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19.4.18

{Resenha} Os Quase Completos

 
Título: Os Quase Completos
Autor: Felippe Barbosa
Editora: Arqueiro
Sinopse: O Quase Doutor é um renomado cardiologista que passa os dias em um hospital, mas no fundo é um artista frustrado. A Quase Viúva é uma professora que está de licença do trabalho para ficar com o noivo, em coma após um grave acidente. O Quase Repórter é um jornalista decepcionado com a profissão que sofre há mais de um ano pelo suicídio da esposa. A princípio, a única coisa que essas pessoas têm em comum é a sensação de incompletude e de desilusão com a vida.
Até que, um dia, o Quase Doutor é persuadido por um velho desconhecido a embarcar com ele em um ônibus rumo a uma jornada para se reconciliar com seu passado. Logo a viagem se transforma em uma aventura extraordinária e, em meio a fenômenos como uma chuva de estrelas cadentes, ele precisa fazer escolhas que mudarão seu destino para sempre.
Enquanto isso, eventos misteriosos levam a Quase Viúva a suspeitar que alguém dentro do hospital quer matar seu noivo e uma pesquisa minuciosa do Quase Repórter revela que sua esposa pode ter sido assassinada. Quando os dois tentam descobrir a verdade sobre seus amados, tudo leva a crer que a resposta está dentro do ônibus do Quase Doutor.
Reunidos num lugar que nunca imaginaram existir, os três serão forçados a enfrentar seus maiores medos e verão que, para se tornarem completos, precisarão encarar a batalha mais difícil de todas: aquela que travamos com nós mesmos.

Logo que vi esse livro me senti atraída instantaneamente, fosse pela linda capa, fosse pelo título. O fato é que me identifiquei logo de cara. Por muitas vezes na minha vida me senti uma "Quase", posso até dizer que já me descrevi de tal forma em algum texto pessoal ou até mesmo no meu diário. Poder ler uma história sobre "Quases" me foi uma experiência muito satisfatória, com toda certeza.

Comecei a leitura um pouco devagar e a princípio me senti meio perdida com o Quase Doutor me dando tantos nomes e informações de uma vez, mas aos poucos fui me habituando à narração conforme lembranças de sua vida surgiam em meio aos seus capítulos.
Estes se intercalavam com a narração da Quase Viúva e do Quase Repórter, que contam suas vidas com seus amados, ou melhor, a melancolia e a depressão que passam por conta destes.

A Quase Viúva, Verônica, passa seus dias no hospital, esperando que seu noivo desperte do coma, causado por conta de um acidente, semanas antes de seu casamento. Ela se lamenta pela situação e pela sua monotonia entre as paredes com cheiro desagradável. Na verdade, ela se lamenta tanto de sua própria vida que chega a ficar furiosa consigo mesma e os demais a sua volta por causa de seu egoísmo. Pra ser totalmente honesta, um dos motivos do meu começo lento na história foi por conta dessa mulher... Eu a detestava! Ficava se lamentando e logo em seguida se corrigindo por estar se sentindo de tal forma quando seu noivo está em uma situação pior. Se estressava por várias coisas... e em seguida se irritava consigo mesma por estar estressada! Era cansativo e irritante vê-la explodir com pessoas sem nenhum motivo. Mas aos poucos aprendi a gostar dela, tanto, aliás, que virou uma das minhas preferidas ao fim do livro.
Devo dizer que gostei mesmo foi da amizade que surgiu entre ela e o médico de seu noivo, Doutor Carlos. Eu até esperei que algo a mais acontecesse entre os dois, embora houvesse o acamado noivo na história, mas ao mesmo tempo, fiquei satisfeita com a amizade verdadeira dos dois. Em diversos momentos, Carlos confortou Verônica e até mesmo a fez não odiar tanto hospitais, quanto ela costumava.

