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8.12.17

{Resenha} De bem com a vida

Autor: Lauro Trevisan
Editora: Butterfly
Sinopse: O consagrado escritor Lauro Trevisan, desta vez, quer provocar no leitor a reflexão e o sorriso. Com uma linguagem bem-humorada, ele nos apresenta uma espécie de “guia do alto-astral”, com 52 conselhos, um para cada semana do ano, convidando-nos a desenvolver um olhar positivo perante a vida e a descobrir sempre o lado bom das coisas. Entre outras palavras de ânimo, o autor dá dicas de como nos libertar do estresse cotidiano e como ter pensamentos positivos diante dos obstáculos da vida. Ele deixa claro que não é fácil, mas, possível. Para Lauro Trevisan, rir é o melhor remédio, sempre!

Preciso admitir: não sou muito fã deste tipo de livro, o que me dificulta bastante a manter certa assiduidade na leitura dele. Então precisei criar uma técnica: todo dia lerei um dos conselhos já ao acordar.

Falhei, né?

Ele ficou no meu quarto, ao meu alcance um tempão... Mas enfim dei conta! Tentarei ser o mais correta possível, uma vez que sei que várias pessoas podem fazer uso de um livro assim.


A proposta do autor é realizar reflexões nos leitores, com temas que tratam sobre viver bem. Que, apesar de nossas vidas corridas, devemos nos esforçar para viver bem.

A pegada é bastante religiosa, coisa que não imaginei que seria (sou contra você ser bom porque a religião ensinou e cobra isso ou usar a fé como uma muleta). Mas alguns trechos até que podem ser bem utilizados, outros foram contra o que penso... Como por exemplo, o trecho do conselho 2 (“Chegou a hora de voltar ao paraíso), onde ele diz que a felicidade tornou-se o paraíso (depois de Adão e Eva serem expulsos, o paraíso tornou-se um estado mental com o nome de felicidade) e muitas pessoas dizem que ela não existe. Que a buscam onde ela não está (tudo bem até aqui) e que a Psicologia diz que ela não passa de momentos prazerosos e que isso é errado. Que não devemos sofrer pelas coisas que nos afligem, que devemos deixar o passado para trás e não nos lamuriarmos. Amiguinho, cada um sabe o que lhe faz feliz. São momentos de prazer e alegria, pequenos ou grandes, que definem a felicidade. O que te faz se sentir bem. Você não é feliz o tempo todo às vezes, mas simplesmente porque muitos desses momentos não depende só de você e de suas expectativas, mas de outros fatores externos também. É harmonia consigo mesmo. E os momentos tristes e decepcionantes existem, só devemos saber o que fazer com eles: aprender, usar de exemplo para quebrar o ciclo de tristeza, direcionar nossas raivas de maneira correta. Aprenda com o Rafiki também; se o Simba aprendeu, porque nós não? O passado deve ficar para trás, mas o que vamos fazer com ele? Deixar que continue destruindo nossos sonhos e direitos? Não, vamos lá e jogamos ele no fogo HUAHUAHUAHUAHUHA! Brincadeira (ou nem tanto), mas precisamos resolver sim as pendências do passado e não simplesmente ignorá-lo, okay? Isso pode deixar doente.

"Oh sim, o passado pode machucar. Mas do modo que vejo, você pode correr dele... Ou aprender com ele."
No conselho 4, “Se a vida não é alegria, faça da alegria a sua vida”, ele diz que o primeiro passo do dia deve ser despertar alegre. Para mim isso vai depender de um simples fato: estou acordando antes das 7 da manhã? Se sim, não acordo alegre não huahuahuah! Quem acorda serelepe as 6 da manhã para mim é um monstro! Tô brincando tá, mas eu simplesmente não gosto de acordar as 6 da manhã, sou um bicho noturno (ou pelo menos queria ser) então durmo tarde... Se dormir tarde e acordar cedo, fico de mau-humor. Vocês também?

