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25.1.19

{Resenha} Cloro


Autor: Alexandre Vidal Porto
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: Até que ponto é possível se esconder de si mesmo? Neste livro, uma tragédia familiar desestrutura a vida burguesa de um homossexual no armário. Um pequeno estudo sobre a força irresistível da sexualidade.
Em Cloro, Constantino é um defunto autor. No limbo em que se encontra, ele rememora fatos decisivos de sua vida — até a morte inesperada, aos cinquenta anos de idade. Advogado bem estabelecido em São Paulo, aprendeu na infância que “ser bicha não era bom”. Sempre escondeu seu desejo. Desde cedo, incorporou um personagem heterossexual. Casou-se com Débora, sua namorada de adolescência, e foi pai de dois filhos. Um acontecimento trágico rompe o frágil equilíbrio em que se mantinha, e ele é confrontado com sua homossexualidade. Passa a levar uma vida dupla. Encontra-se com homens e apaixona-se por Emílio, diplomata que conhece em Brasília. Pela voz de Constantino e depoimentos de seus familiares e amigos, Alexandre Vidal Porto oferece uma narrativa lúcida e necessária para os tempos atuais — quando ser você mesmo é um ato de coragem.
Trago um livro que enfim consegui terminar, não por não gostar dele, mas sim por odiar o personagem e as conquistas dele ao longo de sua vida ficcional.

Já devem ter notado que adoro livros LGBT, são livros que sempre existiram e quase nunca os encontro, então sempre que tenho oportunidade consigo algum para ler, são histórias que na maioria das vezes não possuem aquele clichê chato que vemos em romances héteros e coisas assim. Notem que eu disse “na maioria das vezes” (risos).

Bom, em “Cloro”, acompanhamos Constantino e sua vida de segredos e desejos reprimidos. Pela sinopse e primeira página, sabemos que o personagem morreu de forma inesperada e nos conta sua vida do limbo, pois a morte finalmente o liberou do peso que sempre carregou em vida. Constantino morrera nu, vítima de um AVC em um banheiro comunitário de um país estrangeiro, devido à situação de sua morte, se sentiu obrigado a contar a seu leitor seu passado.
“Morri, mas não vi a cara da morte.”
Constantino se descreve como homem branco de bem, um metro e noventa e dois de altura, noventa e seis quilos, cabelos castanhos e grisalhos, pai de dois filhos, marido ausente de sua esposa Débora e “amigo” de Emílio. Vejam bem, amigo ali entre aspas pois nosso personagem é um gay que nunca saiu do armário.
“Tem gente que passa a vida fugindo de uma coisa sem compreender que não existe fuga possível, que não adianta lutar, que não adianta querer ter controle. Foi o que aconteceu comigo. [...]”
Quando mais novo, um pequeno trauma fez com que ele se reprimisse, enfiando-se nos fundos do armário e se trancando nele. Constantino era um tanto afeminado, isso dava ao seu coleguinha, Marcos Bauer, a se aproveitar dele, imitando seus gestos e jeito de falar, criava fama na sala uma vez que seus outros colegas riam de suas brincadeiras. Até que certa vez, Marcos chama Constantino de “bicha” dando-lhe um soco na cara em seguida. O soco não doera tanto no menino quanto a palavra, e foi essa palavra a chave do seu armário.
“Durante muitos anos, agradeci a Marcos Bauer o alerta antecipado. Ele me serviu como aviso de que ser bicha não era bom. Tive tempo de me preparar. Por anos valorizei esse ensinamento.”
Constantino passou a tentar criar um “homem de bem”, mudando os gestos, o jeito de falar e andar, passou anos de sua vida se controlando. Seu plano de vida se tornou arrumar uma namorada, se casar e ter filhos, viver como homem, como cidadão cristão e de bem (ora, ora, incrível quando um livro parece se encaixar tanto com a realidade de seu país).

Casa-se com Débora aos vinte e poucos anos, a quem conheceu com quinze anos e sente-se realizado, finalmente sua vida estava se encaixando no padrão “de bem”. A mulher tenta se separar dele certa vez, mas isso atrapalharia seus planos, então ele dá seu jeito de fazê-la voltar. Tem dois filhos com ela, mas infelizmente um deles morre em uma terrível tragédia onde não encontraram culpados.

