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21.1.19

{Resenha} As fúrias invisíveis do coração


Título Original: The heart’s invisible furies
Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: Cyril Avery não é um Avery de verdade ou, pelo menos, é o que seus pais adotivos lhe dizem. E ele nunca será. Mas se não é um Avery, então quem é ele? Nascido nos anos 1940, filho de uma jovem solteira expulsa de sua comunidade e criado por uma família rica irlandesa, Cyril passará a vida inteira à mercê da sorte e da coincidência, tentando descobrir de onde veio — e, ao longo de muitos anos, lutará para encontrar uma identidade, uma casa, um país e muito mais. Além das incertezas de sua origem, ele tem de enfrentar outro dilema: é gay numa sociedade que não admite sua orientação sexual. Autor do best-seller O menino do pijama listrado, John Boyne nos apresenta à sua maior empreitada literária até então, construindo uma saga arrebatadora sobre aceitar-se e ser aceito num mundo que pode ser cruelmente hostil. Uma leitura necessária para os dias de hoje, que reitera o poder do amor, da esperança e da tolerância.
Mail on Sunday falou o seguinte sobre esse livro: “Inteligente, espirituoso e extremamente triste. Um romancista em seu auge.”

E eu discordo. Não da parte do romancista, sobre : extremamente triste. Por quê?

Catherine Goggins tinha 16 anos quando descobriu-se grávida em uma pequena cidade da Irlanda em 1945. Um país extremamente religioso, cujos governantes permitia que a igreja desse pitacos no governo, o que resultava em crítica às mulheres e submissão extrema da mesma. E que permitia que essas jovens fossem escorraçadas da cidade pelos padres que lhes agrediam, mandavam e desmandavam em suas famílias.

Sem muito dinheiro, apenas umas poucas economias e negando qualquer ajuda do pai da criança que, como sua família não fez nada para impedir que o padre a expusesse e expulsasse, ela partiu para Dublin em busca de uma vida que ela pudesse viver. Durante a viagem, além de um plano para sobreviver, desceu do ônibus com um rapaz muito bonito que se dispôs a lhe ajudar. Só precisavam convencer o amigo dele a aceitá-la na casa até que Catherine conseguisse se ajeitar.

Pois bem. Vida ligeiramente resolvida, trabalhando em um salão de chá – e não qualquer salão, é o Dáil Éreann, o Parlamento Irlândes. -, continua morando com os dois amigos e sua vida está parcialmente resolvida. E são nesses momentos que as tempestades da vida nos alcançam, desequilibrando tudo.

Passamento então para Cyril Avery, um menino de 7 anos peculiar com uma família peculiar. Charles e Maude Avery o adotaram com poucos dias de vida. Charles é um banqueiro que está sendo investigado pelo Fisco e Maude é uma escritora que  não entende porque as pessoas leem seus livros e ainda gostam deles! O sucesso para ela é sinônimo de fracasso. E Cyril... Não é um Avery de verdade, como seus pais – pais adotivos – sempre lhe dizem e ele sempre lembra as pessoas desse fato.

Um dia, ainda durante seus 7 anos, o advogado de Charles, Max Woodbead, realiza uma visita a Darthmouth Square e leva seus filhos: Alice e Julian Woodbead na visita. Curioso por ver aquelas duas peças – uma delas por não mais que dois segundos, mas dali nasce uma amizade que perdura anos e anos. Porém, para Cyril, a coisa toda vai mais além: ele descobre que sente algo mais que amizade pelo amigo.

Max e Julian moram no mesmo quarto no colégio interno, onde vivem suas primeiras aventuras. Com fugas e apanhando dos padres que eles sabem que ficam excitados com as surras, eles se formam e as vidas meio que se afastam.

Cyril já é um homem formado e trabalha no funcionalismo público num gabinete de ministro. Sabe-se gay, mas mantém oculto de todos. Por quê? Ser gay na Irlanda era proibido e passível de prisão. Uma desgraça para aquela sociedade moralista e retrógrada. Vemos através dele como os gays viviam: com famílias falsas, pagando adolescentes em becos ou fazendo sexo inseguro em banheiros públicos. Para sanar uma necessidade física, se arriscavam a contrair doenças, serem mortos ou presos simplesmente por uma injustiça da sociedade da época.

Vemos como o preconceito é grande, como as pessoas se acham capazes de julgar os outros através de algumas figuras que nosso protagonista vai encontrando em seu caminho. Até que, após um acontecimento fatídico, ele acaba se exilando na Holanda. E lá, pela primeira vez, ele de fato é amado e ama alguém.

Um ponto que acredito que é comum nos livros de John Boyne é o tema da Segunda Guerra Mundial. Pode não ser sobre isso de fato, mas mostra algumas de suas consequências. Tratado com muita sutileza e raiva, isso não passa em branco.

Após alguns anos, Cyril e sua família partem para os EUA. Afinal, um deles se torna um médico muito famoso no ramo das DST’s e aí entramos na época em que o HIV está epidêmico. A vergonha assola o país, pois tratam a doença como exclusiva dos homossexuais, quando naa verdade não é. Todos sabemos disso, mas a humanidade tem a tendência de demonizar aquilo que não conhece. Cyril faz trabalho voluntário e conversa com diversas dessas vítimas cuja família o preconceito manteve distante.

Já muito mais velho, ele decide voltar para sua terra natal, após muitas perdas e ganhos. E é aqui que eu discordo do nosso amigo do Mail on Sunday: apesar de toda uma trajetória triste, de tantos tormentos e desassossegos, Cyril finalmente encontra seu lugar. Finalmente pode olhar para trás e rever toda sua, decidir o que poderia ter mudado ou não e conviver com essas escolhas. Ainda serão dias de luta, serão dias de espera e dias de calma. Acredito que o final foi o que teve de ser.

Um encontro tremendamente desejado por aquele que lê (pelo menos foi o meu caso), depois de tantos desencontros. É lindo, como deveria ser. Perfeito em todas as suas imperfeições.

É um livro sensível que narra através de Cyril toda a luta de uma pessoa que busca pelo direito de amar. John Boyne acertou em cheio em tudo nesse livro, desde sua escrita impecável, quanto aos detalhes dados para cada personagem. Suas vidas, as histórias que contam... E de um humor que me arrancou gargalhadas enquanto eu lia.

Sinceramente... meu 2019 começou muito bem.

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