Gostei do conselho 8 – A alegria do trabalho, onde ele cita autores que afirmam que “trabalhe com o que gosta e não terá que trabalhar nenhum dia de sua vida”, pois assim o trabalho se orna algo que você ama fazer e que te dá prazer. Se te dá prazer, é bom. É o que repito para os adolescentes: o que você se vê fazendo daqui alguns anos e que você sabe que será feliz? Afinal, passamos grande parte do nosso dia no nosso trabalho, precisamos nos sentir bem com o que fazemos, senão passaremos o dia entristecidos e adoeceremos.

O conselho 18: Sorria, sorria, sorria... Me fez lembrar de uma situação que pensei esses dias enquanto trabalhava. Neste conselho, ele diz várias qualidades do sorriso, que até concordo. O sorriso abre portas. Pode ser desdentado, pode ser com dentes branquinhos... O sorriso faz as pessoas se aproximarem de você, é seu calor. No meu trabalho preciso realizar visitas domiciliares. Aí estava andando em um bairro aqui da cidade onde uma pessoa estava caminhando na calçada, de cara fechada e sem sorriso algum, nada. Meu primeiro pensamento foi: “Nossa, que medo. A pessoa não sorri.” Aí fiquei pensando nisso, sabe? Eu sorrio fácil, mesmo se meu humor não está muito bom... Porque uma vez li um frase pequenininha quando era adolescente: “Sorria, pois você nunca sabe quem irá se apaixonar por seu sorriso.” E é verdade, o sorriso abre portas! Claro que naquela época eu pensava em coisa de paixonite e talz, mas hoje em dia eu penso diferente. Às vezes tudo o que uma pessoa precisa é que alguém lhe sorria... Um dia, você mesmo pode ser salvo por um pequeno sorriso.

Então, este livro é um pequeno conselheiro sobre como ter uma vida boa. São vários conselhos, alguns você pode usar, outros pode acabar não fazendo tão bom uso... Mas é uma boa leitura, sei que você poderá encontrar algo para pensar depois de ler os conselhos do Lauro Trevisan!

A diagramação é bonita, com imagens a cada começo de conselho que dão os ares da alegria que ele coloca na capa. A simplicidade foi a alma do negócio, aqui. Não percebi erros de português, as folhas são brancas.

Se quer um livro de conselhos para encarar a vida diferente, este é seu livro! 

~Livro cedido em parceria com a Editora Butterfly~

7.12.17

{Resenha} Aimó: Uma viagem pelo mundo dos Orixás



Título: Aimó: uma viagem pelo mundo dos Orixás
Autor: Reginaldo Prandi
Editora: Seguinte
Sinopse: Imagine se encontrar, de uma hora para a outra, em um mundo totalmente desconhecido onde você não conhece ninguém e ninguém demonstra saber quem você é. É o que acontece com uma menina nascida na África e levada para o Brasil para ser escrava, e que de repente acorda em um lugar estranho, habitado pelos deuses orixás e pelos espíritos dos mortos que aguardam o momento de seu renascimento. Ela não sabe mais o próprio nome nem lembra de sua família - está sozinha e não tem a quem pedir socorro. Por isso, aliás, ganha o nome Aimó, "a menina que ninguém sabe quem é". Tudo o que ela quer é retornar ao seu mundo de origem, mas para tornar isso possível, Aimó vai partir em uma longa jornada através dos tempos mitológicos, guiada por Exu e Ifá, e vai acompanhar de perto muitas aventuras vividas pelos orixás. Só assim poderá reunir o conhecimento necessário para fazer uma escolha que lhe permita, enfim, voltar para casa.
Gosto de qualquer livro que a história me chame atenção, não importa sobre o que ele seja e, na minha busca por coisas novas para ler, encontrei Aimó.

O livro, bem curto, com 199 páginas, nos faz viajar pelo mundo da cultura Africana e seus Orixás, sua crença.