A mulher tem uma vida de miséria emocional, quase nunca tem as carícias de um casamento, seu marido é distante e ainda perde um de seus filhos.

Em suas viagens de negócios da ONG Semprepaz (outra coisa que entra em nossa discussão atual no país, a ONG luta contra o desarmamento, pois o fundador perdeu sua filha por uma arma nas mãos de cidadão de bem), Constantino descobriu aplicativos de encontros, o qual usava para dormir com outros homens casados que buscavam “diversão fora do casamento”.
“Quanto menos armas, menos tiros; menos tiro, menos mortos. É simples assim.”
E por causa disso acabei demorando um pouco para finalizar essa história, um misto de raiva e descontentamento com Constantino por enganar a todos. A vida fora do armário pode ser difícil, mas dentro dele pode ser mais ainda tanto para a pessoa fechada lá dentro quanto para os enganados ao seu redor.

Houve momentos no livro que meus olhos brilhavam ao ler, mas então me lembrava de que o personagem estava traindo sua mulher para dormir com homens e ainda usava seu dinheiro para isso, além de passar a vida toda repudiando aqueles que se assumiam abertamente.

É um bom livro, mas me irritou sempre que lia várias coisas. Narrado em primeira pessoa, possui palavras fortes e descrições pesadas. Além de ser uma coisa bem comum de se acontecer, talvez exatamente por ser comum que me deixava nervosa (risos).

{Tête à Tête} Vamos conversar um pouquinho


Vamos conversar com a amiguinha aqui. 

Eu ia dizer “titia”, mas não sei se estou pronta pra isso, huahuahuah! 

Estava conversando com uma pessoa sobre mercado editorial, que me fez pensar um pouco. Livros em inglês alcançam um mercado maior? 

Aí minha pergunta foi a seguinte: mas se fizer em português também, não alcança ainda mais pessoas? 

Isso surgiu porque dá a entender que nós, leitores, consumimos mais literatura estrangeira do que as nacionais... O que, de certo modo, não deixa de ser verdade. 

Temos a tendência absurda de valorizar mais o que é produzido por outros países, seja o que for, do que é feito aqui em nossas próprias terras. Nada do que é do Brasil é duradouro, é bom, é melhor. Tem gente que só compra algo se veio dos EUA. 

Só damos valor para o que é de fora. Está tudo okay, vamos mudar de país, vamos para a Rússia falando só um inglesinho básico que tenho certeza que lá todo mundo vai me entender! Afinal, só precisamos do inglês para sobreviver no mundo! Yay! 


E é por isso que acreditamos que a literatura nacional não tem valor. É pior. É claro, não é bem investida, as pessoas não dão oportunidade para isso. Nos últimos anos tenho lido mais livros nacionais e alguns me pegaram de surpresa... E porquê? Porque eu também pensava assim, até começar a dar chance. Poxa, tem tantos autores nacionais que fazem sucesso fora do próprio país e aqui só falam mal deles! 

Novas editoras estão surgindo no mercado como uma chance para nossos autores mostrarem seus trabalhos, com ótimos serviços disponíveis... Desde criação de capas a revisão de texto. Basta procurar uma que se identifica com você e seu trabalho e acredito que conseguirá lançar seu livro. 

E como o blog As meninas que leem livros, tenho certeza que outros blogs também ajudam num up de divulgação, sem cobrar (como nós), ou cobrar menos, provavelmente. Sei o quanto é difícil para novos autores venderem suas obras, então faço o possível para ajuda-los nessa parte. 

Mas a desvalorização do nosso país por nós mesmos se estende não só a literatura, mas também ao sistema de ensino. Só ver que algumas das melhores escolas em diversos países usam Paulo Freire (Paulo Freire é o terceiro teórico mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo)... E no Brasil existem pessoas que repudiam! 

Nossa ciência é desmerecida e surrada por um governo que não valoriza nossos cientistas. Não valoriza nossas reservas ambientais... Nada. 

Anyway. Hoje tivemos mais um desastre de lama, né? Mais uma barragem tóxica que detona todo um ecossistema que já está em risco por n fatores (um deles um desgoverno que diz que tem compromisso com o meio ambiente, mas anda pro lado contrário disso), projetos com caça de animais silvestres liberada, desmatamento, liberação de agrotóxicos perigosíssimos... 

