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25.1.19

{Resenha} Cloro


Autor: Alexandre Vidal Porto
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: Até que ponto é possível se esconder de si mesmo? Neste livro, uma tragédia familiar desestrutura a vida burguesa de um homossexual no armário. Um pequeno estudo sobre a força irresistível da sexualidade.
Em Cloro, Constantino é um defunto autor. No limbo em que se encontra, ele rememora fatos decisivos de sua vida — até a morte inesperada, aos cinquenta anos de idade. Advogado bem estabelecido em São Paulo, aprendeu na infância que “ser bicha não era bom”. Sempre escondeu seu desejo. Desde cedo, incorporou um personagem heterossexual. Casou-se com Débora, sua namorada de adolescência, e foi pai de dois filhos. Um acontecimento trágico rompe o frágil equilíbrio em que se mantinha, e ele é confrontado com sua homossexualidade. Passa a levar uma vida dupla. Encontra-se com homens e apaixona-se por Emílio, diplomata que conhece em Brasília. Pela voz de Constantino e depoimentos de seus familiares e amigos, Alexandre Vidal Porto oferece uma narrativa lúcida e necessária para os tempos atuais — quando ser você mesmo é um ato de coragem.
Trago um livro que enfim consegui terminar, não por não gostar dele, mas sim por odiar o personagem e as conquistas dele ao longo de sua vida ficcional.

Já devem ter notado que adoro livros LGBT, são livros que sempre existiram e quase nunca os encontro, então sempre que tenho oportunidade consigo algum para ler, são histórias que na maioria das vezes não possuem aquele clichê chato que vemos em romances héteros e coisas assim. Notem que eu disse “na maioria das vezes” (risos).

Bom, em “Cloro”, acompanhamos Constantino e sua vida de segredos e desejos reprimidos. Pela sinopse e primeira página, sabemos que o personagem morreu de forma inesperada e nos conta sua vida do limbo, pois a morte finalmente o liberou do peso que sempre carregou em vida. Constantino morrera nu, vítima de um AVC em um banheiro comunitário de um país estrangeiro, devido à situação de sua morte, se sentiu obrigado a contar a seu leitor seu passado.
“Morri, mas não vi a cara da morte.”
Constantino se descreve como homem branco de bem, um metro e noventa e dois de altura, noventa e seis quilos, cabelos castanhos e grisalhos, pai de dois filhos, marido ausente de sua esposa Débora e “amigo” de Emílio. Vejam bem, amigo ali entre aspas pois nosso personagem é um gay que nunca saiu do armário.
“Tem gente que passa a vida fugindo de uma coisa sem compreender que não existe fuga possível, que não adianta lutar, que não adianta querer ter controle. Foi o que aconteceu comigo. [...]”
Quando mais novo, um pequeno trauma fez com que ele se reprimisse, enfiando-se nos fundos do armário e se trancando nele. Constantino era um tanto afeminado, isso dava ao seu coleguinha, Marcos Bauer, a se aproveitar dele, imitando seus gestos e jeito de falar, criava fama na sala uma vez que seus outros colegas riam de suas brincadeiras. Até que certa vez, Marcos chama Constantino de “bicha” dando-lhe um soco na cara em seguida. O soco não doera tanto no menino quanto a palavra, e foi essa palavra a chave do seu armário.
“Durante muitos anos, agradeci a Marcos Bauer o alerta antecipado. Ele me serviu como aviso de que ser bicha não era bom. Tive tempo de me preparar. Por anos valorizei esse ensinamento.”
Constantino passou a tentar criar um “homem de bem”, mudando os gestos, o jeito de falar e andar, passou anos de sua vida se controlando. Seu plano de vida se tornou arrumar uma namorada, se casar e ter filhos, viver como homem, como cidadão cristão e de bem (ora, ora, incrível quando um livro parece se encaixar tanto com a realidade de seu país).

Casa-se com Débora aos vinte e poucos anos, a quem conheceu com quinze anos e sente-se realizado, finalmente sua vida estava se encaixando no padrão “de bem”. A mulher tenta se separar dele certa vez, mas isso atrapalharia seus planos, então ele dá seu jeito de fazê-la voltar. Tem dois filhos com ela, mas infelizmente um deles morre em uma terrível tragédia onde não encontraram culpados.

A mulher tem uma vida de miséria emocional, quase nunca tem as carícias de um casamento, seu marido é distante e ainda perde um de seus filhos.

Em suas viagens de negócios da ONG Semprepaz (outra coisa que entra em nossa discussão atual no país, a ONG luta contra o desarmamento, pois o fundador perdeu sua filha por uma arma nas mãos de cidadão de bem), Constantino descobriu aplicativos de encontros, o qual usava para dormir com outros homens casados que buscavam “diversão fora do casamento”.
“Quanto menos armas, menos tiros; menos tiro, menos mortos. É simples assim.”
E por causa disso acabei demorando um pouco para finalizar essa história, um misto de raiva e descontentamento com Constantino por enganar a todos. A vida fora do armário pode ser difícil, mas dentro dele pode ser mais ainda tanto para a pessoa fechada lá dentro quanto para os enganados ao seu redor.

Houve momentos no livro que meus olhos brilhavam ao ler, mas então me lembrava de que o personagem estava traindo sua mulher para dormir com homens e ainda usava seu dinheiro para isso, além de passar a vida toda repudiando aqueles que se assumiam abertamente.

É um bom livro, mas me irritou sempre que lia várias coisas. Narrado em primeira pessoa, possui palavras fortes e descrições pesadas. Além de ser uma coisa bem comum de se acontecer, talvez exatamente por ser comum que me deixava nervosa (risos).

1 comentários:

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