Aimó, nome traduzido como “menina esquecida”, é a personagem que acompanhamos. Após morrer e ir parar no Orum (mundo espiritual), Aimó, que não lembra nem seu nome verdadeiro ou sobre sua vida no Aiê (mundo dos vivos), desata a chorar de desespero, isso acaba despertando Olorum (o pai de todos os Orixás), isso o deixa muito estressado, Olorum, que adora dormir, vai procurar quem o acordou.

Encontra Aimó, e ambos tentam entender o motivo de Aimó estar no Orum, e por que não pode reencarnar. Olorum chama por Ifá (o orixá do oráculo) e Exu (orixá mensageiro, do movimento e da transformação), para ver se com a ajuda dos dois, descobrem a história da menina esquecida.

Entendendo os motivos de Aimó estar presa no Orum, Olorum temendo que a menina continuasse o acordando, convoca uma reunião com todos os Orixás e diz que Aimó deve conhecer todas as Aiabás (orixás femininas) e escolher uma delas para ser sua mãe, só assim poderá reencarnar, e quem irá acompanha-la nessa jornada serão Exu e Ifá.
“Você quer renascer e ser boa, ser somente boa. Mas ninguém é inteiramente bom ou inteiramente mau. O bem e o mau andam juntos, um ajuda o outro a existir. A mesma pessoa agora é uma coisa e depois é outra. Quando não é as duas coisas juntas, ao mesmo tempo!”

A partir daí, nos é apresentado todos os Orixás, suas histórias e várias outras. Devo dizer que fiquei encantada com a teoria do Cadomblé de como originou-se o mundo e os humanos, e o que acontece conosco após a morte. Não há inferno ou punições, o único problema é que se você for uma má pessoa em vida, ninguém vai se lembrar de você com carinho e te fazer oferendas, isso fará com que você nunca mais consiga reencarnar.

Mas isso nem é problema, Nanã, a orixá do barro, aceita em sua casa qualquer espirito errante, pois adora sua companhia e o mesmos a protegem em troca de abrigo.

Nunca vi uma religião tão diferente e divertida assim. Ah, mas devo lembrar que “Aimó” não é um livro religioso, o próprio autor explica:
“Convém enfatizar que este não é um livro religioso. A intenção aqui foi trazer ao leitor elementos culturais da mitologia afro-brasileira, patrimônio que o Brasil herdou herdou da África.”
Foi uma história muito emocionante, o final me deixou um sorriso de orelha-a-orelha, fazia muito tempo que um livro me dava esse sentimento.

Os personagens que mais me conquistaram foram Exu e Iemanjá, adorava Exu e sua personalidade. Queria entender por que as pessoas julgam tanto essa religião e seus Orixás.

No final do livro tem um glossário com todos os termos usados e todos os Orixás, sempre que esquecer ou tiver alguma dúvida é só olhar lá.


Recomendo muito Aimó, a emoção de lê-lo deve ser sentida por todos (risos).
Ah, é do mesmo autor de outro livro que adoro muito "Minha Querida Assombração", que já deixei a resenha dele aqui no blog também.

6.12.17

{Resenha} Retratos de uma Vida #1


Autora: Naty Rangel
Editora: Ler Editorial
Nº de Páginas: 200
Classificação: 4/5
Na adolescência, Jennifer precisou superar a perda dos pais e a traição do namorado com sua melhor amiga. Mas o tempo e o irmão inseparável deram a força que ela precisava para seguir adiante.
O emprego dos sonhos é a primeira de muitas conquistas e é só o começo de uma sessão de flashes emocionantes em sua vida. Ela está prestes a conquistar o coração de alguém bastante improvável, mas terá que lutar para superar os obstáculos que estão por vir.
Retratos de Uma Vida narra a história da fotógrafa Jennifer Torres, seus conflitos no início da vida adulta, as dificuldades para conseguir um bom emprego e a descoberta do amor.
Um livro que experimenta a fórmula teen dos dramas americanos em nossa cultura, trazendo uma história repleta de superações e reviravoltas.
Jennifer é uma garota normal,normal como qualquer outra da sua idade,que gosta de sair,curtir a vida e suas amigas mas sempre com o pé no chão sabendo o que quer da vida,ser uma grande fotógrafa em uma das revistas mais famosa do País. 