200 desaparecidos. E quantos animais mortos...? O grande impacto ecológico/econômico/social que isso irá causar... Mais um. Nada foi aprendido com o crime de Mariana. Nada. 

E isso é só o começo. Tem ainda o genocídio indígena que começou. Tantas pessoas inocentes perdendo suas terras por meros interesses das indústrias. 

E o erro é suavizado. É um garoto. Não sabe o que faz. 


Não tenho tido paciência para certas coisas e certas pessoas. Tenho debatido muito, tenho conversado muito. Não é possível que nosso país vale tão pouco assim. Só algumas armas. Não é possível que a vida dos brasileiros seja tão... Tão... Ah. Não sei nem falar. 

Grande parte de nossa população está cega. E sempre vamos apontar que é o outro que está cego, não nós. O que você já percebeu que seleciona não ver? Já pensou nisso? Qual pequena ignorância é seu conforto? 

Algumas pessoas me perguntaram como estou me sentindo ficando mais velha (lembrando que meu aniversário é domingo, hehe!). E só consigo pensar: desesperançada. Estamos andando sozinhos, tentando nos segurar... Mas quando uma pessoa vem e diz que uma ou outra coisa é bonita e a outra é feia, as pessoas usam padrões de beleza socialmente construídos para comparar, sendo que a questão nem é essa... É toda uma luta contra essa sociedade que quer nos fazer sentir mal por não sermos desse ou daquele jeito, nos deixando doentes física, psíquica e emocionalmente. 

É quando dizemos que um cara de 30 anos não sabe o que faz, mas um menino de 16 sabe muito bem. E uma menina de 10 sabe ainda mais, porque essas novinhas já tão querendo! Quando alguns jornalistas são os únicos que conseguem investigar os figurões graças a uma lei de livre informação... E essa lei é suspensa para não atingir mais os figurões. 

Ai gente... Tá difícil ter alguma esperança. Tento ver as notícias do Razões para acreditar para melhorar a deprê, mas cada dia é um soco diferente!


Aí eu fico: Mas a vida é assim. É cheia de socos e chutes e momentos de calma... Aí mais pontapés, aí calma... Mas num tem psicológico que aguente, gente! <o> 

Huhauhauhuha 

Não to dizendo que vou desistir da humanidade. Enquanto me houver forças, eu vou continuar observando, discutindo, agindo... Ajudando como posso. Fazendo reflexões e ajudando as pessoas a refletirem sobre o que está sendo dito e tirarem suas próprias conclusões. 

Sei lá, gente... foi só um desabafo. 


É isso.... Mantenha-se bebendo água!

23.1.19

{Resenha} O Vendedor de Sapatos



Autor: Bruno Peres

Editora: Alicanto
Ano: 2017
Sinopse: Em O Vendedor de Sapatos, conhecemos o jovem Ricardo, que depois de diversas frustrações pessoais acaba indo parar em uma viagem de carro com o seu tio-avô Alberto, um carismático senhor que vende calçados a bordo de uma Caravan 1982.
Desacreditado que essa viagem poderia ser divertida, Ricardo caminha o tempo todo desconfiado, mas vai mudando de ideia ao compreender o que realmente vale a pena na vida e quais são os valores imprescindíveis que devemos levar em consideração, como ajudar uma criança a voltar a estudar ou ainda socorrer uma mulher em trabalho de parto no meio da estrada!
O livro nos transporta à jornada do “Ser” ao invés de “Ter” apresentando sobre uma nova perspectiva um antigo ensinamento:
Fazer o bem não importa a quem.
“As histórias deste livro são dedicadas a todos que acreditam e lutam, todos os dias, em busca de seus objetivos. Àqueles que não desistem diante de momentos difíceis e que, ao longo do percurso, descobrem que a felicidade está no caminho e não apenas no objetivo final.”

O Vendedor de Sapatos começa com essa dedicatória, totalmente vinculada à história do livro, que mostra, em uma narrativa simples e fluida, que temos muito a aprender em nosso caminho, antes de atingirmos nossos objetivos.

Tudo começa com os planos de Ricardo para sua viagem dos sonhos dando errado. Seu amigo Pedro, que o acompanharia em suas aventuras pela América do Sul, avisou na véspera da viagem que não poderia mais ir, pois havia retomado o relacionamento com a ex-namorada.

