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29.11.17

{Resenha} Zona Morta - Stephen King



Título Original: The Dead Zone
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Sinopse: Depois de quatro anos e meio, John Smith acorda de um coma causado por um acidente de carro. Junto com a consciência, o que John traz do limbo onde esteve são poderes inexplicáveis. O passado, o presente, o futuro – nada está fora de alcance. O resto do mundo parece considerar seus poderes um dom, mas John está cada vez mais convencido de que é uma maldição. Basta um toque, e ele vê mais sobre as pessoas do que jamais desejou. Ele não pediu por isso e, no entanto, não pode se livrar das visões. Então o que fazer quando, ao apertar a mão de um político em início de carreira, John prevê o que parece ser o fim do mundo?


Sejam bem-vindos à minha segunda experiência com esse autor que conheço há apenas 800 páginas mas já aprendi a amar. Em Zona Morta, Stephen King cria uma trama dramática, sobrenatural e com uma pitada de romance; nada tão assustador ou cheio de suspense como no livro anterior (O Bazar dos Sonhos Ruins) - mas nem por isso menos cativante. 

John Smith era apenas um jovem professor de colegial - mais que querido pelos seus alunos, mais que realizado com seu recente namoro com Sarah. Após um descontraído encontro com sua nova namorada, John se envolve em um acidente de carro que colocará sua vida em stand by por longos 4 anos. Nesse período que pareceu não ter fim, seus amigos e parentes, desesperançosos, foram obrigados a seguir a vida. Vera, sua mãe, uma religiosa fervorosa, se agarrou às suas crenças e passou a dedicar toda sua energia e tempo para garantir uma vaga no Céu após o Apocalipse - o que, para ela, aconteceria a qualquer minuto. Herb, seu pai, tentava apenas pagar as contas e não sucumbir com o fanatismo e loucura de Vera. Sarah, aquela que um dia foi sua namorada, se apaixonou novamente e formou uma família - embora nunca tivesse esquecido aquele que fez seu coração bater mais forte anos atrás.

Em um momento que só podemos chamar de milagre, John acorda. Tentando assimilar tudo o que ocorreu enquanto sua vida parou, Johnny também descobre que não veio sozinho do lugar vazio que habitou nesses 4 anos: ele trouxe consigo uma habilidade - um dom? Uma maldição? Chame como quiser. Basta um toque em uma pessoa ou objeto que John é atingido por uma tempestade de informações que, muitas vezes, ele preferiria não saber. Datas, endereços ou acontecimentos marcantes. Presente, futuro ou passado. Tudo poderia chegar ao conhecimento de Johnny, embora algumas informações ficassem "presas" em algum lugar de sua mente, um lugar que ele passou a chamar de Zona Morta. 

Após inúmeras cirurgias tentando reparar os danos que 4 anos deitado em uma cama de hospital fizeram a seu corpo, após a desilusão amorosa que o casamento de Sarah trouxe e após perder a mãe para o fanatismo religioso, nosso protagonista tenta retomar a vida pacata que levava antes do acidente que ceifou anos de sua vida - algo difícil após tantas entrevistas a respeito do rapaz que acordou de um coma com a habilidade de ler o presente, passado e futuro apenas com um toque. E é essa mesma habilidade, encarada por Johnny como uma maldição, que o leva a tentar salvar o futuro da nação e a colocar em jogo o que restava de sua sanidade.

Fiquei apaixonada por esse livro. Os personagens são profundos e conseguiram despertar, cada um, empatia ou ódio com a mesma intensidade. Os momentos em que Johnny tem contato com seu lado paranormal sempre transmitem muito suspense, eram umas das partes mais bacanas do livro! Além de tudo isso, são passagens profundas como essa, a qual transcrevo abaixo - em que um pai suplica por uma morte calma para seu filho - que mostram a versatilidade do autor e sua maestria. 

"Vera voltou às suas revistas. Herb apoiou o queixo na palma das mãos e contemplou o sol, a sobra e pensou em como o inverno viria rápido demais naquele outubro ensolarado e enganador. Desejava que Johnny morresse. Tinha amado seu garoto desde o primeiro choro. Lembrava-se do espanto em seu rostinho quando levou um pequeno sapo para o carrinho do filho e depois colocou a coisinha viva nas mãos dele. Tinha ensinado Johnny a pescar, a andar de patins e a remar. Tinha ficado toda a noite ao lado dele durante aquela terrível epidemia de gripe em 1951, quando a temperatura do menino tinha subido para 40,5 graus, provocando delírio. Tinha segurado o choro de emoção quando Johnny foi o orador de sua turma de formandos no colégio e falou de cor, sem um único escorregão. Tantas lembranças dele - de ensiná-lo a dirigir, de parar com ele na proa do Bolero quando passaram as férias na Nova escócia. Johnny, com oito anos, ria entusiasmado com os sulcos que o barco ia abrindo na água. Tinha ajudado o filho com os deveres de casa, com a casa na árvore, mexendo com a bússola quando ele se juntou aos escoteiros. As lembranças se misturavam sem qualquer ordem cronológica - Johnny era o único fio condutor, Johnny ia avidamente descobrindo o mundo que acabara por incapacitá-lo de forma tão terrível. Agora ele desejava que Johnny morresse. Ah, como desejava isso, que morresse, que seu coração parasse de bater, que os traços que oscilavam no eletroencefalograma ficassem planos, que ele simplesmente se extinguisse como um toco de vela em uma poça de cera: que morresse e os libertasse."

Fui pega de surpresa pelo final. (...) Tudo bem, nem tanta surpresa assim, afinal, era o único desfecho possível, o único que garantia que tudo estava de volta a seu devido lugar. Em suma, Zona Morta é a leitura que recomendo para aqueles que gostam de um bom drama e não precisam de finais felizes para amar um livro.

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