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23.7.19

{Resenha} O Cemitério -Stephen King

Editora: Companhia das Letras
Sinopse: Louis Creed, um jovem médico de Chicago, acredita que encontrou seu lugar naquela pequena cidade do Maine. A boa casa, o trabalho na universidade, a felicidade da esposa e dos filhos lhe trazem a certeza de que fez a melhor escolha. Num dos primeiros passeios familiares para explorar a região, conhecem um "simitério" no bosque próximo a sua casa. Ali, gerações e gerações de crianças enterraram seus animais de estimação. Para além dos pequenos túmulos, onde letras infantis registram seu primeiro contato com a morte, há, no entanto, um outro cemitério. Uma terra maligna que atrai pessoas com promessas sedutoras e onde forças estranhas são capazes de tornar real o que sempre pareceu impossível.


Na faculdade de Medicina, aprendi que, didaticamente, o luto tem três estágios: negação, negociação e aceitação. Dificilmente, alguém pula estágios. Inevitavelmente, a aceitação acontece. Cada pessoa reage à sua maneira em cada um desses estágios, afinal, cada um enfrenta a morte de seu modo. Mas... e se pudéssemos burlar esse processo? E se a morte - acontecimento inevitável e irreversível - pudesse ser driblada? Num momento de desespero, qual o preço que estaríamos dispostos a pagar para ter a vida de um ente querido de volta? 

Driblar a morte. Vencer o luto de uma maneira impensável. Louis Creed se vê obrigado a contemplar tais temas quando se muda com a família para uma pequena cidade do Maine onde um antigo cemitério é protagonista de lendas acerca de poderes sobrenaturais.
Acompanhamos sua pacata rotina trabalhando como médico na enfermaria de uma universidade; assistimos sua mulher, Rachel, colocar as crianças para dormir; vemos juntos o nascimento da amizade entre Louis e Jud - o vizinho idoso e simpático que se torna uma figura paternal para nosso personagem principal.

Nesse cotidiano tão ... banal (por falta de melhor palavra), sobra espaço para conversas ao fim da tarde sobre os mais diversos temas e a morte acaba sendo o mais comum deles. 
A morte de um jovem rapaz na enfermaria, um sonho de alerta sobre os perigos do cemitério, a morte do gato de estimação da família, a ressurreição do gato ao ser enterrado no antigo cemitério(!), as dúvidas sobre os poderes do lugar e o preço a pagar pelo seu uso... 
Tudo acaba acontecendo muito rápido nessas 424 páginas. 

O Cemitério é algo totalmente diferente de tudo que já li. É um livro de terror, sim. É mórbido, claro. Dá medo, obviamente. Mas também me causou tristeza, acima de tudo. Ver o desespero das personagens acerca da morte, ver o medo que a morte pode causar, nada disso é aterrorizante: é triste. 

- Você é um bom sujeito, Louis, mas faz perguntas demais. Às vezes as pessoas fazem  coisas simplesmente porque lhes parecem certas. Mas se fazem as coisas e depois ficam achando que não agiram direito, se enchem de perguntas e ficam cheias de dúvidas que provocam indigestão, mas não no estômago, e sim na cabeça, e pensam que cometeram um erro. Entende o que estou dizendo? (...) O que eu acho é que as pessoas deviam questionar esses sentimentos de dúvida em vez de questionar o que o coração mandou que eles fizessem - Jud continuou, os olhos fixos nele. - Não acha que tenho razão, Louis?


Há passagens notáveis não pelo seu tom tenebroso, mas pelo seu lado reflexivo. King costuma fazer isso em suas obras mas ficou muito mais evidente neste livro. As conversas de Jud e Louis sempre convergem para conselhos e orientações - coisas que servem para nós, mortais, meros leitores. Foi, de longe, o que mais me agradou durante a leitura e o que me “segurou” até o final. 

A narrativa em terceira pessoa é lenta em acontecimentos, rica em devaneios e assustadora na medida certa. Alguns trechos pecam por devanear demais, chegando até a perder o sentido, e não fariam nenhuma falta na leitura; alias, ouso dizer que evitariam a fadiga que senti algumas vezes e que quase me fizeram abortar a leitura. Mas valeu a pena. Não pelo terror, não pela tristeza, mas sim pela lição e pelos conselhos do sábio Jud. King, dessa vez, foi muito, muito mais que entretenimento.