Essa situação gerou um desentendimento entre os amigos em seu ambiente de trabalho e, de cabeça quente, Ricardo acabou abandonando o emprego, desistindo da viagem e pegando um ônibus em direção à casa dos pais, no interior.

Sem planos mais interessantes para suas “férias”, Rick aceitou o convite de seu tio-avô Alberto para ajudá-lo em seu trabalho como vendedor de sapatos, viajando em uma Caravan 1982 azul. O que ele não sabia é o quanto iria aprender durante esses dias na companhia do tio Alberto.

Conforme eles iam passando por novas cidades e conhecendo novas pessoas, Rick começou a entender que o tio fazia muito mais do que vender sapatos, ajudando as pessoas que encontravam no caminho de várias outras formas.

Rick e Alberto também passaram por dificuldades na estrada, inclusive com o roubo de sua mercadoria. Apesar da raiva que isso desperta em Rick, Alberto o ensina a assumir seus próprios erros, e nunca culpar outras pessoas nessas situações.

 “- Você ainda segue culpando seu amigo por não ter feito a tal viagem de seus sonhos. Você ainda desperdiça suas energias culpando os outros por tudo o que acontece em sua vida. Os ambientes não estão bons, o chuveiro não é dentro do seu quarto, como gostaria ou acreditava que era em todos os lugares. A internet não funciona. E o que mudou em você? O que você fez para mudar?”

Rick realmente era um cara muito chato. Que vivia de mau humor, reclamando sempre de tudo. Mas com o passar do tempo, ele vai assimilando os acontecimentos e as lições do tio, e começa a amadurecer e olhar para todo um novo mundo além do seu próprio umbigo.

O despretensioso livro de Bruno Peres chegou a mim por acaso, e foi lido bem rapidamente. A escrita e o enredo são leves e fluem super bem, nos trazendo reflexões sobre nossos valores e nosso modo de encarar a vida a cada capítulo.

Sempre falo nas minhas resenhas que adoro ver personagens amadurecendo, se tornando pessoas melhores, com mais empatia e menos egoísmo. Rick aprende com o amor e também com a dor, que não temos o poder de controlar tudo o que acontece ao nosso redor, mas podemos usar TUDO o que acontece para o nosso aprendizado e evolução. Gostei!


22.1.19

{Resenha} Celular


Titulo: Celular
Autor: Stephen King
Editora: Suma
Nº de Páginas: 384
Classificação: 3/5
Sinopse: Onde você estava no dia 1º de outubro? O protagonista Clay Riddell estava em Boston, quando o inferno surgiu diante de seus olhos. Bastou um toque de celular para que tudo se transformasse em carnificina. Stephen King - que já nos assustou com gatos, cachorros, palhaços, vampiros, lobisomens, alienígenas e fantasmas, entre outros personagens malévolos - elegeu os zumbis como responsáveis pelo caos desta vez.
Depois de anos de tentativas frustradas, o artista gráfico Clay Riddell finalmente consegue vender um de seus livros de histórias em quadrinhos. Para comemorar, decide tomar um sorvete. Mas, antes de poder saboreá-lo, as pessoas ao seu redor, que por acaso falavam ao celular naquele momento, enlouquecem.
Fora de si, começam a atacar e matar quem passa pela frente. Carros e caminhões colidem e avançam pelas calçadas em alta velocidade, destruindo tudo. Aviões batem nos prédios. Ouvem-se tiros e explosões vindos de todas as partes.
Neste cenário de horror, Clay usa seu pesado portfolio para defender um homem prestes a ser abatido, Tom McCourt, e eles se tornam amigos. Juntos, eles resgatam Alice Maxwell, uma menina de 15 anos que sobreviveu a um ataque da própria mãe.
Os três sortudos - entre outros poucos que estavam sem celular naquele dia - tentam se proteger ao mesmo tempo em que buscam desesperadamente o filho de Clay. Assim, em ritmo alucinante, se desenrola esta história. O desafio é sobreviver num mundo virado às avessas. Será possível?

Seria mais um dia banal na vida de Clay, mas um evento fora do comum faz com que o País inteiro vire de cabeça pra baixo de uma hora pra outra,aquele mundo em que vivia não existe mais,ao mesmo tempo em que ele não consegue acreditar no que está acontecendo ele tem que sobreviver aos ataques ensandecidos das pessoas ao seu redor.

