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27.12.18

{Resenha} No seu pescoço



Título original: The thing around your neck
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie vem conquistando um público cada vez maior, tanto no Brasil como fora dele. Em 2007, seu romance Meio sol amarelo venceu o National Book Critics Circle Award e o Orange Prize de ficção, mas foi com o romance seguinte, Americanah, que ela atingiu o volume de leitores que a alavancou para o topo das listas de mais vendidos dos Estados Unidos, onde vive atualmente. Ao trabalho de ficcionista, somou-se a expressiva e incontornável militância da autora em favor da igualdade de gêneros e raça. Agora é a vez de os leitores brasileiros conhecerem a face de contista dessa grande autora já consagrada pelas formas do romance e do ensaio. Publicado em inglês em 2009, No seu pescoço contém todos os elementos que fazem de Adichie uma das principais escritoras contemporâneas. Nos doze contos que compõem o volume, encontramos a sensibilidade da autora voltada para a temática da imigração, da desigualdade racial, dos conflitos religiosos e das relações familiares. Combinando técnicas da narrativa convencional com experimentalismo, como no conto que dá nome ao livro - escrito em segunda pessoa -, Adichie parte da perspectiva do indivíduo para atingir o universal que há em cada um de nós e, com isso, proporciona a seus leitores a experiência da empatia, bem escassa em nossos tempos.

Tenho descoberto a escrita incrível dessa autora nos últimos meses. Li (e ainda não resenhei, sorry pipols) Meio sol amarelo e me encantei pelo modo simples que ela nos apresenta a Nigéria na época da Biafra… E fiquei impressionada com  o tanto de coisa que eu não sei sobre o continente africano. De sua história rica que é culturalmente apagada por diversos ramos da história e que precisa surgir e ser desesperadamente ensinado nas nossas escolas.
[...] Ele contou que os ingleses tinham roubado as máscaras originais no final do século XIX, durante o que chamaram de Expedição Punitiva; contou como os ingleses gostavam de usar palavras como "expedição" e "pacificação" para descrever os atos de matar e roubar. [...]- Réplica
Mas enfim… Chimamanda apresenta No seu pescoço 12 contos variados, sem nenhuma ligação entre os personagens – embora eu tenha visto um dos personagens de Meio sol amarelo ali, ou quero acreditar que era huahuahuah.

Eu fiz muitas marcações em todos os contos, coisas que me fizeram pensar ou me deram um pequeno baque. São contos que falam da realidade que os nigerianos vivem, tanto em seu país quanto fora dele. Política, ditadura militar, preconceitos, pobreza… Acho que ocorrem no geral entre 1920~1990, nem todos possuem uma data específica.

O que fica sempre muito claro é a desigualdade com a qual os homens e as mulheres são tratadas. Que, embora as mulheres sejam portadoras de títulos de faculdade, os homens sempre a diminuem de algum modo. Em um conto isso ficou ainda mais escancarado, mas não somente pelo fato da personagem ser mulher, mas de outro personagem dizer que aquilo que ela dizia sobre o país onde ela viveu a vida toda não era a realidade. Que isso não aconteceria. Ah vá!
"Mas por que nós não dizemos nada?" Perguntou Ujunwa, erguendo a voz e olhando para os outros. "Por que nunca dizemos nada?" - Jumping Monkey Hill
Também mostrou a realidade dos professores que, mesmo com seus mestrados e doutorados, não conseguem trabalho para se manter... Ou o governo não os pagava. A situação parecia só piorar.

Uma coisa frequente nos contos é a emoção que surge através das situações e o modo com o qual a autora escreve. É tocante ver o que as pessoas ali descritas fazem em busca de uma melhora, ou como encaram a vida. Cada conto tem um personagem muito forte, marcante... Não sei se eu conseguiria escolher a melhor personagem de todos os contos de No seu pescoço... Mas para mim o melhor conto é o último. Acredito que mostra muito bem como a presença dos europeus influenciaram na África para a pior, desejando apagar toda a cultura que já estava criada. Muita coisa é errada e contra os direitos humanos lá até hoje? Definitivamente, sim. Mas a cultura precisa ser escrita e apreendida e não apagada como foi, em especial pelas missões cristãs.

A imigração também foi tema constante e como eles lidam com ela. O que fazem, o choque de culturas... Muitas vezes precisam até mudar de nomes para o conforto das pessoas do novo país. E como isso também faz, muitas vezes, com que sua personalidade acabe perdida de algum modo. É um mundo triste e cruel.

Em alguns contos é como se a autora transformasse o leitor no personagem, contando como as coisas lhe aconteceram. É um estilo muito interessante e que aproxima bastante aquele que lê do que está acontecendo. Acho que foi uma das primeiras vezes que me deparei com uma escrita assim. Magnífico, simplesmente.
Apesar de ter só dez anos, você soube que algumas pessoas podem ocupar espaço demais apenas sendo; que, apenas existindo, algumas pessoas podem sufocar as outras. - Amanhã é tarde demais

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