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15.2.19

{Resenha} Belgravia



Autor: Julian Fellowes
Editora: Intrínseca
Sinopse: Uma nova saga histórica, fascinante e irresistível, repleta de segredos e escândalos
Ambientada nos anos 1840, quando os altos escalões da sociedade londrina começam a conviver com a classe industrial emergente, e com um riquíssimo rol de personagens, a saga de Belgravia tem início na véspera da Batalha de Waterloo, em junho de 1815, no lendário baile oferecido em Bruxelas pela duquesa de Richmond em homenagem ao duque de Wellington.
Pouco antes de uma da manhã, os convidados são surpreendidos pela notícia de que Napoleão invadiu o país. O duque de Wellington precisa partir imediatamente com suas tropas. Muitos morrerão no campo de batalha ainda vestidos com os uniformes de gala.
No baile estão James e Anne Trenchard, um casal que fez fortuna com o comércio. Sua bela filha, Sophia, encanta os olhos de Edmund Bellasis, o herdeiro de uma das famílias mais proeminentes da Bretanha. Um único acontecimento nessa noite afetará drasticamente a vida de todos os envolvidos. Passados vinte e cinco anos, quando as duas famílias estão instaladas no recente bairro de Belgravia, as consequências daquele terrível episódio ainda são marcantes, e ficarão cada vez mais enredadas na intrincada teia de fofocas e intrigas que fervilham no interior das mansões da Belgrave Square.

Quem assistiu a série Downton Abbey vai pirar com esse livro, escrito pelo próprio criador da série, Julian Fellowes! 
“Ela estava naquele período da vida pelo qual quase todo mundo deve passar, quando a infância terminou e uma maturidade falsa, sem os impedimentos da experiência, dá à pessoa a sensação de que tudo é possível, até que a chegada da idade adulta prova que definitivamente não é.” 
Sophia Trenchard é uma jovem sonhadora, porém sabe planejar seus passos. Ela e seu pai, James Trenchard, desejam subir socialmente e sabem que para meros comerciantes isso é impossível. Afinal Lords e Ladys não trabalham e não constroem as vidas com as próprias mãos, como os novos-ricos. São vistos como vulgares e menos importantes que os duques e condessas, não importa que seu trabalho seja essencial para manter a qualidade de vida que levam. 

James é o comerciante que consegue prover a alimentação e tudo o mais para o exército em Bruxelas, que estava prestes a lutar contra Napoleão Bonaparte em Waterloo. Sabia que precisava se movimentar se quisesse dar a tão desejada guinada social e, coincidentemente, sua filha estava encantada por um jovem soldado, Edmund Bellasis... E ele retribuía seu amor. 

Edmund é filho da Condessa Brockenhurst, uma Lady durona que nunca iria desejar que seu filho se casasse com uma moça qualquer que só quer subir na escada social. O que ela não sabe é que os dois estão apaixonados e não pretendem deixar ninguém entrar no caminho deles. 

Edmund consegue para Sophia e sua família a chance de estarem no grande baile de Bruxelas que se tornou, posteriormente, histórico. Todos os presentes estavam eletrizados com a possibilidade de Napoleão invadir a qualquer momento, muitos já apresentavam alguma... Sabe a sensação de espera, de se saber que algo irá acontecer e você só não sabe o que? Então. 

Muitas vidas foram ceifadas naquele dia, alguns bravos jovens ainda estavam em suas roupas da festa quando partiram para a Batalha de Waterloo. 

Muitos anos se passam e agora os Trenchard são emergentes construtores de Londres, uma vez que a guerra já não mais dá lucro. Constroem desde grandes mansões de luxo a pequenas casas para os serviçais dessas grandes casas. Lady Brockenhurst é a dona de uma dessas grandes mansões na cidade. Ela e seu marido vivem tranquilos com sua fortuna, que um dia será de John Bellasis, o inescrupuloso sobrinho deles, filho do irmão mais novo de Lord Brockenhurst, um homem do clero que tem o danoso vício em jogos e precisa sempre se apoiar na enorme fortuna que um dia será de seu filho. 

John nunca precisou se esforçar por nada e quando o misterioso Charles Pope, um emergente dono de uma fábrica de tecido, vê seu reinado ser minado e fará de tudo para tirar o jovem de circulação. 

