são ótimos! Espero ter a oportunidade de ler essa obra (e assistir o filme)e de também conhecer os outros livros do autor. Xoxo
    www.facesemlivros.com

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    1. Recomendo demais esse autor, seus outros livros já estão em minha lista de desejados!!!

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  5. Olá!! :)

    Eu não conhecia este livro mas ainda bem que gostaste da leitura!! :) Eu fiquei bastante curioso e essa foto... ahah!!

    Acho boa a premissa e essa capacidade do autor de abordar os temas de forma tao intima e profunda, mexendo com o leitor! :)

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

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    1. A escrita dele é bastante emocional, em ambos os livros que li me senti abalada, de maneiras diferentes. É bem profundo! Recomendo!

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  6. Fiquei tão curiosa em conhecer toda a trama que fui procurar o filme no Netflix. Não achei, então o descobri no YouTube. Se eu conseguir assisti-lo poderei encarar o livro. O título é profundo e as suas considerações sobre a leitura e o autor despertaram me deixaram animada, mesmo sabendo que a leitura é pesada.

    Beijos,

    http://contosdacabana.blogspot.com.br/

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    1. O filme é ótimo, mas o livro em si é bem melhor, como quase sempre acontece. Espero que ele te anime a ler o livro! Beijos!

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  7. Oi querida,
    eu assisti o filme Não Me Abandone Jamais. Não gostei muito pois me deixou confusa, que não entendi nada com nada. Espero que o livro seja diferente, pois vou ficar ainda mais feliz. Gostei dos comentários dos leitores, mas não vou me arriscar nesta leitura. Mesmo com a sua resenha e os quotes, me senti envolta naquela trama que assisti, entende?!

    Bom é isso beijos, Enjoy Books

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    1. Sim, talvez precise do livro para que o filme faça algum sentido! Espero que um dia você ainda dê a ele uma chance!
      Beijos!

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  8. Olá Priscila, tudo bem?

    Cheguei a ler outro título do Kazuo Ishiguro, mas infelizmente não consigo me envolver emocionalmente neles como todo mundo, o que é uma pena. Mas vou deixar aqui anotado o título do filme. Vai que gosto, não é mesmo?

    Beijos

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    1. É claro! Afinal, filmes podem suscitar outros sentimentos naquele que o observa! Beijos!

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  9. Olá =) Mesmo sabendo que a morte é para todos, nunca estamos preparado para a perda. Livros que fala de temas forte como morte ou bullying geralmente são pesado emocionalmente mesmo. Que bom que apesar de serem criados em laboratórios possuem uma alma. Realmente apresenta ser um livro triste. Saber que o autor escreveu magistralmente é ponto positivo para eu ler. Não conhecia nem o livro em o filme, sua resenha além de me apresentar despertou interesse. Anotei a dica, tentarei ler e assistir o filme. Beijos'

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    1. Acredito que nunca estamos preparados para aquilo que sabemos que não é possível mudar, por isso temos apenas a esperança!

      Espero que goste da leitura!
      Beijos!

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  10. Olá!
    Nossa, que livro é esse? Esse parece ser o tipo de obra que mexe com nossa mente e nos faz pensar demais. Estou imaginando que a leitura deve ser dolorida mesmo, como você falou.
    Gostei da ideia da alma, pois eu também acredito nisso e fiquei fascinada com essa ideia.
    Dica anotadissima.
    Beijos

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    1. Bruna, é um livro que dificilmente você seguiria pela sinopse... Por isso coloquei fé no autor, pois já havia lido outro livro dele e me foi uma surpresa enorme. Espero que um dia ainda leia as obras do Kazuo Ishiguro!
      Beijos!

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  11. Oi, tudo bem?

    Não conhecia esse livro. Mas fiquei muito interessada nele. E quando desci a página e vi que é o livro que deu origem a essa adaptação, fiquei mais empolgada ainda. Conheço o filme, embora não tenha assistido até o final, as partes que vi foram muito boas. Vou anotar o nome e tentar ver o filme completo dessa vez.

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    1. Veja novamente sim, vale a pena! Os atores são bons!

      E leia o livro, é muito bom também! Melhor até!

      Beijos!

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  12. Oi Priscila, tudo bem? Feliz 2017 pra vc! ;)

    Eu ainda não conhecia esse livro. E confesso que achei a narrativa que vc descreveu bem diferente de qualquer outro livro. No entanto não fiquei muito atraída, acho que eu talvez assistiria ao filme, e se eu gostasse daria uma oportunidade pra leitura e adquiria o livro. Sua resenha foi bem descritiva e abrangeu bastante o conteúdo do livro, gostei do seu ponto de vista, e que bom que vc gostou.

    Bjs, Mih!
    paradisebooksbr.blogspot.com

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  13. Olá, tudo bem?
    Nossa me fiquei bastante encantado pelo enredo deste livro, e nem sabia que tinha virado filme. Mas sua resenha conseguiu que eu viajasse nesses personagens e o quão fortes e tocantes eles conseguiram ser, a história realmente conseguiu prender minha atenção. Feliz 2017 para ti!

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  14. Oiee Priscila ^^
    Eu ainda não li esse livro, mas assisti o filme (por ser uma grande fã do Andrew e estar stalkeando os filmes que ele fez) e fiquei impressionada. Descobri, pouco tempo depois, a respeito do livro, e fiquei duplamente curiosa. É uma história dolorida, né? Eu não sei se o final do filme ficou exatamente igual ao do livro, mas eu chorei horrores...haha'
    MilkMilks ♥

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  15. Que livro interessante, tem um enredo que me parece aprofundar bastante nas emoções humanas. Confesso que apesar dele ser "pesado", de exigir uma carga emocional enorme, gostaria de ler também. Me parece uma leitura super reflexiva. Enfim, super curtir sua resenha.

    Beijos
    Vento Literário / No Facebook / No Twitter

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  16. Oi, tudo bem?
    Eu não conhecia esse livro ainda e confesso que sua resenha me animou muito, ainda mais que o livro tem essa carga mais pesada. Fiquei bem curiosa para conhecer mais dos personagens e da trama, estou precisando de um livro que traga essas propostas no momento e acredito que ele seria uma boa pedida. Ótima resenha!

    Beijos

    http://www.oteoremadaleitura.com/

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