Até que surge uma oportunidade para uma entrevista nessa revista e Jenni com o apoio do irmão vai e aposta todas as fichas que dará certo,após um incidente com seu futuro chefe ela saí de lá com a certeza de que jogou fora sua única oportunidade de conquistar o emprego dos sonhos.

Victor é dono da revista e ficou bastante impressionado com o jeito e a maneira de ser de Jennifer,motivo no qual ele fica perturbado e obcecado por ela e que fará de tudo para ela não perder essa chance única em sua vida.Jennifer por outro lado é bem cabeça dura e teimosa o que dará um pouquinho de trabalho pra ser convencida.

E não é que o Victor consegue domar a fera e Jenni passa a ser a nova fotógrafa assistente da revista e com o passar do tempo eles acabam se envolvendo apesar da relutância de Jennifer de se entregar novamente o amor.

Com muita paciência eles conseguem viver um dia de cada vez,mas o pior pesadelo de Jennifer se materializa na sua vida e ela passa momentos de terror pra desespero de Victor e sua família,que mais uma vez eles conseguem superar mas a que custo?

Logo que vi esse livro me interessei de cara,adorei a sinopse e amei a capa,a escrita da autora é leve sem ser maçante e rapidinho da pra fazer essa leitura,só tenho uma observação pra fazer a editora precisa revisar com mais afinco o livro antes de publicar,me incomodou bastante alguns erros,praticamente em todos os capítulos tinhas letras a mais e a menos e palavras a mais,normalmente isso não me incomoda mas quando o mesmo erro acontece com bastante frequência é um pouquinho chato. Mas fora isso curti bastante a estória e já estou ansiosa pela sequência!!

5.12.17

{Resenha} Uma bolota molenga e feliz



Título Original: Big Mushy Happy Lumb
Autora: Sarah Andersen
Editora: Seguinte
Sinopse: As incríveis tirinhas de Sarah Andersen são para nós, que não economizamos dinheiro na livraria, vivemos à base de café, deixamos tudo para a última hora, somos especialistas em roubar o blusão alheio, não sabemos nos comportar em situações sociais e insistimos em Pensar Demais. Esta segunda coletânea continua exatamente onde a primeira parou: debaixo de uma pilha de cobertas, evitando as responsabilidades do mundo real. Este volume traz tiras que acompanham os altos e baixos da montanha-russa implacável que é o começo da vida adulta, além de ensaios ilustrados sobre experiências pessoais da autora ligadas a ansiedade, carreira, relacionamentos e amor por gatinhos. Tudo isso com o mesmo tom sincero, leve e divertido que já conquistou mais de 2 milhões de fãs no Facebook.

Sabe um livro que você pega e, meia hora depois, já chegou ao fim sem nem perceber e acaba por desejar lê-lo novamente – e sabe que vale a releitura?

Sarah Andersen, uma vez mais, nos encanta com as tirinhas da verdades – muitas delas coisas do dia-a-dia que às vezes pensamos e fazemos (ou temos vontade de fazer) e não assumimos para ninguém (nem para nós mesmos!).

Me diverti muito, me encontrando em muitas das tirinhas. Logo de cara, a primeira já nos diz sobre aqueles dias que temos tanta coisa para fazer, mas tudo o que desejamos é ficar escondidas debaixo do cobertor. Quem nunca quis ficar quietinha debaixo da coberta e deixar o mundo lá fora queimar? Quando de fato o receio de encarar o dia lá fora bate com tudo e dá até vontade de voltar a ser criança, o tempo que não havia boletos para pagar, pessoas chatas a engolir... Esconder pensamentos e sentimentos que às vezes – na maior parte das vezes – esconder seus sentimentos é cilada e só pode dar errado! Mas você acaba fazendo mesmo assim...