Quanto ao Quase Repórter, Victor, vive sua vida em melancolia e indignação, após o suicídio de sua esposa no ano anterior, tendo a convicção de que tudo não passara de um homicídio. Coletando o que podia de informações de casos semelhantes e um ódio crescente pela polícia que encerrara o caso sem investigações detalhadas, ele vai atrás de encontrar qualquer coisa que possa provar sua teoria. E a principal pista vem justamente de uma policial, sua amiga de anos, que o entrega fotos da perícia, onde brilhos fosforescentes de uma substância desconhecida se encontra em suas roupas, e ao que tudo indica, também em seu sangue. Fazendo-os acreditar que Celina poderia ter sido drogada.

Enquanto isso, o Quase Doutor embarca em uma viagem surreal, onde encontra uma versão fantasiosa da vida que tanto sonhou. Desde pomares mágicos e um cão-foca que pintara quando criança, à relacionamentos há tanto tempo acabados, de volta a paixões intensas, ele se vê maravilhado e confuso. E é justamente essa confusão toda que o faz repensar sua vida. Estaria mesmo ele feliz com seu relacionamento, sua profissão? É justamente esse o sentido de toda jornada, se encontrar. Abraçar aquilo que o preenche. Se tornar completo.
- Acontece que você não está feliz - repetiu ele. - É isso que peço que entenda de uma vez. Isso não é felicidade. Você está puramente iludido. Apegado a uma alternativa que parece mais simples. Um caminho que parece mais fácil. Mas a estrada mais curta nem sempre o leva ao caminho correto.
Por toda sua vida, o Quase Doutor sempre ouviu o que aqueles que amava tinham a dizer a respeito de si mesmo. Deixando suas escolhas para o que fosse mais sensato. Fosse o relacionamento com a amiga de anos, que tanto combinava com ele, fosse a profissão de médico que os pais sempre sonharam em ver os filhos exercendo. E foi com a pressão e a insistência do que parecia correto, que ele aos poucos foi deixando de ser o que era de verdade: um pintor. Um artista. Cedeu ao Quase e no Quase ele se perdeu.
- Nunca se limite ao "quase". Não há nada mais depressivo do que beirar um sonho e jamais tentar alcançá-lo. A arte é o que te completa. O que te preenche. Isso quer dizer que, se você escolher ser um "quase artista", você será sempre um "quase completo". E sendo um "quase completo", você será sempre um quase feliz.
Bom, me limitei a contar demais a história, pois acho que certas coisas são bem mais prazerosas se descobrir conforme a leitura prossegue. Embora eu tenha começado de forma lenta, as coisas pelo Oitavo Reino, onde o Quase Doutor se encontra acabaram intensificando bastante a narrativa, o que fez crescer uma empolgação enorme do meio pro fim. E devo dizer que fiquei muito satisfeita com acabou. Tendo minhas suposições corretas em sua maioria e claro, um final digno. Com a narrativa do Quase Doutor nos dando uma boa descrição de sua vida em alguns anos, quase como a narração da conclusão de algum filme ou seriado, o que gostei bastante.
Além disso, o livro acaba com um Epílogo, onde nos conta sobre o Quase Repórter, que acaba embarcando no mesmo ônibus, o que me leva a pensar que talvez haja uma continuação, ou ao menos um livro sobre sua jornada, o que eu acho que seria bem interessante, poder explorar mais os demais personagens.

Por fim, acho que o livro foi uma experiência completamente diferente do que eu esperava, porém maravilhosa. Me vi em muitos dos personagens e em diversos momentos seus trechos e diálogos me fizeram refletir sobre minha própria vida e acima de tudo sobre o que é felicidade. Recomendo de coração para todos que já se sentiram um "Quase" e qualquer um que esteja afim de ler uma aventura fantástica com uma boa dose de lição de vida.

- Por mais que sejamos plenos, seremos sempre humanos. E na humanidade resta sempre a dúvida. Minha felicidade, ainda que inabalável, era assim atormentada, vez ou outra, por uma centelha de interrogação, uma apreensão, para me certificar de que eu realmente havia conquistado tudo aquilo que me prometera a mim mesmo.

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