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4.12.17

{Resenha} A Garota-Corvo


Autor: Erik Axl Sund
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017
Sinopse: Tudo começa quando o corpo de um menino é encontrado perto de uma estação de metrô em Estocolmo. O cadáver tem marcas de tortura e parece ter passado por um intrincado processo de mumificação. Não se sabe ao certo há quanto tempo está morto. A detetive Jeanette Kihlberg é convocada para encabeçar as investigações e, com a descoberta de mais dois cadáveres mutilados, logo fica claro que um serial killer está à solta.
Decidida a combater o aparente descaso das autoridades, lutando contra um promotor apático e uma força policial burocrática que não quer dedicar recursos para resolver o assassinato de crianças imigrantes, Jeanette procura a psicóloga Sofia Zetterlund, especialista na recuperação de vítimas de tortura e maus-tratos.As vidas dessas duas mulheres se entrelaçam de forma quase instantânea – profissional e pessoalmente. A investigação que empreendem juntas vai se mostrando cada vez mais arriscada, e envolve figuras do mais alto escalão, num ciclo de abuso e vingança que perpassa gerações. À medida que se aproximam da verdade sobre os assassinatos, aos poucos elas percebe, que os crimes escondem um mal subterrâneo que parece abraçar toda a sociedade sueca.No esteio do melhor da literatura policial nórdica, A Garota-Corvo é um thriller psicológico de tirar o fôlego, recheado de reviravoltas surpreendentes, com vozes que se alternam em velocidade crescente. Numa tela de perversidade que inclui tráfico de pessoas, misoginia, sexismo, xenofobia e ódio contra minorias, Erik Axl Sund cria um romance tenso e assustador sobre os maiores horrores que os homens são capazes de perpetrar e faz uma análise minuciosa dos recantos mais sombrios da mente humana.

Resenha:

Sinceramente? Não sei como começar essa resenha. Não sei o que escrever. Ainda me sinto atordoada pela leitura desse livro, que veio como vários socos no estômago, um atrás do outro, me deixando completamente sem palavras. É um livro denso, pesado, longo (até porque inicialmente foi lançado como uma trilogia), em certos pontos cansativo, mas que você não consegue deixar de lado. Demorei alguns meses para concluir a leitura, por falta de tempo, e por não conseguir realmente assimilar toda a história lendo rápido.




Impossível não comparar a escrita dos autores (sim, Erik Axl Sund é um pseudônimo para Jerker Eriksson e Hakan Axlander Sundiquist) com a escrita do genial Stieg Larsson (que inclusive é citado no livro). O estilo é realmente muito parecido, tanto descritivamente, quanto criativamente. E isso não é nada ruim, afinal, para quem leu a Trilogia Millennium, saber disso pode até mesmo despertar ainda mais a curiosidade sobre essa dupla de autores. No meu caso, já quero conhecer mais e mais autores suecos para descobrir se todos são incríveis como esses três! (Opa! Tem também o David Lagercrantz, que tem feito um ótimo trabalho na continuação da Trilogia Millennium e logo vem resenha do quinto livro por aí!)



É muito difícil resumir tudo o que acontece em quase 600 páginas de leitura, então vou falar dos elementos que mais me prenderam, me chamaram a atenção e me fizeram amar esse livro.

Em primeiro lugar, o suspense. A história já começa com um serial killer matando crianças imigrantes, com as quais o Estado e a sociedade em geral não se importam. A investigação então vai se deparando com assassinato, tráfico humano, pedofilia, bullying, problemas sociais, corrupção, além de mostrar doses de machismo e misoginia dentro da polícia local, visto que a investigadora à frente do caso é uma mulher, e precisa provar o quanto é boa em seu trabalho, sendo desacreditada o tempo todo por seus superiores. Jeanette Kihlberg precisava se esforçar tanto e se dedicava com tanto afinco, que se afastava mais e mais a cada dia de seu marido e filho, trazendo problemas para sua vida pessoal.

“Por que ela não era respeitada como os outros chefes? Tinha mais mérito e um número bem maior de casos solucionados que a maioria deles. A cada ano, quando os salários eram reajustados, ela notava que o seu salário ainda estava abaixo da média do cargo. Esqueciam seus dez anos de experiência quando contratavam novos superintendentes com salários mais altos, ou quando outros eram promovidos.Aquela falta de respeito se devia somente ao fato de ser mulher?”

Temos também uma psicóloga, Sofia Zetterlund, especialista no tratamento de vítimas de tortura, que acaba se envolvendo no caso e com Jeanette Kihlberg, profissionalmente e também em termos pessoais. Sofia talvez seja a personagem mais interessante para mim nessa história. Passamos o livro todo pensando quem ela é realmente, se é mocinha ou vilã, quais segredos ela esconde, e quando eles se revelam, é um choque delicioso, pois torna a história muito mais inteligente, interessante, e queremos conhecer ainda mais sobre Sofia e “sua personalidade”.