A desenhista perpassa por todas as fases de ser adulto, das pessoais aos relacionamentos amorosos, o quanto é gostoso roubar as roupas do namorado, uma vez que as femininas são terríveis! O jeans apertado com bolsos inúteis! A blusa com penduricalhos e tecido que faz coçar. Quão confortável é aquele moletom velhinho e quentinho, ainda mais se pertencer a pessoa que amamos, pois o cheiro que tem, o cheiro do amor, é a melhor coisa do mundo! Eu já roubei duas blusas de frio do meu amor, huahuahuha! E não, não pode ser dada... tem que ser roubada, é isso que a torna especial! E nossa bolotinha molenga e feliz sabe muito bem disso, é uma especialista!

O diferencial que encontrei entre este e o livro anterior da autora é que algumas tirinhas meio que viraram histórias, narrativas curtas sobre ansiedade em relação a interagir com as pessoas lá fora. Como uma simples festa pode ser torturante... Se você for e não encontrar ninguém que conhece, ou seus amigos se fecharem com outras pessoas que eles conhecem e você ser deixada de lado? Como Pensar Demais atrapalha nossas relações sociais – a mim é um tormento enorme, sou quase uma tapada social. Pode não parecer, mas é porque tem aqui uma tela entre nós, huahuahuha! – e muitas vezes deixamos de fazer coisas por conta dessa ansiedade.

Também vem nos falar da idolatria aos gatos que tem na internet e como ela lidou com isso – e se tornou uma idólatra de gatos também!

Ela deve sempre se basear em sua própria vida e experiências... É muito divertido acompanhar e tive a chance de mostrar as tirinhas para outra pessoa, que riu e também se identificou em poucos minutos com nossa bolotinha molenga!


Recomendo a leitura desse livro – e seguir a Sarah Andersen nas redes sociais, vai tornar seu facebook melhor, acredite! – para tornar seu dia mais divertido e leve. Irá perceber que todas as neuras que giram na sua cabeça podem estar girando também na cabeça de outras pessoas... Então respire fundo, pegue seu cobertor e sente-se no sofá para ver Netflix... Às vezes é tudo o que você precisa – e seu amigo também!

4.12.17

{Resenha} A Garota-Corvo


Autor: Erik Axl Sund
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017
Sinopse: Tudo começa quando o corpo de um menino é encontrado perto de uma estação de metrô em Estocolmo. O cadáver tem marcas de tortura e parece ter passado por um intrincado processo de mumificação. Não se sabe ao certo há quanto tempo está morto. A detetive Jeanette Kihlberg é convocada para encabeçar as investigações e, com a descoberta de mais dois cadáveres mutilados, logo fica claro que um serial killer está à solta.
Decidida a combater o aparente descaso das autoridades, lutando contra um promotor apático e uma força policial burocrática que não quer dedicar recursos para resolver o assassinato de crianças imigrantes, Jeanette procura a psicóloga Sofia Zetterlund, especialista na recuperação de vítimas de tortura e maus-tratos.As vidas dessas duas mulheres se entrelaçam de forma quase instantânea – profissional e pessoalmente. A investigação que empreendem juntas vai se mostrando cada vez mais arriscada, e envolve figuras do mais alto escalão, num ciclo de abuso e vingança que perpassa gerações. À medida que se aproximam da verdade sobre os assassinatos, aos poucos elas percebe, que os crimes escondem um mal subterrâneo que parece abraçar toda a sociedade sueca.No esteio do melhor da literatura policial nórdica, A Garota-Corvo é um thriller psicológico de tirar o fôlego, recheado de reviravoltas surpreendentes, com vozes que se alternam em velocidade crescente. Numa tela de perversidade que inclui tráfico de pessoas, misoginia, sexismo, xenofobia e ódio contra minorias, Erik Axl Sund cria um romance tenso e assustador sobre os maiores horrores que os homens são capazes de perpetrar e faz uma análise minuciosa dos recantos mais sombrios da mente humana.

