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18.12.17

{Resenha} Os Vestígios do dia

Título original: The Remains of the Day/The village after dark
Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: O mordomo Stevens, já próximo da velhice, rememora as três décadas dedicadas à casa de um distinto nobre britânico, lord Darlington, hoje ocupada por um milionário norte-americano. Por insistência do novo patrão, Stevens sai de férias em viagem pelo interior da Inglaterra. O mordomo vai ao encontro de miss Kenton, antiga companheira de trabalho, hoje mrs. Benn. No caminho, recorda passagens da vida de lord Darlington e reflete sobre o papel dos mordomos na história britânica. Num estilo contido, o narrador-protagonista acaba por revelar aspectos sombrios da trajetória política do ex-patrão, simpatizante do nazismo, ao mesmo tempo que deixa escapar sentimentos pessoais em relação a miss Kenton, reprimidos durante anos.

“Os erros podem ser triviais em si, mas o senhor deve se dar conta de seu significado maior.”
Este é o terceiro livro de Kazuo Ishiguro que leio. Agora ganhador do premio Nobel de Literatura em 2017 por Não me abandone jamais, ele de fato merece o prêmio. Acima estão as resenhas dos outros dois livros que li do autor.

Quando tive a chance de ler mais um livro deste autor, a agarrei. Gosto muito do estilo saudosista e nostálgico das histórias de Ishiguro, sempre muito carregado de saudade e sentimentos. Em Os vestígios do dia não poderia ser diferente.

Mr. Stevens nos conta sua história durante uma viagem, a única de sua vida realizada por lazer. Depois de trinta anos de sua vida dedicados a Darlington Hall, uma mansão inglesa de muito renome, ele aceita o convite de seu novo patrão: um rico norte-americano que deseja ter todos os luxos de um lorde inglês.

Darlington Hall em seus tempos de glória no mundo entre as duas grandes guerras era comandada por Lord Darlington, um senhor aparentemente honrado e digno pelo que nos conta Stevens, que o admirava tremendamente. Tanto como pessoa, quanto pelo trabalho que ele prestava ao mundo, fazendo História dentro daquelas paredes.

Um mordomo é uma pessoa encarregada de cuidar de todos os detalhes da casa, junto da governanta (embora seu cargo seja acima do dela). Desde as minúcias de um grande jantar a auxiliar o lorde da casa em suas necessidades. Lord Darlington confiava plenamente em seu mordomo para que conseguisse tornar sua casa o melhor lugar para as pessoas que eram seus convidados. E Mr. Stevens sabia que seu excelente trabalho era capaz de influenciar nas grandes decisões que poderiam definir uma parte da história.
“Meu senhor, ao longo dos anos tive o privilégio de ver o melhor da Inglaterra entre essas paredes, mesmo.”
Darlington Hall não tem mais a mesma glória, tendo até mesmo fechado alguns de seus magníficos salões pela falta de pessoal no pós-guerra. E também seu novo chefe, Mr. Farraday, não se importa em ter toda a casa funcionando, conquanto que ainda possa exibir o melhor para seus amigos. Junto com a glória da casa, aparentemente foi-se Lord Darlington e no começo não entendemos muito a razão.

Vemos a personalidade sutil de Stevens durante a organização e decisão de sua viagem. Munido das informações de um dos melhores guias da beleza da Inglaterra e da carta da ex-governanta, Mrs. Kenton, ele parte com a justificativa de recontratá-la, após receber uma carta a qual ele entende nas entrelinhas que ela deseja voltar para seu antigo posto.

Para ele, o mundo atual é ligeiramente confuso. Seu novo chefe faz piadas as quais ele não sabe responder com seu humor “inglês” e teme que o esteja encabulando. Com o passar dos anos também ele percebeu que tem cometido mais erros, os quais não teriam acontecido nos anos de ouro de Darlington Hall e isso o está perturbando. São coisas pequenas, mas que ainda incomodam sua paz.

Na viagem, não há nada incrível. Apenas pessoas comuns, lugares bonitos de se admirar como descritos no livro que Mr. Stevens tanto admira. O que é mais surpreendente na viagem são as divagações do mordomo, coisas que ele nunca havia se permitido pensar. Um mordomo não deve pensar e julgar as atitudes de seu empregador, deve apenas servi-lo da melhor maneira. Sacrificam suas vidas pessoais para tanto, muitas vezes – senão todas.

Descobrimos, conforme Mr. Stevens reflete, que seu lord é um homem honrado e digno. Um tipo de dignidade que ele não acredita que pessoas comuns possuem. No entanto, seu patrão era um simpatizante do nazismo. Vemos o quanto ele sente por isso e que tal fato não diminuiu a admiração que o servo tinha pelo mesmo; apenas sente muito por não ter percebido as águas profundas nas quais Lord Darlington estava se afogando. E, eu mesma durante minha leitura, não pensei em culpar o homem em momento algum. Não que ele não seja culpado por seus crimes... Mas pela inocência e desejo de ajudar o mundo que o homem tinha, para mim era apenas isso... E acredito que para Mr. Stevens também era assim.
“E permita que eu coloque o seguinte: ‘dignidade’ tem a ver essencialmente com a capacidade de um mordomo de não abandonar o ser profissional que ele habita.”
Ele analisa, conforme os dias de viagem passam, pequenos detalhes de sua vida. Vemos o quanto ele perdeu de sua vida pessoal para ser o melhor profissional, o mais digno. O quão desesperador alguns momentos pareciam ser e ele, com profissionalismo, dedicava-se e ignorava o mundo desabando ao seu redor.

Mrs. Kenton é uma peça-chave em sua vida.  Tenta a todo momento encontrar nele o ser humano que existe ali dentro além do ser profissional. É triste, muito triste, o final. Muito emotivo, uma explosão de sentimentos quando se assistie ao final de um por-do sol.

Se posso fazer isso após ler três livros de Kazuo Ishiguro, seus livros são sempre sobre o cuidado. Temos o cuidado do amor, em O gigante enterrado; o cuidado da amizade em Não me abandone jamais... E o cuidado profissional, em Os vestígios do dia. Não sei se estou certa, sei que vai muito além... Mas notei o cuidado presente nestes três livros.

Esta edição da Companhia das Letras traz também o conto “Depois do anoitecer”. Nele, um senhor já nos avanços de sua idade que retorna para a vila/cidade em que cresceu. É meio confuso, mas no final fica subentendido o que aconteceu de fato, vale a pena a leitura.
Os vestígios do dia é um livro sensível, de leitura carregada de sentimentos. A capa é muito bonita e a diagramação é simples.

Preciso dizer que, enquanto eu lia, ficava me lembrando da série Downton Abbey! Recomendo muito a série, também, tem no Netflix! 

Maaas, a história foi adaptada para o cinema. Ainda não tive a chance de assistir, mas está na minha lista de coisas a fazer, huahuhah! Deixo o trailer para vocês!


~Livro recebido em parceria com a editora Companhia das Letras~

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