Em meio a essa total loucura Clay acaba conhecendo Tom um cara meio nerd mas que foi de grande ajuda para Clay,quando eles menos esperam uma garota toda ensanguentada aparece pedindo ajuda,assim o trio tenta absorver qual o próximo passo darão em seguida,de inicio eles ficam abrigados na casa de Tom onde podem descansar e traçar um plano de sobrevivência diante disso Clay decide voltar para sua casa para encontrar o filho e a ex esposa.

Com Obsessão do Clay em voltar para casa Tom e Alice decidem acompanha-lo,e a cada dia que passa eles compreendem e formulam algumas teorias que fica mais evidente depois que eles conhecem mais algumas pessoas como eles,e para a grande surpresa de todos o líder dos "fonaticos" entra em contato com eles através de sonhos mostrando para onde eles devem ir,será uma armadilha? Clay irá encontrar sua família nesse local que eles devem ir? Só lendo pessoal =]

Fiquei bastante interessada nessa leitura quando li a sinopse,e curto bastante os livros do King,a estória te pega logo pela sinopse mas como nem tudo são flores..vamos lá né?!! Achei a estória um pouco arrastada,muitas cenas iguais o que tornava a leitura um pouco lenta. Um pouco tempo depois fiquei sabendo que tinha o filme baseado nesse livro e claro que eu tinha que conferir e qual minha surpresa com esse filme?? DECEPÇÃO total!!! Eles mudaram somente tudo,só deixaram os nomes dos personagens,mudaram a ordem dos acontecimentos e incluíram personagens e cenas que nem tem no livro.

Tenho certeza que esses roteiristas tem uma matéria na faculdade de como foder um filme baseado em livro porque sinceramente não é possível o filme é uma completa porcaria e justo com um dos meus atores favoritos,Samuel L Jackson (Tom),junto com John Cusak (Clay) e a psicocrazy de a Orfã Isabelle Fuhrman (Alice). Vocês podem achar o filme com o titulo Celular ou Conexão Mortal.

21.1.19

{Resenha} As fúrias invisíveis do coração


Título Original: The heart’s invisible furies
Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: Cyril Avery não é um Avery de verdade ou, pelo menos, é o que seus pais adotivos lhe dizem. E ele nunca será. Mas se não é um Avery, então quem é ele? Nascido nos anos 1940, filho de uma jovem solteira expulsa de sua comunidade e criado por uma família rica irlandesa, Cyril passará a vida inteira à mercê da sorte e da coincidência, tentando descobrir de onde veio — e, ao longo de muitos anos, lutará para encontrar uma identidade, uma casa, um país e muito mais. Além das incertezas de sua origem, ele tem de enfrentar outro dilema: é gay numa sociedade que não admite sua orientação sexual. Autor do best-seller O menino do pijama listrado, John Boyne nos apresenta à sua maior empreitada literária até então, construindo uma saga arrebatadora sobre aceitar-se e ser aceito num mundo que pode ser cruelmente hostil. Uma leitura necessária para os dias de hoje, que reitera o poder do amor, da esperança e da tolerância.
Mail on Sunday falou o seguinte sobre esse livro: “Inteligente, espirituoso e extremamente triste. Um romancista em seu auge.”

E eu discordo. Não da parte do romancista, sobre : extremamente triste. Por quê?

Catherine Goggins tinha 16 anos quando descobriu-se grávida em uma pequena cidade da Irlanda em 1945. Um país extremamente religioso, cujos governantes permitia que a igreja desse pitacos no governo, o que resultava em crítica às mulheres e submissão extrema da mesma. E que permitia que essas jovens fossem escorraçadas da cidade pelos padres que lhes agrediam, mandavam e desmandavam em suas famílias.

Sem muito dinheiro, apenas umas poucas economias e negando qualquer ajuda do pai da criança que, como sua família não fez nada para impedir que o padre a expusesse e expulsasse, ela partiu para Dublin em busca de uma vida que ela pudesse viver. Durante a viagem, além de um plano para sobreviver, desceu do ônibus com um rapaz muito bonito que se dispôs a lhe ajudar. Só precisavam convencer o amigo dele a aceitá-la na casa até que Catherine conseguisse se ajeitar.

