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30.10.18

{Resenha} Sem Volta - Charles Burns



Autor: Charles Burns
Editora: Quadrinhos na Cia. (Companhia das Letras)
Sinopse: A trilogia épica de Charles Burns reunida num só volume. Sem volta é uma jornada delirante pelo território, incerto e sombrio, da memória. Uma história em quadrinhos que nos mantém visualmente eletrizados com sua atmosfera de sonho e realidade distorcida.Enquanto se recupera de um trauma devastador, o jovem Doug tenta juntar as peças do seu passado. Sua paixão por Sarah, uma estudante de artes brilhante e atormentada; a doença do pai. O que de fato aconteceu? Entre homens-lagarto, ovos verdes gigantes e a cena punk do final dos anos 1970, a história vai sendo montada e desmontada. Como se Hergé encontrasse Burroughs num pesadelo de David Lynch, Charles Burns funde ação e mistério e mantém o leitor num estado de constante tensão nesta que é a reunião de sua célebre trilogia — X’ed Out, The Hive e Sugar Skull. Em que medida podemos confrontar o passado e conhecer a nossa própria história? É possível voltar atrás?
É impossível resenhar esse livro sem querer usar a palavra surreal várias e várias vezes. Alternando entre a vida pacata de Doug e seu universo paralelo com lagartos humanóides e mulheres parideiras de ovos, Charles, num primeiro momento, conseguiu fazer com que eu ficasse perdida na leitura desde livro - ou espantada seria a palavra correta?

Aos poucos, as duas realidades paralelas de Doug começam a convergir e você passa a enxergar o sentido e o sofrimento por trás das alucinações (ou mergulhos na memória?) de Doug. Seus traumas, sua história de amor mal acabada, seus erros, seus arrependimentos. Tudo isso abordado num cenário pós-apocalíptico que parece completar as lacunas deixadas na memória de Doug sobre sua juventude rebelde e seu namoro não convencional com uma aspirante a fotógrafa.

Apesar de ser um quadrinho colorido e bastante lúdico, sua leitura passa longe de ser considerada leve. A temática realista - apesar da narrativa alternar entre o real e o imaginário - traz muitos sentimentos negativos e nos leva, inconscientemente, a pensar na brevidade da vida e na irreversibilidade de nossas escolhas. 

Foi, de longe, o quadrinho mais sombrio que já li. Não apela para o terror ou o suspense previsível, mas faz com que o sofrimento e a angústia do protagonista cheguem até o leitor e o toquem. Mas o toquem de verdade: nada de toques superficiais na alma, o autor parece querer que você se angustie um pouco juntamente com o personagem. E se era isso que Charles Burns queria, devo-lhe os parabéns, pois ele conseguiu.


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