Charles Pope é uma figura que causa espanto nos Trenchard, mas já conhecido de James, um de seus investidores. Lady Brockenhurst também decide investir em seu negócio e causa furor na sociedade, inclusive em Maria Grey: a futura esposa de seu sobrinho. A jovem não é uma dama “comum” da alta sociedade. Ama ler e dar suas opiniões, é muito vivaz e quer que sua vida seja mais que um casamento arranjado, uma vez que ela e seu irmão, Reggie, tiveram que observar o fracasso que foi o casamento de seus pais. 

São muitos personagens com seu próprio núcleo de história. Os criados das casas são sempre presentes e possuem participação ativa, sendo fiéis aos seus patrões... Ou nem tanto assim. Alguns tem pretensão de trabalharem em casas ainda maiores, então fazem seu trabalho com zelo para terem grandes referências quando decidirem sair da casa. Outros também o desejam, mas agem por trás. Mesmo sendo crime naquela época passar para outras pessoas os segredos dos donos das grandes casas. 

Acredito que a trama de Belgravia é simples e um pouco previsível, mas há muitas reviravoltas durante o caminho. As mulheres daquela época precisavam saber muito “jogar” com as condições que lhes eram dadas, uma vez que não importa a situação, sempre ela seria a prejudicada e sua reputação poderia ser jogada na lama. Há aqueles que querem mais do que tem, os que vivem como se tivessem mais do que tem... os que culpam os outros por sua atual situação e que preferem derrubar outra pessoa ao invés de conquistar por si mesmo: seja fortuna, seja a dedicação e amor de alguém. 

Para aqueles que gostaram de Downton Abbey, Belgravia é um bom retorno ao clima daquela época. Desde que vi esse livro eu o desejei e, sinceramente, não me decepcionei. Consegui me encantar e imaginar os jantares, as trocas de roupas, o início do chá das 17 horas, haha! 

A capa reflete as mansões construídas por James Trenchard e as carruagens da época. É uma obra de arte a parte que te ajuda bastante a entrar no período. E ver que não é só o dinheiro que te transforma em alguém grandioso... O seu caráter e como você trata as pessoas é muito mais importante que qualquer fortuna.

13.2.19

{Resenha} Contos Clássicos de Terror



Editora: Companhia das Letras
Sinopse: O melhor das histórias de medo, uma seleção de tirar o fôlego e perder o sono. Neste livro, Stephen King, Shirley Jackson, Machado de Assis e outros dividem as páginas para mostrar toda a potência das histórias assustadoras.
Transitando entre o gótico, o horror e o terror — mas sem se afiliar a nenhuma dessas categorias com exclusividade —, os dezenove contos deste livro reúnem o melhor das histórias de medo. De Machado de Assis e João do Rio a Lygia Fagundes Telles; de Edgar Allan Poe e Robert Louis Stevenson a Stephen King, grandes nomes da literatura mostram ao leitor toda a potência do gênero.
Com seleção e introdução de Julio Jeha, esta antologia traz uma história de H. P. Lovecraft inédita no Brasil, além de uma nova tradução do conto “A loteria”, de Shirley Jackson. Em Contos clássicos de terror, o mal absoluto, o sofrimento de ocasião e até a maldade disfarçada de bem revelam personagens complexos e narrativas impressionantes.

Contos Clássicos de Terror reúne 19 contos de autores nacionais e internacionais conhecidos por se destacar no ramo da Literatura do Medo. Logo nas primeiras páginas, Julio Jeha, organizador desta seleção, nos presenteia com um pequeno texto sobre o medo, sua importância no crescimento pessoal do indivíduo, e como a literatura do medo atua nesse processo. É um ponto de vista muito interessante que ainda não tinha passado pela minha cabeça; a maneira como os contos de horror/terror mexem com nossa mente vão muito além de "dar sustos" e nossa visão em túnel não nos deixa aproveitar outros aspectos que a leitura deste tipo de narrativa pode trazer. 


O livro Contos Clássicos de Terror permitiu meu primeiro contato com alguns autores míticos da Literatura do Medo, como Edgar Alan Poe e Lovecraft. Também promoveu o reencontro com um autor brasileiro que eu amo desde a adolescência mas tenho me afastado nos últimos anos: ninguém mais ninguém menos que Machado de Assis. 


