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3.2.20

{Resenha} Nocturna - Maya Motayne

Título Original: A Forgery of Magic
Autora: Maya Motayne
Editora: Seguinte
Sinose: Depois de se libertar da dominação dos inglésios, o reino de Castallan não esperava passar por mais nenhuma crise. Mas Dez, o herdeiro, foi assassinado, e agora nobres e plebeus precisam aceitar que o destino do reino está nas mãos do príncipe Alfehr, que passou meses fugindo de suas obrigações enquanto bebia tequila em alto-mar.
De volta a Castallan, Alfie não consegue acreditar que seu irmão morreu e, tentando provar o contrário, encontra Finn Voy. Graças à sua habilidade de assumir a aparência de qualquer pessoa, Finn está sempre usando um disfarce para se proteger de traumas de seu passado e de qualquer um que se meter em seu caminho.
Quando os destinos de Alfie e Finn se cruzam, eles acidentalmente libertam uma magia poderosa e antiga que, se não for detida, vai mergulhar o mundo em escuridão. Com o futuro de Castallan em suas mãos, o príncipe e a ladra terão de aprisionar essa magia obscura a qualquer custo, mesmo que, no caminho, precisem confrontar seus segredos mais sombrios.
Faz apenas alguns meses desde que Dezmin fora jogado em um abismo sem luz e também de quando o segundo príncipe, agora, o herdeiro do trono, saiu do reino para se aventurar pelos mares e os países mais distantes. Se embebedando e entrando em jogos de aposta ilegais. Tentando achar alguma maneira de sanar sua profunda tristeza pela perda do irmão, além de alimentar uma obsessão, talvez tão profunda quanto, de procurar uma forma de trazer seu irmão de volta, se apegando com tamanha força na ideia de que talvez Dez esteja vivo em algum lugar.

Voltando, relutante, para terra firme, para seu reino, que tanto espera algo grandioso de quem era apenas o "príncipe sem futuro" meses antes, o peso em seus ombros é algo que o faz querer sumir, para onde as ondas o chamam. Para o mais longe dali. Mas ao mesmo tempo sabe que não poderia desapontar o seu povo, muito menos a sua família.

Seus pais, tão tristes quanto, pela perda de seu primogênito, se mostram aliviados pelo retorno do príncipe, embora ele saiba que seu pai sempre se orgulhou e demonstrou mais de seu amor ao seu irmão, que era incrível e talentoso, o perfeito herdeiro para o trono. Já seu primo, e melhor amigo, com quem foi criado, como um irmão, ao lado de Dez, Luka parece mais distante do que nunca após a sua partida e apesar dele saber a razão, seu relacionamento parece longe de ser como era.

Mas antes de ser apresentado como o próximo rei de Castallan, Alfehr parece decidido em tentar mais uma vez reaver o irmão, entrando em mais um jogo de apostas naquela mesma noite, cujos prêmios envolvem livros ilegais de magia, tendo a esperança de que em algum deles, haja um meio de resgatar Dez da escuridão sem fim, na qual ele foi aprisionado.

O que ele não esperava, porém, era cruzar o seu caminho com uma ladra sem rosto, que rouba os prêmios que ele mesmo esperava ganhar naquela noite. E se isso não fosse o bastante, ele a reencontra na noite seguinte, em seu próprio castelo, roubando o maior orgulho de seu reino: o manto da invisibilidade. Mas claro, que os acontecimentos não acabam por aí, quando Luka, seu melhor amigo, quase morre envenenado em seus braços.
Desesperado por não querer perder outro irmão, o príncipe acaba adentrando um perigoso território da magia, desconhecida por ele até então, libertando uma terrível entidade, que busca apenas morte e calamidade em nome de seu mestre: Sombra, um deus antigo e temido por todos no reino, tido como um bicho papão, contado em histórias infantis.

A magia negra, que parecia mais uma coisa com vontade própria, faminto por um corpo que o levasse aonde desejava ir, possuía um após o outro, em busca de alguém cuja alma fosse tão escura quanto, sendo capaz de segurar toda aquela maldade num lugar só e espalhá-la ao mundo, para finalmente despertar seu tão esperado mestre.

Depois de ter seu pedido atendido, num acordo feito em meio ao desespero, o príncipe enxerga o perigo que seu erro apresenta para todo o seu povo e decide resolver isso por ele mesmo, e embora o medo fosse grande, Finn se junta à ele nessa corrida contra o tempo. Quando a vida de todo um reino está em jogo, com ninguém mais do que uma mulher que conhecera em menos de 48 horas como sua única companhia, a única escolha que Alfehr tem é de se tornar de uma vez por todas o herdeiro ao trono que todos gostariam que ele fosse, apesar de sua própria voz lhe dizendo que não seria tão bom quanto seu irmão.
"O homem gritava de agonia enquanto seu corpo queimava de dentro para fora, preenchendo-se com um poder feito para um deus, que, por ora, precisava se contentar com um homem."
Em Castallan, a magia é algo natural dos habitantes. Todos nascem com a facilidade para um dos quatro elementos, embora nem todos o estudem como poderiam. Mas ainda, há aqueles que possuem um propio, uma habilidade única e especial. Como é o caso do príncipe, enxergando todo tipo de magia, como se fossem distintas cores ao seu redor e a ladra, claro, com seu mudar de aparências ao simples toque de seus dedos, como se moldasse em argila.

