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28.6.17

{Resenha} Me diga quem eu sou

Editora: Objetiva (selo da Editora Companhia das Letras)
Título: Me diga quem eu sou Uma bipolar em busca da sanidade
Sinopse: Como num grito de alerta, Helena Gayer transmite as nuanças de uma pessoa apunhalada pelo transtorno bipolar. Com crueza, minúcia e fervor, a autora narra seus mergulhos ora em depressão ora em mania e as muitas experiências por que passou, correndo risco de morte e abusos. Ao se abrir e descrever com detalhes as inúmeras tentativas de ter uma vida normal, os episódios de completa alienação e as internações, ela deixa escapar, a cada linha, um pedido tênue, uma súplica fugaz, para que tenhamos um olhar mais apurado em direção à pessoa, não só à doença. Helena nos apresenta um relato íntimo sobre como é viver, sobreviver e constantemente se rearranjar nessa realidade tão dura e tantas vezes negligenciada. Diagnosticada aos 21 anos, ela remove e nos mostra cada estilhaço de sua trajetória, enquanto seguimos com ela numa jornada de dor e descoberta, mas, acima de tudo, de superação.

Quando pedi para ler esse livro, eu tinha acabado de terminar a cadeira de Psiquiatria na faculdade; o Transtorno de Humor Bipolar já tinha se apresentado a mim: eu já sabia seus critérios diagnósticos, seu quadro clínico, sua evolução, seu tratamento. Mas eu me enganei achando que estava preparada para o depoimento de uma pessoa que vivesse essa doença perturbadora. 

Ora em depressão, ora em mania (um estado de euforia em que alucinações e delírios não são apenas viáveis como também comuns) -, Helena Gayer nos descreve como é viver sempre em dois extremos, e qual a sensação dos pequenos lances de sanidade entre eles. A autora não mede esforços em abrir sua vida à nós, leitores; sem pudores, sem censuras, sem medo de exposição, Helena conta suas experiências mais marcantes geradas pela impressão surreal de mundo que a doença cria em sua mente.
"E era assim que eu também me sentia com relação à separação de corpos dos meus pais. Eles ainda moravam sob o mesmo teto, mas então, numa noite qualquer, minha mãe decidiu não dormir mais com meu pai. (...) A decisão foi sem volta, e eu, no meu desespero diante daquilo tudo, afundei num poço profundo e perigoso. (...) Mergulhei nesse abismo inúmeras vezes. Eu acreditava que não havia alternativa. Minha família não conseguia entender como eu podia reagir de forma tão intensa. Eles seguiam suas vidas e não falavam sobre o assunto, mas eu deixei a minha em suspenso tantas vezes que perdi a conta."
Com as experiências, vieram os erros; com os erros, vieram as consequências. O sentimento de incompreensão, as internações, o medo de cair em mania novamente. Mas como maior consequência, veio a superação. O processo de auto-conhecimento pelo qual Helena passa desde sua adolescência permite que ela, ao conhecer seu íntimo cada vez melhor, possa fazer escolhas e tomar atitudes condizentes com o que ela quer, não com o que a doença a faz pensar que queira.
"Também foi numa noite de lua cheia que uma colega bióloga e eu fomos recebidas pelo abraço de dezenas de crianças descalças e lindas. (...) Eu tinha certeza de que estava cercada por anjos. Eu poderia ter surtado, mas não mergulhei de cabeça em mais uma viagem porque tinha um objetivo miuto claro: tinha realizado um sonho conquistado pela esperança e persistência. Eu estava com 27 anos e decidira abrir mão da fantasia em nome da realidade, uma das melhores escolhas que fiz. Mas outras crises de mania viriam e minha sina me perseguiria ainda por um bom tempo, sem a mínima intenção de cessar."
É um livro curto, com apenas 113 páginas, porém intenso. É difícil não parar várias vezes durante a leitura e pensar "minha nossa, como ela deve ter se sentido?" - ou outras variantes com mesmo nível de surpresa. 

Recomendo para quem convive com alguém sofrendo de Transtorno Bipolar e às vezes não sabe como agir. Recomendo para quem tem a doença e se sente incompreendida, sozinha - não, você não está. Recomendo para quem deseja conhecer a fundo a doença e quebrar esteriótipos tão arraigados sobre a palavra "bipolar". Recomendo para todos nós: nós, que precisamos criar empatia para com o próximo e aprender que se não podemos ajudá-lo, que não o levemos para baixo.
"A dor do outro por mais alheia que seja, também dói em mim, mas se eu puder ajudar o outro a se curar, também estarei um pouco curada, mesmo que ainda haja feridas dentro de mim." (Eva Coimbra)

1 comentários:

  1. muito legal a proposta do livro, é diferente e visceral, um relato real e humanizado

    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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