Pois bem. Vida ligeiramente resolvida, trabalhando em um salão de chá – e não qualquer salão, é o Dáil Éreann, o Parlamento Irlândes. -, continua morando com os dois amigos e sua vida está parcialmente resolvida. E são nesses momentos que as tempestades da vida nos alcançam, desequilibrando tudo.

Passamento então para Cyril Avery, um menino de 7 anos peculiar com uma família peculiar. Charles e Maude Avery o adotaram com poucos dias de vida. Charles é um banqueiro que está sendo investigado pelo Fisco e Maude é uma escritora que  não entende porque as pessoas leem seus livros e ainda gostam deles! O sucesso para ela é sinônimo de fracasso. E Cyril... Não é um Avery de verdade, como seus pais – pais adotivos – sempre lhe dizem e ele sempre lembra as pessoas desse fato.

Um dia, ainda durante seus 7 anos, o advogado de Charles, Max Woodbead, realiza uma visita a Darthmouth Square e leva seus filhos: Alice e Julian Woodbead na visita. Curioso por ver aquelas duas peças – uma delas por não mais que dois segundos, mas dali nasce uma amizade que perdura anos e anos. Porém, para Cyril, a coisa toda vai mais além: ele descobre que sente algo mais que amizade pelo amigo.

Max e Julian moram no mesmo quarto no colégio interno, onde vivem suas primeiras aventuras. Com fugas e apanhando dos padres que eles sabem que ficam excitados com as surras, eles se formam e as vidas meio que se afastam.

Cyril já é um homem formado e trabalha no funcionalismo público num gabinete de ministro. Sabe-se gay, mas mantém oculto de todos. Por quê? Ser gay na Irlanda era proibido e passível de prisão. Uma desgraça para aquela sociedade moralista e retrógrada. Vemos através dele como os gays viviam: com famílias falsas, pagando adolescentes em becos ou fazendo sexo inseguro em banheiros públicos. Para sanar uma necessidade física, se arriscavam a contrair doenças, serem mortos ou presos simplesmente por uma injustiça da sociedade da época.

Vemos como o preconceito é grande, como as pessoas se acham capazes de julgar os outros através de algumas figuras que nosso protagonista vai encontrando em seu caminho. Até que, após um acontecimento fatídico, ele acaba se exilando na Holanda. E lá, pela primeira vez, ele de fato é amado e ama alguém.

Um ponto que acredito que é comum nos livros de John Boyne é o tema da Segunda Guerra Mundial. Pode não ser sobre isso de fato, mas mostra algumas de suas consequências. Tratado com muita sutileza e raiva, isso não passa em branco.

Após alguns anos, Cyril e sua família partem para os EUA. Afinal, um deles se torna um médico muito famoso no ramo das DST’s e aí entramos na época em que o HIV está epidêmico. A vergonha assola o país, pois tratam a doença como exclusiva dos homossexuais, quando naa verdade não é. Todos sabemos disso, mas a humanidade tem a tendência de demonizar aquilo que não conhece. Cyril faz trabalho voluntário e conversa com diversas dessas vítimas cuja família o preconceito manteve distante.

Já muito mais velho, ele decide voltar para sua terra natal, após muitas perdas e ganhos. E é aqui que eu discordo do nosso amigo do Mail on Sunday: apesar de toda uma trajetória triste, de tantos tormentos e desassossegos, Cyril finalmente encontra seu lugar. Finalmente pode olhar para trás e rever toda sua, decidir o que poderia ter mudado ou não e conviver com essas escolhas. Ainda serão dias de luta, serão dias de espera e dias de calma. Acredito que o final foi o que teve de ser.

Um encontro tremendamente desejado por aquele que lê (pelo menos foi o meu caso), depois de tantos desencontros. É lindo, como deveria ser. Perfeito em todas as suas imperfeições.

É um livro sensível que narra através de Cyril toda a luta de uma pessoa que busca pelo direito de amar. John Boyne acertou em cheio em tudo nesse livro, desde sua escrita impecável, quanto aos detalhes dados para cada personagem. Suas vidas, as histórias que contam... E de um humor que me arrancou gargalhadas enquanto eu lia.

Sinceramente... meu 2019 começou muito bem.