Temos vários estilos diferentes dentro da mesma temática. O tema sobrenatural é amplamente abordado em vários contos, mas também temos textos que nos arrepiam apenas ao mostrar uma amostra grátis do que um homem com uma mente perturbada pode fazer. Cada autor, então, dá seu toque pessoal ao livro e é óbvio que, ao longo da leitura, vamos estabelecendo nossos favoritos (obviamente, Vovó, de Stephen King, é a menina dos meus olhos). 

A diagramação do livro é PERFEITA, como sempre. A Companhia das Letras nunca deixa a desejar quando o assunto é transformar livros em obras de arte! A capa é dura, meio aveludada do jeitinho que eu gosto e com a combinação de cores que eu mais amo: preto com roxo <3 Combinando direitinho com os outros livros da estante. Cada conto tem sua própria "contra-capa" nessa formatação linda aí de cima... Como deu pra ver, tudo foi pensado nos mínimos detalhes pra você suspirar a cada virada de página.

Mas nessa mistura de autores icônicos, nem tudo são flores. Alguns contos deixam a desejar: seja pela finalização pobre, seja pela narrativa rasa (até mesmo para os parâmetros de um conto). É algo tolerável para um livro de contos de um único autor (afinal, ninguém é perfeito) mas, para uma SELEÇÃO, creio que o nível poderia ser um pouquinho mais alto... ou talvez seja apenas uma questão de gosto mesmo, vai saber?!

11.2.19

{Resenha} O conto da aia



Título original: The Handmaid’s Tale
Autora: Margaret Atwood
Editora: Rocco
Sinopse: Escrito em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, o a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano.

Aiai... Não sei nem por onde começar essa resenha. Comecei ela assim que terminei de ler o livro e só no finalzinho que eu entendi o que de fato eu estava lendo. 

Offred parece ser uma mulher em seus 30 e poucos anos. Talvez 33, como eu. Porém, nascida antes de mim, pois ela fala bastante de 1980 e eu só nasci em 1986. 


Com palavras simples, ela descreve o que estava acontecendo. Como teve início o país de Gilead, um local ultraconservador extremista que tornava as mulheres propriedade de um homem. O mundo está um caos, com guerras em todos os cantos e pessoas morrendo. E crianças são poucas as que ainda nascem e conseguem se desenvolver. 

Um grupo extremista de pessoas resolve então tomar o poder. De cunho religioso, eles invadem o Parlamento Norte-Americano e assassinam todos... E a Constituição é suspensa. A partir daí a coisa degringola para cada vez menos direitos e cada vez mais mortes. Não adiantava ir a passeatas ou acionar a polícia em casos de desaparecimento. 

Mas vou ajudá-los a entender um pouco sobre essa distopia (ou nem tão distopia assim, pois segundo a autora a grande parte das medidas de lei tomadas no livro de uma vez, já foram utilizadas em algum momento da história cada uma, o que é assustador). Como eu disse, uma nova ordem se instalou no país que conhecemos como Estados Unidos e seu novo nome é Gilead. Suas leis e crenças são uma mistura de ditadura religiosa mesclada com um socialismo que serve aos propósitos que eles querem (tipo uma variação doentia do mesmo). 

A sociedade se dividiu em... Classes? Algo assim. Existem as pessoas importantes para o governo, os homens é claro, e são chamados de Comandantes. Provavelmente os idealizadores da coisa toda. Cada um deles tem a sua esposa, muitas vezes provenientes de casamentos arranjados. Caso o casal não seja fértil, ou a mulher no caso porque a infertilidade só existe na mulher e é proibido dizer que os homens também podem ser estéreis. 

A mulher da casa, a Esposa, cabe a coordenação da casa. Apoiar as outras esposas, tricotar, fazer crochê, etc.. Se vestem de azul ou verde, vestidos ou saias. E, como disse, no caso da impossibilidade de filhos, o casal pode ter uma Aia. 