Resenha:

Sinceramente? Não sei como começar essa resenha. Não sei o que escrever. Ainda me sinto atordoada pela leitura desse livro, que veio como vários socos no estômago, um atrás do outro, me deixando completamente sem palavras. É um livro denso, pesado, longo (até porque inicialmente foi lançado como uma trilogia), em certos pontos cansativo, mas que você não consegue deixar de lado. Demorei alguns meses para concluir a leitura, por falta de tempo, e por não conseguir realmente assimilar toda a história lendo rápido.




Impossível não comparar a escrita dos autores (sim, Erik Axl Sund é um pseudônimo para Jerker Eriksson e Hakan Axlander Sundiquist) com a escrita do genial Stieg Larsson (que inclusive é citado no livro). O estilo é realmente muito parecido, tanto descritivamente, quanto criativamente. E isso não é nada ruim, afinal, para quem leu a Trilogia Millennium, saber disso pode até mesmo despertar ainda mais a curiosidade sobre essa dupla de autores. No meu caso, já quero conhecer mais e mais autores suecos para descobrir se todos são incríveis como esses três! (Opa! Tem também o David Lagercrantz, que tem feito um ótimo trabalho na continuação da Trilogia Millennium e logo vem resenha do quinto livro por aí!)



É muito difícil resumir tudo o que acontece em quase 600 páginas de leitura, então vou falar dos elementos que mais me prenderam, me chamaram a atenção e me fizeram amar esse livro.

Em primeiro lugar, o suspense. A história já começa com um serial killer matando crianças imigrantes, com as quais o Estado e a sociedade em geral não se importam. A investigação então vai se deparando com assassinato, tráfico humano, pedofilia, bullying, problemas sociais, corrupção, além de mostrar doses de machismo e misoginia dentro da polícia local, visto que a investigadora à frente do caso é uma mulher, e precisa provar o quanto é boa em seu trabalho, sendo desacreditada o tempo todo por seus superiores. Jeanette Kihlberg precisava se esforçar tanto e se dedicava com tanto afinco, que se afastava mais e mais a cada dia de seu marido e filho, trazendo problemas para sua vida pessoal.

“Por que ela não era respeitada como os outros chefes? Tinha mais mérito e um número bem maior de casos solucionados que a maioria deles. A cada ano, quando os salários eram reajustados, ela notava que o seu salário ainda estava abaixo da média do cargo. Esqueciam seus dez anos de experiência quando contratavam novos superintendentes com salários mais altos, ou quando outros eram promovidos.Aquela falta de respeito se devia somente ao fato de ser mulher?”

Temos também uma psicóloga, Sofia Zetterlund, especialista no tratamento de vítimas de tortura, que acaba se envolvendo no caso e com Jeanette Kihlberg, profissionalmente e também em termos pessoais. Sofia talvez seja a personagem mais interessante para mim nessa história. Passamos o livro todo pensando quem ela é realmente, se é mocinha ou vilã, quais segredos ela esconde, e quando eles se revelam, é um choque delicioso, pois torna a história muito mais inteligente, interessante, e queremos conhecer ainda mais sobre Sofia e “sua personalidade”.

“Se Sofia notava traços de transtorno dissociativo em Victoria Bergman, em Samuel Bai eles eram muito mais profundos. A psicóloga desconfiou que Samuel sofria de estresse pós-traumático, devido aos horrores que vivenciara quando pequeno, o que gerara um transtorno de identidade. Ele parecia ter inúmeras personalidades, que se alternavam sem que percebesse.”

O sadismo do serial killer em questão também chama bastante a atenção. Se você tem intenção de ler esse livro, prepare seu estômago para lidar com tortura, mutilação, embalsamento dos corpos, tudo bastante pesado.  A investigação toma rumos que envolvem inúmeros casos de pedofilia e violência, que começaram há muitos anos e afetaram as vidas de crianças que cresceram com vários tipos de consequências decorrentes do abuso sofrido. No mínimo, perturbador, e muitas vezes angustiante.