“Se Sofia notava traços de transtorno dissociativo em Victoria Bergman, em Samuel Bai eles eram muito mais profundos. A psicóloga desconfiou que Samuel sofria de estresse pós-traumático, devido aos horrores que vivenciara quando pequeno, o que gerara um transtorno de identidade. Ele parecia ter inúmeras personalidades, que se alternavam sem que percebesse.”

O sadismo do serial killer em questão também chama bastante a atenção. Se você tem intenção de ler esse livro, prepare seu estômago para lidar com tortura, mutilação, embalsamento dos corpos, tudo bastante pesado.  A investigação toma rumos que envolvem inúmeros casos de pedofilia e violência, que começaram há muitos anos e afetaram as vidas de crianças que cresceram com vários tipos de consequências decorrentes do abuso sofrido. No mínimo, perturbador, e muitas vezes angustiante.

“- Vou te contar como é – disse. – Nesse momento, mais ou menos quinhentas mil pessoas estão conectadas à internet, compartilhando fotos e vídeos pedófilos. Para fazer parte dessa rede, você tem que produzir material próprio. Não é difícil, com os contatos certos. Aí é possível até encomendar uma criança on-line. Por cento e cinquenta mil coroas se consegue um menino latino-americano. Ele não existe oficialmente, você é seu dono. Não é necessário dizer que se pode fazer qualquer coisa com ele, e na maioria das vezes o menino termina sumindo. É preciso pagar por isso também, caso não se consiga acabar com sua vida sozinho. Costuma custar mais que os cento e cinquenta mil, e ninguém pechincha com esse tipo de gente.”

Os personagens foram construídos com muito cuidado, os autores foram atentos a cada detalhe de suas personalidades, qualidades e defeitos que nos fazem amá-los e odiá-los ao mesmo tempo, nos ajudando a acompanhar sua evolução e amadurecimento pessoal e psicológico durante toda a trama.

“Ela havia discutido o assunto com Sofia e fora confrontada com uma nova maneira de entender o conceito. Para a psicóloga, não era algo misterioso ou prazeroso: alguém apaixonado era muito parecido com um psicótico. O objeto do amor era apenas uma imagem que não correspondia à realidade, e quem se dizia apaixonado na verdade só está apaixonado pela sensação de estar apaixonado.”

A leitura desse livro me trouxe vários questionamentos (ser psicóloga dá nisso) juntamente com o prazer de ler uma história tão bem escrita. Quais os limites entre a loucura e a normalidade? Qual o papel da sociedade e da violência no surgimento de assassinos seriais? O quanto seu passado, seus traumas, sua vida pregressa podem influenciar no seu comportamento para se tornar alguém considerado realmente mau?
 “É possível ter maldade quando não se sente culpa?”, pensou ela, então bateu com toda a força no olho esquerdo de Samuel. “Ou esse sentimento é a condição da maldade?”

Os autores trazem discussões que vão além dos crimes em si, lidando com problemas sociais e a visão da própria sociedade em relação a temas tão atuais para nós, brasileiros, que nem imaginamos que sejam tão comuns em um país tão rico e desenvolvido como a Suécia, o que me fez pensar que talvez não sejamos tão diferentes assim, culturalmente falando.

“- É uma questão de propriedade e dependência – disse ele. Originalmente o estupro era concebido não como uma agressão à mulher, e sim como um crime contra a propriedade. Leis de estupro surgiram para proteger o direito do homem à propriedade do sexo, fosse para oferecer a mulher em casamento ou para seu próprio uso. Ela não fazia nem sequer parte do processo. Era apenas uma propriedade em um acordo entre homens. Ainda existe ao redor do estupro mitos que são herdados dessa visão medieval da mulher. “Ela podia ter dito não”, “Ela disse não, mas no fundo queria dizer sim”, “Ela estava vestida de modo provocante”, “Ela só queria provocar”.

Enfim, eu poderia continuar escrevendo sobre tantas observações e sentimentos e sensações que tive ao ler essa narrativa tão incrivelmente bem construída e bem desenvolvida. Talvez fosse mais fácil resenhar se ele ainda estivesse no formato de trilogia e então eu poderia escrever sobre cada parte do enredo separadamente. Apesar disso, os capítulos são curtos e se alternam entre passado e presente, o que torna a leitura um pouco mais fluida, apesar da história densa e longa.


Espero que eu tenha conseguido passar minhas impressões e terminar indicando com toda a certeza desse mundo a leitura, se você tiver gostado dos elementos que eu trouxe aqui e se gostar de thrillers psicológicos pesados como um soco no estômago. (E se vocês conhecem mais autores e livros suecos tão maravilhosos quanto esse me indiquem, por favor! Vou amar conhecer! <3)

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