Um cosplay de uma Aia
A Aia é uma mulher que passou por um treinamento cruel. Muitas vezes arrancada de sua família e sua rotina por ser fértil, ela e muitas outras vão para um Centro de treinamento que é coordenado por... Outras mulheres. São chamadas de Tias, provavelmente por tentarem trazer alguma carga afetiva, mas na verdade são mulheres que estão ali para tentarem fazer com que tudo da vida anterior das aias seja apagado. Elas são ensinadas a partir da releitura de religião que esse novo governo tem e, baseado nela, permitirem que os maridos das esposas façam filhos, sem nenhuma resistência. E que ainda sintam pena das esposas e as respeitem, pois imaginem o quanto deve ser difícil para elas, né? E sim, deve ser mesmo... Mas na casa, elas detém o poder e, desde que não matem a aia, podem puni-la como acharem que devem. E usam vestes vermelhas, com véu e usam uma espécie de chapéu com abas que as impedem de olhar muito ao redor e impedem que os outros as vejam. A ideia é que pareçam sagradas e intocadas, mas são muito mal vistas pelas outras mulheres. 

Existem também as Marthas, que são a classe de mulheres que trabalham nas casas. Não dá muito para entender o tipo de vida que levam, mas que servem a seus patrões com trabalhos de limpeza e cozinha. E são chamadas por seus nomes, não lidadas como propriedade. 

Existem os soldados que são chamados de Anjos e existem os Olhos, que são uma espécie de espiões. Eles ficam de olho para encontrar pessoas que apresentam comportamento subversivo, que ferem a religião e as regras. Geralmente essas pessoas são condenadas à morte e seus corpos ficam expostos como exemplo para os outros. Existem também locais conhecido como Colônias, onde as pessoas são enviadas para trabalhar como escravos (ou seja, também é uma punição). Existem as melhorzinhas, como fazendas... E as piores, cujo trabalho é limpar lixo tóxico que podem matar as pessoas lentamente. 

Existem rebeldes, é claro. Mayday, é como se reconhecem, mas são muito obscuros. Sua atividade fica por baixo dos panos e há notícias sim de que sejam atuantes e que lutam, mas é tudo muito abafado. A tecnologia é muita, mas não para todos. Grande parte fica nas mãos do governo (dos homens). Às mulheres só resta a proibição: não podem ler. Se forem pegas o fazendo, podem perder uma das mãos e assim por diante. 

O dinheiro deixou de existir. As mulheres fazem compras com tickets que valem o que compram... Para ovos, carne, farinha... Somente as matérias primas, uma vez que as coisas são produzidas em casa agora. 


Pois bem. Offred está na residência do Comandante há pouco tempo. Serena Joy é a esposa, por volta de seus 50~60 anos e até onde Offred sabe, era uma militante por um governo mais religioso, deve ter sido uma das idealizadoras do estado atual do governo, mas foi delegada ao cargo de Esposa como deve ser. Ela e o Comandante parecem já não ter nenhuma química e único contato que aparentam ter é durante as Cerimônias (a ocasião em que os homens tentam fertilizar suas aias). 

Ela tenta sobreviver como pode, lidando com Marthas que a tratam bem o mínimo possível, Serena finge que ela não existe e o Comandante é alguém peculiar e que desperta em Offred curiosidades. O tempo todo a personagem principal conta seu presente e algumas lembranças de seu passado, embora saiba que voltar lá muitas vezes é um caminho sem volta. 

Ela conta todas as rotinas das aias, as compras, os rituais... Seu envolvimento com outras pessoas. É tudo um relato muito puro e tocante, de uma mulher que está tentando sobreviver. 

Apesar de ser um livro de 1985, suas questões são muito atuais. Tão atuais que dão até um pouco de medo de estarmos sendo direcionados para um mundo similar ao que ela vive. 


Há uma adaptação para a Tv e eu assisti apenas a primeira temporada (que retrata o livro todo, mas até agora são duas temporadas com a terceira quase pronta!). Muita coisa está diferente, foram adaptadas para agradar ao público, tenho certeza disso. Mas a essência ainda está lá. Admito que vi antes de ler, então dei aos personagens os rostos de seus atores, embora Serena e o Comandante sejam bem diferentes no livro do que mostra a série. E a série também é atual e não 1980, mas não fez diferença. Acredito que nos atinge ainda mais. Todas as cenas nos atingem de algum modo...


O livro nos atinge ainda mais. 

A emissora de tv Globo irá transmitir o primeiro episódio amanhã (terça-feira) depois do Jornal da Globo (e depois você pode continuar assistindo pelo serviço de streaming da Globo, a GloboPlay), então se você quer conhecer um pouco de O conto da aia, esta é a sua chance. Não a perca, faça todos assistirem com você e reflita bastante a respeito dela. 

Leitura imprescindível no mundo em que estamos vivendo agora.