“- Vou te contar como é – disse. – Nesse momento, mais ou menos quinhentas mil pessoas estão conectadas à internet, compartilhando fotos e vídeos pedófilos. Para fazer parte dessa rede, você tem que produzir material próprio. Não é difícil, com os contatos certos. Aí é possível até encomendar uma criança on-line. Por cento e cinquenta mil coroas se consegue um menino latino-americano. Ele não existe oficialmente, você é seu dono. Não é necessário dizer que se pode fazer qualquer coisa com ele, e na maioria das vezes o menino termina sumindo. É preciso pagar por isso também, caso não se consiga acabar com sua vida sozinho. Costuma custar mais que os cento e cinquenta mil, e ninguém pechincha com esse tipo de gente.”

Os personagens foram construídos com muito cuidado, os autores foram atentos a cada detalhe de suas personalidades, qualidades e defeitos que nos fazem amá-los e odiá-los ao mesmo tempo, nos ajudando a acompanhar sua evolução e amadurecimento pessoal e psicológico durante toda a trama.

“Ela havia discutido o assunto com Sofia e fora confrontada com uma nova maneira de entender o conceito. Para a psicóloga, não era algo misterioso ou prazeroso: alguém apaixonado era muito parecido com um psicótico. O objeto do amor era apenas uma imagem que não correspondia à realidade, e quem se dizia apaixonado na verdade só está apaixonado pela sensação de estar apaixonado.”

A leitura desse livro me trouxe vários questionamentos (ser psicóloga dá nisso) juntamente com o prazer de ler uma história tão bem escrita. Quais os limites entre a loucura e a normalidade? Qual o papel da sociedade e da violência no surgimento de assassinos seriais? O quanto seu passado, seus traumas, sua vida pregressa podem influenciar no seu comportamento para se tornar alguém considerado realmente mau?
 “É possível ter maldade quando não se sente culpa?”, pensou ela, então bateu com toda a força no olho esquerdo de Samuel. “Ou esse sentimento é a condição da maldade?”

Os autores trazem discussões que vão além dos crimes em si, lidando com problemas sociais e a visão da própria sociedade em relação a temas tão atuais para nós, brasileiros, que nem imaginamos que sejam tão comuns em um país tão rico e desenvolvido como a Suécia, o que me fez pensar que talvez não sejamos tão diferentes assim, culturalmente falando.

“- É uma questão de propriedade e dependência – disse ele. Originalmente o estupro era concebido não como uma agressão à mulher, e sim como um crime contra a propriedade. Leis de estupro surgiram para proteger o direito do homem à propriedade do sexo, fosse para oferecer a mulher em casamento ou para seu próprio uso. Ela não fazia nem sequer parte do processo. Era apenas uma propriedade em um acordo entre homens. Ainda existe ao redor do estupro mitos que são herdados dessa visão medieval da mulher. “Ela podia ter dito não”, “Ela disse não, mas no fundo queria dizer sim”, “Ela estava vestida de modo provocante”, “Ela só queria provocar”.

Enfim, eu poderia continuar escrevendo sobre tantas observações e sentimentos e sensações que tive ao ler essa narrativa tão incrivelmente bem construída e bem desenvolvida. Talvez fosse mais fácil resenhar se ele ainda estivesse no formato de trilogia e então eu poderia escrever sobre cada parte do enredo separadamente. Apesar disso, os capítulos são curtos e se alternam entre passado e presente, o que torna a leitura um pouco mais fluida, apesar da história densa e longa.


Espero que eu tenha conseguido passar minhas impressões e terminar indicando com toda a certeza desse mundo a leitura, se você tiver gostado dos elementos que eu trouxe aqui e se gostar de thrillers psicológicos pesados como um soco no estômago. (E se vocês conhecem mais autores e livros suecos tão maravilhosos quanto esse me indiquem, por favor! Vou amar conhecer! <3)