Eu já havia me atraído muito pela sinopse e pelos personagens, mas conforme eu lia esse livro, mais apaixonada eu ficava pela riqueza de detalhes desse mundo e também pela imperfeição de cada um deles. Todos os personagens parecem incrivelmente críveis: suas ansiedades, traumas, medos, inseguranças, dúvidas, erros, etc.

Me identifiquei muito com o príncipe Alfie, por estar sempre pensando mil coisas e duvidando de si em muitos aspectos... É palpável o modo como ele se acha tão menos do que seu irmão, ao mesmo tempo que o ama tanto ao ponto de chegar ao nível que chegou, com a bebida, a obsessão, tudo porque ele realmente acreditava com todas as forças de que nunca seria um rei capaz, talvez nem metade do rei que o seu irmão seria. E o fato de todos ao redor pensar o mesmo, só aumenta a sua insegurança e a carga emocional que carrega. Mas é também nessa visão degradante de si mesmo que ele acaba se afastando de Luka, que também era como seu irmão, num momento em que ambos poderiam estar batalhando juntos e embora seu primo entenda o porquê dele ter partido sem ao menos um "adeus", ele não deixa de estar magoado e bravo com o príncipe por se afogar em bebida e jogos ilegais.

Gosto da perspectiva de opostos tão gritantes: um príncipe e uma ladra. Um rapaz nascido em berço de ouro, e uma órfã que sobrevive lutando com unhas e dentes para ter um lugar seu. E do modo como mesmo vindo de lugares distintos, os dois conseguem se encontrar em um meio para crescerem e desenvolverem um laço forte, apesar de tudo.

Finn cresceu trabalhando em circos, sendo controlada pelo seu "pai" Ignacio, um dos maiores motivos para ela ser do jeito que é, mas mais importante um dos maiores traumas da vida dela. Chamar aquilo de "relacionamento abusivo" talvez seja pouco para a psicopatia desse homem. Fazendo ela acreditar que ela era um monstro, digno de ódio e repúdio, sendo ele o único capaz de amá-la, fazendo-a matar e/ou machucar aqueles que se aproximassem dela, entre outras crueldades...

Que esteja dito...
"Ela não se importava se gostar de matar a transformasse em um monstro; qualquer monstro que acabasse com Ignacio era um santo só por isso"
O desenvolvimento dos personagens é algo que me admirou muito e talvez o que fez a história decorrer num ritmo ótimo. Apesar de estar sempre acontecendo coisas, já que tudo decorre em uns três dias, com a pressão e a ansiedade da calamidade pairando sobre eles, o relacionamento dos dois é algo que caminha lentamente, o que faz sentido e também o que ajuda o enredo a não desmoronar.

Mais do que os diálogos, gosto de ver os dois enfrentando seus medos juntos, mesmo que seja algo do qual eles não possam se livrar logo de cara. Mas encarando eles como devem ser, sem fazer disso algo grande demais ou pequeno demais. O respeito entre eles, entre suas próprias feridas é algo bonito de se ver. Em nenhum momento Finn disse como aquilo tudo era culpa do príncipe, ou como ele merecia o que quer que estivesse o machucando no momento por tal erro, porque ela entendia disso, ela entendia como Alfie pensava demais e com certeza estaria se torturando mentalmente desde o primeiro momento. Ao mesmo tempo que ele, entendendo o trauma dela em se ver presa por alguém, se ver forçada a fazer algo que ela não gostaria de fazer, não tentou, em momento nenhum, cruzar os limites de espaço entre eles, mesmo que ele se sentisse na necessidade de consolá-la, por exemplo, em um abraço. E embora, precisasse de sua ajuda, em um momento após o reaparecimento de Ignacio em sua vida, quando o medo tomou conta de si, fazendo-a decidir sair da cidade, tudo que ele faz é caminhar em direção à porta.
 "[...] a fez lembrar de quando, um pouco mais cedo naquele dia, ela tinha dito que não o ajudaria. E, em vez de tentar convencê-la até ela ceder, Alfie simplesmente se dirigira para a porta. Ele não a via como alguém a ser manipulado para servi-lo.
Ele a via como uma pessoa. Uma pessoa que havia dito "não"."
Com toda certeza esse foi um ótimo livro para se começar o ano de 2020 e espero ansiosamente pelos próximos da trilogia. Sendo o primeiro livro dessa autora, já devo dizer que ela terá muito carinho e expectativas de mim! Com toda certeza eu recomendo esse livro e recomendo mais ainda para as mulheres, acho que nós deveríamos ler mais livros escritos por mulheres.

"Mas não queria morrer com esse medo apodrecendo dentro dela, corrompendo-a como a magia obscura corrompia suas vítimas. Mesmo que só tivesse algumas horas antes de Ignacio encontrá-la novamente, queria que essas horas pertencessem apenas a ela e a mais ninguém, sem um segredo puxando-a para baixo quando tentava desesperadamente nadar para a superfície.
[...] Em seus olhos dourados havia o mesmo medo sem reservas que ela sentia nos ossos, uma vulnerabilidade que a deixava exposta a tudo que estava por vir. Mas havia um poder nesse medo que surgia entre eles, um poder em saber que a morte se aproximava e que não havia tempo para fingir, para ser alguém além de quem realmente era, sentir alguma coisa além do que aquilo que sentia."

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